Chico Faria: «Leixões é da terra... mas eu sou leão!»
"Fui para o Sporting por opção", lembra Chico Faria, contando que teve "convites dos três ‘grandes’ e da Académica" no ano em que saiu do Leixões e não se arrependeu de "dar ouvidos" ao coração: "Tinha a inclinação do Sporting..."
EMBORA nascido em Matosinhos e criado na saudosa geração dos "bebés" do Leixões, Chico Faria não tem dúvidas em se colocar ao lado do Sporting para o jogo que as duas equipas disputam amanhã para a Taça de Portugal. Em Alvalade conheceu as maiores glórias enquanto extremo-direito de eleição, foi no Sporting que ganhou tudo o que havia para ganhar e, como refere Chico Faria, "esses momentos deixam marcas que nunca mais saem".
Enquanto membro dos "bebés", lembra que "havia a grande preocupação de jogar bom futebol" e desfila os nomes dos craques mais afamados, junto com os "clubes grandes que apareceram" a ir buscá-los a Matosinhos:
- Tínhamos grandes jogadores, a começar pelo meu irmão Horácio... O Fonseca, o Praia, o Barros saíram para o Benfica na mesma altura em que eu saí para o Sporting; havia o Nicolau (Vaqueiro), o Neca, o Adriano... e sei lá quantos mais. Para além de existirem as pessoas indicadas para cativar os miúdos, como o falecido Óscar Matos, essa célebre equipa nasce de toda uma forma de estar e de lidar com os miúdos que cativava a rapaziada para o Leixões.
- De que forma?
-Tinham pessoas que viam os miúdos a jogar na praia ou na rua, que os levavam depois ao clube. Aí, fomos muito acarinhados por técnicos como o António Teixeira, que não teve medo de lançar jovens, que frutificaram no clube. Da nossa parte, havia muito amor ao futebol e jogávamos sem qualquer compensação: só soube o que era um prémio, simbólico, quando jogava pelos juniores nos Nacionais. Até aí era puro amadorismo, o gosto de jogar futebol e muita vontade.
"Devo tudo ao Sporting"
- Onde e como foi "descoberto" o Chico Faria?
- Eu jogava em qualquer lado! Desde que não aparecesse a polícia, era ali mesmo na rua... Mas tinha a praia ali perto, que era uma tentação, porque era o sítio onde não nos multavam. A partir daí, fizeram uma prospecção de todos os miúdos que andavam ali a jogar e eu fui um dos eleitos. Nas escolas do Leixões fomos muito apaparicados e educados para o mundo do futebol até ao final da formação.
- Porquê o Sporting após uma época a jogar pelos seniores com idade de júnior?
- Por opção minha. Tive convites dos outros dois "grandes" e da Académica, mas já tinha a inclinação para o Sporting e não me arrependo nada. Eu era leão...
- E viveu em Alvalade tempos de glória...
- Foi bom. Fui duas vezes campeão, ganhei três Taças... Devo ao Sporting tudo o que consegui. Fui bem tratado e encontrei uma massa associativa (ainda hoje é assim) que tolera quando o jogador não joga bem, desde que não saiba jogar mal. Quem lutava e quem corria, como era o meu caso, tinha sempre apoio. Eu não parava, dava o chamado "litrinho" e por isso fui acarinhado. Não me lembro de ter sentido o peso das bocas ou assobiadelas. Podia não jogar bem, mas esforçava-me e suava a camisola. Isso continua a ser importante para os sócios do Sporting e veja-se o caso do Sá Pinto, que pode ter um ou outro mau jogo, mas será sempre acarinhado pela massa associativa, porque nunca nega entrega ao jogo.
Hilário "sentado" no Mar
- Fez algum jogo em especial ao serviço do Leixões que tenha precipitado a ida para o Sporting?
