Diogo Gaspar Ferreira: «Sporting ainda é deficitário»

Diogo Gaspar Ferreira, director-geral do Sporting, não tem dúvidas em reconhecer que o grupo empresarial criado por José Roquette ainda é deficitário. Mas garante que o clube continuará a ter uma grande equipa de futebol e que dentro de dois ou três anos os accionistas irão receber dividendos de um conjunto de sociedades que valerá 35 milhões de contos

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O SPORTING vive numa situação deficitária. A afirmação é de Diogo Gaspar Ferreira, director-geral do grupo empresarial criado por José Roquette. Apesar de reconhecer que as receitas ainda são inferiores às despesas, o dirigente leonino frisa que tal não constitui problema algum nem irá implicar qualquer desinvestimento na equipa de futebol.

Nem coloca em causa o objectivo que o ex-presidente delineou: dentro de dois/três anos, o grupo Sporting vale 35 milhões de contos e todas as empresas estarão a distribuir dividendos pelos seus accionistas.

- Qual é a actual situação financeira do grupo Sporting?

- Hoje em dia, o grupo vive numa situação deficitária. Mas está tudo mais ou menos previsto em relação ao que vai suceder, embora por vezes não seja fácil fazer a análise financeira das empresas.

- De quanto é esse défice?

- Não tenho ainda o número total. Posso dizer que a SAD vai apresentar resultados negativos. A Empresa José Alvalade é negativa, perde 50 mil contos/ano com o actual estádio; a Comércio e Serviços está mais ou menos equilibrada; a Sporting Comunicação está a iniciar-se; e o Sporting Clube de Portugal é deficitário. Mas a nossa maior preocupação não é o Sporting de hoje. O que interessa é que montámos um projecto e fomos capazes de prever o que vai suceder quando esse projecto estiver concluído, dentro de cerca de três anos.

- O que vai acontecer nessa altura?

- Acreditamos que nenhuma empresa do grupo perca dinheiro. E que o consolidado total do grupo possa libertar um montante na ordem dos dois milhões de contos/ano.

- Em relação ao ano passado, os números da SAD...

- ... são piores. O resultado é menos positivo, apesar das vendas de jogadores, porque foi decidido um forte investimento na equipa de futebol. E essa estratégia - aprovada pela SGPS - levou a que os seus custos aumentassem. Repito, contudo, que não nos preocupa que as contas actuais sejam negativas. Interessa, sim, é que a estratégia a médio prazo seja de equilíbrio e de ganho de dinheiro.

PARCEIROS ESTRATÉGICOS

- Porque é o Sporting está a pensar em abrir o capital da SGPS?

- Porque potencia - não só a exploração simples do negócio futebol - todo o negócio da marca Sporting. E falamos em marca porque dessa forma será possível haver uma interligação de acções que hoje em dia não são potenciadas pelos setenta e cinco mil sócios do clube. Hoje temos os negócios do futebol (SAD) e os sócios. No entanto, não temos um conhecimento profundo sobre os simpatizantes.

- Com os parceiros estratégicos...

- ... será possível potenciar o desenvolvimento e o aproveitamento de três milhões de simpatizantes. Como? Através de "cross-selling", promoções conjuntas... a promoção da marca numa televisão, o lançamento de canais temáticos do Sporting, o lançamento de portais da Internet do Sporting, a criação de cartões simples de simpatizante... Enfim, há toda uma diversidade de possibilidades que não estão a ser utilizadas. Qualquer grande marketing que esteja ligado a Sporting potenciará sinergias de três milhões de pessoas. Vão, pois, surgir um conjunto de receitas que não estão só ligadas ao sucesso desportivo, embora este seja altamente catalisador de outros negócios.

- As parcerias estratégicas continuam a visar quatro áreas?

- Sim. Distribuição/grandes superfícies; financeira; negócio de televisão, que não seja só em canal aberto; e “media” global. Esta última área pode ser conflituosa com a da televisão, questão que, por isso, terá de ser muito bem analisada nas negociações com os eventuais parceiros estratégicos.

- Com quem é que já foram estabelecidas negociações?

- Repsol, Galp, Jerónimo Martins, PT, Oni, SIC e Media Capital. E com mais dois potenciais parceiros que, por enquanto, não podemos divulgar.

