Dani: «No Sporting era uma carta fora do baralho»
Amsterdão --A chuva não pára. Miudinha e chata, batida por um vento que quase faz gelar o nariz e obrigar o turista menos preparado a correr a um qualquer armazém e comprar roupinha a condizer com a temperatura. Amsterdão é assim, cinzenta, fria mas bela.
Aqui vive Dani, o menino querido do Ajax, alvo predilecto de fãs que não perdem a ocasião para lhe solicitarem autógrafo, mesmo na altura em que, tranquilamente, se sente à mesa de um qualquer restaurante.
De sorriso rasgado, aceita o convite, consciente de que atrás de dez, surgem vinte e a sessão dura uma meia hora bem contada. Depois, em jeito de desculpa, não esconde que "é a imagem do clube que está em causa e esta situação aprendi-a aqui. São sementes que se lançam e que no futuro dão outros tantos adeptos".
Pois bem, só por isto está na cara que o Dani que viemos encontrar já não é o Dani que conhecemos há anos atrás, imaturo e inexperiente ante o mundo que desabava a seus pés, com dinheiro e fama quanto baste, capaz de lhe satisfazer todos os caprichos ao mais leve estalar dos dedos. Hoje, o estilo e o modo tem marca de qualidade, ganha, é verdade, no dia-a-dia de uma mentalidade diferente, no trabalho permanente num clube que se orgulha da sua escola e disso faz escola.
Por outras palavras, no Ajax, esse Dani de quem se disse mundos e fundos, a quem se futurava uma passagem sem jeito pelo "lado de fora" de uma grande carreira, ganhou estofo, cresceu, e sem abdicar da sua personalidade, entrou no trilho que o levará, sem ponta de dúvida, ao pódio dos campeões. É que se fosse necessário, para confirmar o que dizemos, encontrar uma prova qualquer bastaria acrescentarmos que o Ajax já lhe fez a proposta para uma renovação do contrato por mais... cinco anos! E no Ajax não se aposta no "escuro".
O ArenA tem o tecto corrido. Chove. Um cenário normalíssimo por estas bandas. No relvado principal decorre o treino normal. Sectorizado mas mexido. Dani não está no grupo. A época "já terminou" para ele. A lesão que o vem afastando dos campos desde o início da segunda volta faz-se sentir de novo. E entre a ida imediata para o bloco operatório, optou-se por mais quinze dias entregues a um fisioterapeuta, última tentativa para evitar a viagem a Munique e aí se entregar nas mãos da ciência.
Trabalho específico, almoço no estádio e, depois, a conversa em... português.
Com o "tal" Dani diferente a quem Amsterdão, pelos vistos, fez muito bem. "Pois fez. Fez e continua a fazer. Naturalmente que no início passei, como todos, por um processo de adaptação a um estilo de vida novo e completamente diferente do nosso, mas depois a vivência trouxe, também, um amadurecimento sentido, as modificações que o Ajax me obrigou a fazer, pessoal e profissionalmente, deram-me outra maturidade, outra capacidade. É evidente que poderia ter conseguido isto noutro sítio qualquer, mas aqui, não o escondo, fui obrigado a ser mais radical em relação à minha maneira de jogar, à maneira de ser profissional nesta casa. É conhecida a imagem do Ajax, a sua filosofia muito própria e eu, obviamente, tive de absorver isso rapidamente para, o mais depressa possível, poder discutir o meu lugar na equipa."
-- Hábitos diferentes...
-- Muito diferentes. Vinha habituado ao que se faz em Portugal e encontrar estilos muito distintos, obrigou-me a inverter muita coisa que estava habituado a fazer. Hoje, estou bastante contente por ter conseguido essas mudanças. E não pense que foi só na vida exterior. Nada disso. No início estava sozinho e neste país janta-se às 19 horas e às 22 tudo está recolhido. Não estava mentalizado para isso e a solução foi aprender a cozinhar, a fazer as minhas refeições, a arrumar a casa. Foi uma experiência muito positiva. Profissionalmente tive de acordar para o factor disciplina. Nos primeiros tempos chegava aos treinos um pouco atrasado. Era chamado à atenção. Mesmo que fosse só um minuto. Van Gaal dizia-me: porque não chegas 10 minutos antes das 10, como todos os teus colegas? Tem de ser! E foi. Era necessário. Não havia tolerância para ninguém, tivesse o estatuto que tivesse. Hoje não custa nada.