- Lembro-me de um jogo no Estádio do Mar em que as críticas me foram altamente benéficas. Mas não posso dizer que tenha sido um jogo decisivo, porque já era internacional júnior, fui o melhor marcador do campeonato europeu em França... Acho que foi fruto de toda uma época. Mas nunca mais esqueci esse jogo e acho que o Hilário (que foi depois meu companheiro) também não: as coisas saíram-me bem e eu sentei-o várias vezes. Dei-lhe muito que fazer nesse dia.
- Desta vez, por quem estará sábado a "torcer"?
- O meu clube de infância, da minha terra, é o Leixões. Mas eu sou leão. O clube onde vivi os momentos áureos da minha carreira, que me proporcionou tudo, foi e continua a ser o Sporting. O Leixões irá encarar o jogo com muita vontade, porque Taça é Taça e tudo pode acontecer, mas o Sporting é claramente favorito.
- De que forma sentiu as crises dos seus dois clubes, com o longo jejum que o Sporting iniciou pouco depois de ter saído e a fase de declínio do Leixões?
- Olhe: há três "grandes" para um poleiro. A fase que passou o Sporting já a tinha passado o FC Porto e, de momento, está a passá-la o Benfica. Acompanhei com mais pena a crise do Leixões, que começou quando caíram na asneira de correr a juventude das escolas e para irem buscar um "navio" de brasileiros.
- Foi uma alegria grande voltar a ver o Sporting campeão a época passada?
- Valeu por dois títulos! São momentos que não esquecemos.
«Espero que se lembrem do Chico»
Depois de, aos 36 anos, ter acabado a carreira de futebolista no Marítimo, Chico Faria encetou em Braga diversas iniciativas empresariais. Dedica-se actualmente ao ramo do pronto-a-vestir, detendo (entre outros) os direitos de comercialização da Spencer, que é representada em Portugal pelo sportinguista João Pinto.
As experiências que já teve enquanto técnico de futebol (desde o apoio dado ao Joane, à orientação do Limianos e à integração da equipa liderada por Manuel José no Sp. Braga) não foram muito duradouras, mas Chico Faria mantém o "bichinho" do futebol, e aos 51 anos, ainda não perdeu as esperanças de que um dia alguém se volte a lembrar dele.
Com indisfarçável arrependimento, lembra a altura em que os afazeres empresariais o forçaram a recusar um convite para ser "olheiro" do Sporting:
- Aqui há uns anos fui contactado para representar o Sporting na zona Norte, não só para ver jogadores, mas também para exercer outro tipo de contactos. Na altura a minha vida profissional não mo permitia mas, nesta altura, veria com bons olhos um convite desse género. E falo do Sporting como falo do Sp. Braga... Sei que poderia ser muito útil e, independentemente de verbas, continuo à espera de que se lembrem do Chico. A minha disponibilidade é total para tudo o que seja ligado ao futebol, desde integrar uma equipa técnica, a um cargo ligado à prospecção, às relações públicas, ou coisa no género.
«A pé às cinco e meia para treinar às sete»
"Treinávamos pela madrugada, às sete da manhã. Púnhamo-nos a pé às cinco e meia, de Inverno, para treinar... Eram tempos dificílimos que, felizmente, os jovens de hoje não conhecem. Praticávamos o futebol com amor. Se eu disser ao meu filho para ir treinar a um campo pelado, debaixo da chuva, às seis e meia da manhã, ele manda-me a mim e não vai."
«Leixões rejeitou Humberto por escassez de técnica»
"O Leixões fazia prospecção por todos os clubes dos arredores. Humberto Coelho foi um dos que chegou a ir treinar ao Leixões nessas condições e foi rejeitado. Porque, embora tivesse um bom porte atlético, tecnicamente não era aquilo que veio a ser e não encaixou dentro da bitola habilidade que se exigia para jogar no Leixões."
«Saí do Sporting prematuramente»
"Não fui mandado embora do Sporting. Saí porque quis, num período conturbado, a seguir à revolução de 74. O ambiente em Lisboa não era o melhor. A minha mulher (de quem me vim a divorciar) era de Braga e fui aliciado pela família dela para aceitar um convite do Sp. Braga. Mas acho que vim prematuramente, porque o Sporting tudo fez para eu continuar lá."