SGPS AUMENTA CAPITAL

- Qual é o objectivo das parcerias estratégicas?

- Visam que a empresa mãe, SGPS - que controla a 100 por cento todas as empresas do grupo, menos a SAD (indirectamente, 70 por cento) e os parques de estacionamento (50 por cento) -, que hoje é detida em 100 por cento pelo Sporting, venha a abrir o seu capital. O que permitirá a injecção de dinheiro nessa "holding". Mas o Sporting nunca perderá o controlo da SGPS, conforme sempre referiu o dr. José Roquette. Por isso, só estamos dispostos a abdicar, no máximo, de 49 por cento.

- Que podem valer 14 milhões de contos?

- Ainda não está definido, embora esse seja um número indicativo.

- Número esse que será definido quando o BCP Investimentos e o BES Investimentos concluírem a avaliação das empresas do Sporting?

- Exactamente. Em Novembro iremos saber quanto valem actualmente as quatro empresas capitais do Sporting (Comércio e Serviços, Estádio José Alvalade, Sporting Comunicação e SAD) e quanto é que valerão depois do aumento do capital social da SGPS. A ideia é reavaliar essas quatro empresas e colocá-las no seu valor justo. Em consequência, a SGPS é reavaliada.

EQUIPA GANHADORA

- No meio de tudo isto, onde fica a equipa de futebol?

- Na estratégia integrada do grupo há um facto fundamental: tudo terá uma maior dificuldade em funcionar se não tivermos no lançamento do projecto uma equipa vencedora. Daí a grande aposta financeira no futebol que tem vindo a ser feita.

- Referiu que só dentro de três anos é que as contas do grupo Sporting estarão equilibradas. Até lá, o Sporting tem capacidade financeira para aguentar uma equipa capaz de se bater pela vitória no campeonato?

- Estamos precavidos para tudo. De há um ano e meio para cá fomos capazes de convencer o BCP - o maior banco em Portugal - de que tínhamos um projecto perfeitamente viável e a dar lucro dentro de quatro anos e meio. O BCP acreditou em toda a lógica de negócio que lhe apresentámos e, portanto, tem-nos acompanhado dentro de certos limites. Tem vindo a compensar o que temos perdido.

- Quanto é que poderá valer o Sporting dentro de dois/três anos?

- Qualquer coisa como 35 milhões de contos. E com todas as empresas a distribuir dividendos pelos seus accionistas. Devo salientar, no entanto, que toda a preparação deste trabalho e a respectiva execução só são possíveis dada a elevadíssima qualidade e dedicação dos cerca de 120 colaboradores do universo de empresas do Sporting.

- Já está resolvida a questão das empresas cotadas em bolsa?

- No final do trabalho dos bancos de investimento é que saberemos se a SAD continuará a ser a única empresa cotada ou se passará a ser a SGPS ou mesmo as duas.

- Mas há duas linhas estratégicas?

- Não.

- Quando é que os accionistas da SAD começam a receber dividendos?

- O nosso objectivo é que seja dentro de dois/três anos.

- Está posto de parte o aumento de capital da SAD?

- Nada está definido nesse sentido. Mas há uma coisa que garantimos: todas as alterações significativas no universo do Sporting terão de ser ratificadas em assembleia geral do clube. Desde o aumento de capital social à abertura do capital social a parceiros estratégicos. E sempre antes de ser finalizado qualquer acordo.

«JOSÉ ROQUETTE CONTINUA ENVOLVIDO»

- JOSÉ Roquette continua a viver o dia-a-dia do Sporting?

- Na altura em que saiu do clube, prometeu que continuaria a estar envolvido. E é o que tem feito, nomeadamente nas primeiras negociações com os eventuais parceiros estratégicos.

- José Roquette participou na reunião com a SIC, mas não esteve com a Media Capital. Porquê?

- Pela simples razão de que com a Media Capital já tinha havido reuniões e com a SIC foi o primeiro contacto. E não achou conveniente participar na reunião com a Media Capital, porque já não é presidente do Sporting.

«A IMPORTÂNCIA DO MULTIMÉDIA»

- A SIC e a Media Capital podem "entrar" no Sporting, sabendo-se das ligações que têm ao Benfica e União de Leiria, respectivamente?