-- Uma autocrítica ao que fazia? Hoje, se analisasse esse passado, o que não voltaria a fazer?
-- Não vamos por aí. Estas coisas aprendem-se e quando se assimilam não desaparecem. Aqui funciona tudo com disciplina, com rigor. E todos -- repito, todos -- cumprem!
-- Está a fazer uma crítica aos hábitos portugueses?
-- Entende assim? Seja. Mas já que me fala assim, sempre lhe direi que, no Sporting, toda a gente me dizia -- e diziam aos jornais -- que eu era uma "grande esperança", mas, estranhamente, essa grande esperança não jogava. Toda a gente falava em mim, toda a gente dizia que eu "podia fazer e acontecer", mas não jogava. Era uma carta sempre fora do baralho. Como queria que ficasse? Obviamente insatisfeito, frustrado.
-- Não seria um círculo vicioso: não jogava porque o "treino invisível" (a vida nocturna) não era o melhor?
-- Não só isso. Julgo que acabava numa opção do treinador e as justificações que me eram dadas assentavam sempre na mesma tecla: "Ainda não tinha amadurecido o suficiente, como jogador, para entrar." Claro que era uma situação aceitável e até certo ponto verdadeira. Porém, era um contra-senso fazerem de mim um "emblema" e transmitirem uma imagem para o exterior de um jogador que teria de actuar em todos os jogos. Daí que, não jogando no Sporting, a minha reacção era uma e, jogando na selecção nacional, era outra. O erro era meu ou de quem nunca tratou de me preparar?
NÃO ME DESLUMBREI
Pois: 18 anos, o mundo a seus pés e um contrato profissional que lhe permitia gozar os prazeres da vida. Terá sido esse deslumbramento, talvez natural para quem tem essa idade, a causa próxima do início algo complicado?
"Nunca me deslumbrei com nada. Felizmente, até aí nunca tinha tido problemas financeiros e, como tal, o dinheiro, por mais ou menos que tivesse, nunca me subiu à cabeça. Continuei a ter uma ida igual à que antes fazia. Gostava de estar com os meus amigos, de estar noutras situações que não pertenciam ao mundo do futebol e só me teria de preocupar em procurar ser mais recatado. E a partir do momento em que o futebol me colocou na prateleira das figuras públicas, muita coisa se modificou."
-- Aceita que cometia excessos?
-- Poderia cometer ou não. Se calhar existiam antes e continuam a existir. No entanto, se jogasse todos os domingos teria forçosamente de descansar. Se não jogava...
-- Nota-se, pela maneira de argumentar, uma certa revolta.
-- A única revolta que tenho é por não ter jogado. Quando começaram a falar do Dani, tinha 18 anos e regressava do Qatar, toda a gente dizia que eu não sairia para lado nenhum, que ficaria em Alvalade, era o futuro, era um emblema do Sporting. Depois... não jogava! E para lhe mostrar a diferença das coisas, só lhe digo que quando aqui cheguei, Van Gaal disse-me logo que "tens de esperar cinco ou seis meses para te adaptes à nova cidade, para começares a assimilar a filosofia do Ajax, o sistema de jogo". E sabe o que aconteceu? Passados três meses estava a jogar na Liga dos Campeões e no primeiro jogo que faço, marco dois golos!
-- Que quer dizer com esse exemplo?
-- Que aqui, sendo uma aposta do Ajax, fui acompanhado, ensinado, trabalhado. Seis meses antes, no Sporting, era considerado um jogador que gostava dos prazeres da vida, de sair à noite, de levar uma vida inadequada para um profissional. E não jogava! Seis meses depois mudei assim tão abruptamente? Julgo que não. As mudanças que existiram assentaram, repito, no trato que tiveram comigo.
-- Mas esse tempo serviu para o tal amadurecimento que já falámos.
-- Sem duvida. Mas sei que não mudei em proporção ao meu rendimento na equipa. No Sporting, eram muitas palavras e nenhuns actos; no Ajax foram mais actos que palavras! Esta é que foi a grande diferença.
-- Quer dizer que a saída do Sporting foi a melhor opção?
-- Claro que foi! No momento, não tinha muito a noção disso. Como não tinha a noção de muitas outras coisas, de como era o futebol profissional ou como era necessário ser para estar nele. E ninguém se preocupou em me formar, em me ajudar. Só aqui, no Ajax, isso aconteceu!
-- Sentiu-se enganado?
-- Bastante. Mas só o senti mais tarde, quando saí. Passava o filme dos elogios, das promessas que eu constituía depois de um qualquer jogo pela selecção ou quando regressei campeão do mundo do Qatar, da "bandeira" que era para o clube, do futuro que simbolizava e, depois, quando não jogava ou quando aparecia na Comunicação Social que tinha faltado a um treino ou que "não era um profissional a sério e assim nunca conseguiria ser um bom jogador", logo a Direcção estava por trás e em vez de me apoiar fazia o contrário, ameaçava com castigos e mais castigos.
-- Sporting é passado. Nunca mais será futuro?
-- Duvido!
-- A mágoa é grande?
-- É, obviamente que é. Foi preciso vir para o estrangeiro para começarem a dar-me valor quer como profissional de futebol quer como homem.
-- Vamos lá ver: a função de ensinar pertencia aos técnicos?
-- E não vou negar que Carlos Queiroz até, se calhar, tentou de uma forma pedagógica indicar-me o caminho, mas a verdade é que também não me punha a jogar.
-- Até parece que, nesta situação toda, o Dani tivesse sido o menos culpado, o profissional "bem comportado".
-- Não, não quero dizer isso nem, também, aligeirar as culpas que reconheço ter tido. Assumo tudo isso. Mas também sei que muita coisa me devia ter sido ensinada, explicada e não foi. E já agora -- os factos comprovam isso -- a postura que tiveram comigo, tiveram com outros talentos que despontaram em Alvalade e também lá não vingaram. Talvez comece aqui, nesta postura, a longa travessia do deserto em termos de títulos. Será bom alguém se debruçar sobre isto e começar a corrigir os métodos.
NÃO SAÍ POR DINHEIRO
A saída da "coqueluche" de Alvalade para além de ter proporcionado algum encaixe de dinheiro ao Sporting, melhorou o nível salarial de Dani. Disse-se, na altura, que as ambições do jogador não eram comportáveis aos cofres leoninos.
"Definitivamente: não saí do Sporting por dinheiro! Até lhe digo mais: não vim para o Ajax ganhar muito mais do que o que ganhava no Sporting. Ganhava mais no West Ham do que recebia em Alvalade e do que vim receber no Ajax. Mais tarde a situação modificou-se, mas quando aqui cheguei logo me avisaram que só me valorizariam o contrato quando demonstrasse ser um jogador do 'top'. Enquanto isso não acontecesse... tinha um contrato baixo. Foi preciso mostrar isso, de facto."
-- Um incentivo...
-- Sem dúvida que sim. E o principal culpado disso foi Van Gaal e jogadores como o Litman, de facto líder da equipa e que não era pessoa de só passar a mão pelas costas, que me aconselharam calma, me apoiaram em tudo, não me deixaram desanimar. Repare: quando aqui cheguei pensei que era um jogador supertecnicista. Fui para um treino e... não conseguia recepcionar uma bola em condições. Batia na bota e saltava para longe. Porquê? Porque os passes eram rápidos, a bola vinha com muita força. E Van Gaal logo me aconselhava a fazer assim e assado. Não marquei dois golos de cabeça? Inédito em mim. Porque fui ensinado nas movimentações, porque me explicaram que deveria fazer isto e aquilo e surgir ali ou acolá. Pelos técnicos e pelos colegas que se afirmavam e tomavam posições. E quando cheguei ao Ajax, no plantel estavam nove jogadores da selecção nacional.
-- Julgo que está a fazer comparações exageradas Sporting também tinha grandes líderes.
-- Se calhar tinha, mas eram teóricos. Nunca vi tomarem grandes posições em função dos jogadores. Cada um lutava pela sua própria identificação, não em prol da equipa, não em prol do futebol, mas... em defesa própria!