- A lei das sociedades anónimas desportivas fala em participações dominantes, e no caso SIC/Benfica isso não sucede. Mas já sucede na Media Capital/União de Leiria. No entanto, o Sporting não está a tentar arranjar parceiros para entrar na SAD, mas na SGPS. A ideia não é abrir o capital da SAD. Queremos abrir muito mais. Nesse sentido não pensamos que haja essa limitação.

- Mas não pode ser conflituante que um grupo de “media” esteja em dois clubes?

- Acho que não, se for entre um clube grande e um clube pequeno. Se for entre dois clubes grandes, parece-me que sim e de difícil conjugação.

- Se a lei for interpretada no sentido de que participar numa SGPS é uma forma indirecta de participar numa SAD...

- ... esse é um problema que deveria ser resolvido pela Media Capital.

- É, pois, uma questão de escolha para a Media Capital: ou Sporting ou União de Leiria.

- Talvez se possa pôr assim a questão. Só que eu não gostaria que fosse o Sporting a manifestar-se. O Sporting quer é encontrar uma ligação a uma entidade multimédia. E por multimédia entenda-se alguém que esteja ligado a canais de televisão e a outras formas de exploração dos vários conteúdos do Sporting.

CONVIDADO PELO «VICE» GODINHO LOPES

Diogo Gaspar Ferreira tem 39 anos e é licenciado em Administração de Empresas pela Universidade Católica de Lisboa. Entrou no Sporting durante a presidência de José Roquette, em 1998, convidado pelo "vice" Godinho Lopes. É sócio há mais de 27 anos e tem o número 7235. Em 1973 começou a pagar as quotas da sua mesada, "por causa de Yasalde".

HOMENAGEM A HILÁRIO «FOI» O PRIMEIRO JOGO

O primeiro jogo do Sporting a que Diogo Gaspar Ferreira assistiu foi particular. "Sei que foi em Alvalade, mas não me lembro do adversário. Lembro-me, apenas, que foi na homenagem a Hilário, em 70 ou 71. Fui com meu tio, Gomes da Silva, uma pessoa que sempre esteve ligado ao futebol. Em 1966, por exemplo, foi o coordenador da selecção nacional que participou no Mundial de Inglaterra."

MELHOR RECORDAÇÃO NA ÉPOCA 1981/82

Para Diogo Gaspar Ferreira, a conquista do campeonato nacional da época passada é um marco na história do clube, pela importância de que se revestiu, após 18 anos de jejum. Mas o director-geral do Sporting considera que o momento mais emotivo que viveu foi no último jogo da época 1981/82. "Fui ao estádio assistir à vitória, por 3-0, sobre a União de Leiria. E não me cansei de festejar o título."

ROQUETTE E DIAS DA CUNHA SEM AVALES PESSOAIS

Apesar de a situação financeira ser deficitária, Diogo Gaspar Ferreira garante que José Roquette e Dias da Cunha já não precisam de avançar avales pessoais para suprir qualquer necessidade urgente de dinheiro. "Em tempos, os bancos pediram garantias normais ao Sporting. Mas desde que foi firmado o acordo com o BCP, as garantias passaram a ser dadas pela própria empresa."

MÁXIMO RESPEITO PELOS EX-DIRIGENTES

Máximo respeito pelos dirigentes que "fizeram" o Sporting. O tempo da carolice já lá vai, mas em Alvalade ninguém esquece que à frente do clube estiveram pessoas que lhe "deram" muito tempo, na maioria das vezes sem receberem um tostão. "É fácil criticar o que sucedeu no passado. Porém, o Sporting de hoje e do futuro só 'é' possível pela dedicação dos seus antigos responsáveis", frisa Diogo Gaspar Ferreira.

SAD TEM AUTONOMIA PARA FAZER O QUE QUISER

"Não há qualquer problema entre a SAD e a SGPS", assegura Diogo Gaspar Ferreira, frisando que a SAD, como empresa cotada em bolsa com um capital de sete milhões de contos tem "autonomia para fazer o que quiser", inclusivamente contrair empréstimos bancários, sem ter "de solicitar autorização à SGPS".

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