-- Qual foi, no fundo, a grande diferença entre Sporting e Ajax para a mudança do seu comportamento?
-- É que no Ajax comecei a jogar. Apenas e só isto!
-- Mas o facto de ser considerado, em Alvalade, como "bandeira", era uma maneira de espicaçar o seu brio.
-- Era? E não jogava. Treinar, treinava, mas chegando ao dia do jogo, ficava de fora! E sempre joguei, desde as camadas jovens. Fui capitão durante muitos anos.
-- Esse querer jogar sempre, não será sinal de vedetismo?
-- Não. Julgo que é um sinal, sim, de que há um passado sem mácula e quando chego ao topo, aos seniores, passo para suplente. O curioso é que as pessoas nunca pensaram em mim como suplente, pelo contrário, era a tal bandeira.
-- Há coisas que não se podem esquecer, nomeadamente o esforço em possibilitar-lhe um treinador "próprio", nas férias, para lhe dar estatura física.
-- E depois cheguei à equipa e não joguei!
-- Martela sempre na mesma tecla.
-- Porque é a verdade. Só uma vez joguei, em Guimarães, e fui informado a três horas do jogo. Fiquei a tremer, nervosíssimo. Durante a semana ninguém me preparou para essa situação.
-- Então um jogador não tem de estar preparado? Se fazia parte do lote dos convocados...
-- Claro que tem, mas era a primeira vez que ia jogar e, repito, havia muita coisa que não sabia. Mas comparo com o que aconteceu no Ajax. Fui para estágio, era um jogo da Liga dos Campeões e desde 2ª até 4ª-feira o treinador começou a preparar-me, aconselhando-me a analisar as situações de jogo e a indicar-me como deveria proceder, que movimentos deveria executar. Se calhar na 2ª-feira custou-me a adormecer, mas na 3ª-feira já estava preparado.
AINDA RECORDO ALVALADE
Por muito que se diga, por muita mágoa que se tenha, há coisas que não se esquecem, há recordações que ficam sempre. Ou não?
"Há, sem dúvida. Desde as camadas jovens -- muitas e boas recordações -- até à final da Taça de Portugal. Estive 11 anos no Sporting e tudo o que aconteceu até ir para os seniores, foi fabuloso! Depois, foram as contradições todas que se viram. É que no Sporting há grupos e qualquer clube que tenha grupos dentro do grande grupo que é a equipa, terá de sofrer consequências disso, são sempre nocivos."
-- Mas também tinha grupo.
-- Não. Se se está a querer referir à amizade que existia entre mim, Sá Pinto e Dominguez, ela não formava grupo. Apenas éramos amigos também fora do campo. É crime? Como éramos pessoas que não se limitavam a viver fechados em casa ou a evitar outras situações normais na sociedade, éramos apontados a dedo como os culpados das frustrações da equipa.
-- E não se apercebia disso?
-- Eu não. Os outros, não sei. Se calhar o Sá Pinto, com mais anos de profissionalismo, apercebia-se disso.
-- E não o avisava?
-- Até era capaz de o fazer, mas não vinha para casa pensar nisso. Nunca pensei que houvesse esse tipo de situações.
-- Quais?
-- Que este jogador estaria contra mim, que aquela pessoa estaria contra mim, que o director técnico não gostava de mim. Nunca pensei nisto porque nunca admiti que houvesse este tipo de coisas. Quem mal não pensa, mal não cuida.
Acredito em Roquette
Dani fala de um passado recente, mas há gente que já não "mora em Alvalade". Por isso, e como o futuro se constrói com o presente, acreditará neste presente?
"Acredito, muito embora o presidente tenha falado uma ou duas vezes, se tanto. Mas acredito que o Sporting possa, agora, dar o salto que os seus associados merecem. Está a construir uma equipa bastante boa e faltará a pontinha de sorte que faça com que não se falhe nos momentos decisivos. Nos outros clubes -- nomeadamente o FC Porto --há mais serenidade nas situações complicadas e isso faz com que as conduzam ao triunfo. No Sporting, as coisas não se percebem. Há 16 anos sem ganhar um título, diz tudo!"
-- E o Ajax?
-- Tenho mais dois anos de contrato e, depois, irei tentar ficar no estrangeiro. Não sei se Espanha, Itália ou continuar na Holanda. O Ajax propôs-me já mais cinco anos de contrato, o que revela estarem contentes com o meu trabalho e têm grandes planos para o meu futuro.
Este ano a época já acabou -- e perdi metade dela -- devido à lesão que tenho -- uma fibrose junto ao púbis -- e vou começar a estudar a hipótese de renovar com o Ajax. Sem pressas. Se não acontecer a renovação, irei fazer mais dois anos de contrato e, depois, partir para outra.
-- Resposta a quem perspectivava passar ao lado de uma grande carreira?
-- O que já fiz, futebolisticamente, fala por si, muito embora ainda não tenha atingido o patamar que desejava. Falta-me fazer uma época inteira a titular. Se não fosse a lesão, tinha sido este ano. Mesmo assim fiz 26 jogos.
-- No Sporting, quantos fez?
-- Não sei. Nem dez, julgo eu...
-- Faz parte de geração do futuro. Não receia novos falhanços?
-- Não, julgo que não. Tenho bastante vontade em colaborar nos êxitos da minha geração de futebolistas portugueses. Para isso trabalho com a cabeça no Ajax, no próximo jogo e na selecção. E não tenho medo nenhum das expectativas que se estão a criar quanto à selecção.
-- A aposta na renovação...
-- É essencial. O trabalho que está a ser efectuado agora e a renovação que vai ter de ser feita permite pensar que estamos, finalmente, a encontrar um grande grupo de trabalho, a construir uma equipa e não a ter seis ou sete jogadores de grande categoria, peças fundamentais nos seus clubes Europa fora, mas que chegam à selecção e não conseguem aglutinar forças. Quanto mais deixarmos de usar a selecção para emblema próprio e tudo funcionar em função do grupo, melhores resultados aparecerão.
-- Volta a falar em "emblemas próprios". Também na selecção?
-- Nem sempre há, mas há situações em que isso acontece. Claro que cada um de nós quer sempre jogar e fazer o melhor para que se possa valorizar, mas penso que tudo terá de ser feito pelo "todo", de forma consciente. Há que pôr um bocadinho de gelo quando começamos a pensar no ego.
«ESCOLA DO AJAX FOI FUNDAMENTAL»
Amsterdão -- Vem de longe a fama desta "escola". "Laranja Mecânica" foi a frase escolhida para simbolizar a arte de bem jogar. Para Dani, uma escola que foi vital ao seu desenvolvimento profissional e humano?
"Sem dúvida que tive em toda esta organização o apoio preciso para a evolução que desejava e se impunha face à carreira que queria construir. A juntar às regras que emanam da disciplina "caseira", foi fundamental, também, a mentalidade que a maior parte dos jogadores tem, independentemente do seu valor, do seu prestígio, da sua idade. Nunca me senti um estranho, nunca me senti desapoiado, nunca fui estrangeiro! Com isto digo tudo. E se o mister me dava conselhos, os meus colegas não ficavam atrás.
Dentro do campo, durante a semana, a luta é sã por um lugar na equipa. E isso é tudo muito estimulante!"
-- Van Gaal é recordação?
-- Uma agradável recordação. Se no capítulo técnico é excepcional, como homem é extraordinário. Vou-lhe contar uma coisa que me aconteceu nos primeiros tempos de cá estar: as pessoas jantam cedíssimo (para os nossos hábitos) e às 22 horas já estão deitadas. Não suportava isso. No meu apartamento tinha imensos jogos, desde um snooker até ao pingue-pongue. E às vezes, a jogar snooker, as bolas caíam. Era o bom e o bonito. Até que um dia alguém telefonou para os jornais a dizer que "o Dani jogava snooker até altas horas" e isso foi publicado.
Quando a notícia saiu, o mister chamou-me e disse-me que queria vir a minha casa. Viemos. Qual não foi o meu espanto quando chegámos, foi bater às portas dos vizinhos criticando-os pela atitude tomada em telefonar para os jornais e fazendo ver que estava cá sozinho, vinha de um país com outros hábitos de vida e que eles fariam muito bem era em ajudar à minha integração no estilo de vida holandês.
Esta atitude nunca mais a esquecerei. É muito significativa!"
CAMISOLA 14 DE... CRUYFF
Amesterdão -- Dani veste a camisola 14. Que foi de Cruyff. Uma honra que tem história...
"Quando vim, o Cruyff fazia os comentários dos jogos e, nas suas afirmações, dizia que eu iria ser o segundo Cruyff, mas que tinha de jogar. Van Gaal não gostava, mas a camisola que me deu foi a 14! Uma honra, sem dúvida. Um orgulho muito grande que tudo farei para engrandecer cada vez mais!"
«GRATO A MUITA GENTE»
Amsterdão -- Nem tudo pode ter sido mau no Sporting. Vincando o que disse, os anos passados nas camadas jovens foram fantásticos. Esquecer essas pessoas ...
"Mas quem disse que as esqueci? Nem por sombras! Há pessoas que levo no pensamento durante muitos anos. No pensamento e no coração! Como posso esquecer Aurélio Pereira, os técnicos César Nascimento. Oswaldo Silva, Rui Palhares... Não posso. Foram pessoas que me acompanharam assiduamente e tudo me ensinaram. Se os visse agora, abrir-lhes-ia os braços de alegria! Mas outras pessoas... prefiro esquecer como se chamam!"
-- Quem ?
-- Já me esqueci dos seus nomes!
«UMA CASA PORTUGUESA»
Amsterdão -- Com certeza! Com vinho, bacalhau e fados! Restaurante Girassol, de seu nome, e ponto de encontro de muitos portugueses aqui radicados e de mais holandeses que já têm no sangue a nostalgia do fado que o Manuel Marques e a Maria de Fátima tão bem cantam e Nuno Gligó e Manuel Mendonça tão bem tocam!
Um recanto luso -- com bandeira e tudo! -- e decoração a condizer, onde não falta o galo de Barcelos e as redes que o meu povo de pescadores e marinheiros tanto honram!
Se vier a Amsterdão, e se o destino o trouxer a uma quinta feira, já sabe que no Girassol há uma noite especial e que... nessa noite (quase sempre) lá encontrará o Dani!
É que a noite especial foi marcada para as 5ªs feiras, porque o Carlos Teixeira -- o proprietário e que por cá vive há já 20 anos! -- decidiu fazê-la na "noite livre" do compatriota Dani.
Bonito...
«NÃO SOU MODELO»
Amsterdão -- Futebol e modelo... funções mais ou menos inconciliáveis. A exigência profissional não permite devaneios noutras "artes".
"Não sou modelo! Nem nunca me passou pela cabeça, isso. Já agora, a única vez que isso aconteceu foi num gesto de colaboração com uma associação e para uma causa nobilíssima como é a SIDA. Só por isso. Colaborei -- eu e outros -- e fui apontado como modelo a que se juntaram críticas perfeitamente negativas!
Aqui, no Ajax, simultaneamente com o contrato profissional, assinamos um contrato de imagem e o meu, é verdade, rende-me tanto como me rende o contrato profissional de futebol e nunca ninguém me disse que era modelo!
Mas se as qualidades físicas estão cá e se as pessoas me apontam o indicador com isso, teria que aceitar e saber viver com esse estigma. Se calhar custa-me muito mais a mim viver com isso do que a quem me aponta tal situação!"
-- Iniciativa do Ajax esse contrato de imagem?
-- Sim. Não se esqueça que, em termos de merchandising, o Ajax é a equipa com os valores mais altos da Europa! Há uma empresa dentro do clube que trata disso e dignifica a imagem do jogador. Sem sua autorização não há fotos para nada, excepto dentro das instalações. Não há imagens nossas em anúncios de tabaco, de álcool ou tudo o que negativamente possa manchá-las!
-- Essa organização lembra-lhe o futebol português?
-- Não brinque comigo! É isto que falta ao futebol português, mas "isto" com uma organização perfeita, séria, onde cada um sabe o seu papel e ninguém anda a atropelar ninguém!
COSTA SANTOS E PEDRO SÁ DA BANDEIRA, enviados especiais