Lito e Vidigal: «Não olharemos a caras quando estivermos dentro de campo»

Lito e Vidigal: «Não olharemos a caras quando estivermos dentro de campo»
Lito e Vidigal: «Não olharemos a caras quando estivermos dentro de campo»
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"QUERO, acima de tudo, que nenhum dos dois se magoe durante o jogo e que sigam à risca as instruções dos treinadores, por forma a realizarem boas exibições. São ambos meus filhos e ficarei satisfeita com qualquer resultado." Este é o desejo de Deolinda Vidigal, mãe de José Carlos Vidigal (Lito) e José Luís Vidigal, que vão ser adversários no próximo domingo por ocasião do Belenenses-Sporting. Um desejo expresso pelo telefone durante a conversa que Record manteve com os dois jogadores nos "Pastéis de Belém", um local sempre ligado ao popular clube do Restelo e que proporcionou momentos bem divertidos entre os dois irmãos. O desejo da mãe dos Vidigais é, aliás, comum a ambos os jogadores, que querem obviamente a vitória para as suas equipas, mas sem que nenhum se lesione ou seja castigado. Antes do encontro, quando se cruzarem, ou no balneário ou durante o aquecimento, vão comunicar isso mesmo um ao outro, conforme disseram ao nosso jornal.

Isto não quer dizer que dentro de campo, Lito e Vidigal mostrem receio em meter o pé quando se tratar de lances em que porventura ambos participem. Antes pelo contrário. Tanto um como o outro vão ver o irmão no relvado como de outro adversário qualquer se tratasse. "Não gostamos de perder nem a brincar, quanto mais agora que representamos grandes clubes.

Existirá respeito, mas colocarei em campo a mesma rigidez de sempre com a intenção de ganhar os lances. Somos manos, mas cada um defende a sua camisola", sublinha o sportinguista, que não perde muito tempo a esperar pela resposta do irmão que vai exactamente no mesmo sentido. "Eu não olho a caras e vou querer ganhar cada lance que disputar, evidentemente sem a intenção de magoar."

Lito e Vidigal consideram engraçado o facto de se defrontarem e dizem ser aliciante o encontro entre os dois ocorrer num jogo desta importância.

"Vai ser um jogo espectacular, porque não deixou de ser um 'clássico' e o Belenenses é uma grande equipa. A presença do meu irmão do outro lado é um aliciante", refere Vidigal. Para Lito, a sensação de ver o mano do outro lado "é gira, ainda por cima num 'derby' de resultado imprevisível."

ESTATUTO

A verdade é que não é, neste momento, certo que os irmãos Vidigal joguem de início. Até esta altura, Lito e Vidigal foram seis vezes titulares, mas o sportinguista já tem esse estatuto há cinco jogos consecutivos. Será para continuar?

Tudo vai depender das opções de Augusto Inácio. Apesar disso, a vontade em integrar o onze inicial é grande. No caso do jogador leonino, a convicção é enorme e assenta, sobretudo, naquilo que tem sido a sua evolução no clube. Hoje, sem receios, o "trinco" leonino frisa que é um jogador mais maduro e com muito influência dentro do Sporting e nem o eventual regresso de Duscher lhe retira confiança. "Foi uma caminhada longa. Estou mais maduro e ciente daquilo que devo fazer dentro e fora do campo. No balneário, sou uma pessoa importante. Tenho força e peso dentro daquele clube e quero afirmar-me de uma vez por todas dentro do campo", frisa, para depois, a propósito da recuperação de Duscher, reforçar: "Tenho a certeza que os treinadores vão apostar no Vidigal, porque a resposta que tenho dado tem sido positiva e tem superado as expectativas. Vou continuar, com certeza, no onze e por muito tempo."

Já Lito tem um discurso bastante mais moderado, não escondendo, no entanto, o desejo de integrar os onze que vão subir no domingo ao relvado do Restelo. "Estou no Belenenses há muito tempo e sempre joguei. Trabalho para que isso aconteça todos os domingos. Já actuei em várias posições e tenho o objectivo de jogar frente ao Sporting. Se não tivesse este espírito, era melhor abandonar a carreira."

FORÇA E FAMÍLIA

Lito e Vidigal são vistos, desde que começaram a dar os primeiros pontapés na bola, como jogadores extremamente voluntariosos. Esta característica é evidente dentro de campo. Entrega, força, empenho e polivalência são atributos que ninguém pode negar a nenhum dos dois irmãos.

Os próprios frisam esse aspecto. Mas de onde vem tanta força? Segundo Lito e Vidigal, a família assume um papel muito importante nesse aspecto.

"O empenho que colocamos em tudo vem de família. Estamos inseridos numa família humilde, onde o espírito de sacrifício e a vontade de alcançar mais qualquer coisa está sempre presente. Isso transporta-se para as nossas profissões e ajuda-nos, porque o futebol é cada vez mais daqueles que querem e que lutam. No que toca a entrega e espírito de sacrifício, nunca me apontaram nada a mim nem a nenhum dos meus irmãos", sublinha Vidigal, orgulhoso.

E Lito vai mesmo mais longe e não admite que o critiquem por falta de aplicação. "Posso jogar mal", reconhece, "mas nunca admitirei que me digam que não trabalho. Isso passa-se, aliás, com todos os membros da minha família, desde o meu pai a todos os meus irmãos."

E a união do clã Vidigal é tão evidente que a entreajuda entre todos é uma realidade. O futebol é, inclusivamente, um autêntico sustentáculo, conforme reconhece o leão, que lembra as dificuldades do tempo em que os pais com treze filhos às costas vieram para Portugal. "Tinha cinco anos, mas as dificuldades foram imensas. A minha mãe só deixou de trabalhar há pouco tempo por imposição dos filhos. Nunca fugimos ao trabalho e hoje seria impossível eu viver numa mansão e um dos meus irmãos viver numa barraca. Jamais me passaria pela cabeça. O amor está sempre presente." Lito complementa e adianta: "Há, de facto, uma união muito grande. É importante estarmos todos juntos. Por vezes, nem há problema nenhum, mas não deixamos de telefonar uns aos outros, nem que seja para dizer bom dia. É uma forma de aproximação."

CLUBES COM PROJECTOS

Belenenses e Sporting são clubes que, actualmente, apresentam algumas semelhanças em termos estratégicos. Ambos constituíram a sua SAD e pensam na demolição dos respectivos estádios e sonham com projectos imobiliários arrojados. No caso do Sporting, o processo é irreversível, enquanto no Belenenses, os sócios ainda têm de aprovar em assembleia a política de Ramos Lopes.

Nenhum dos irmãos Vidigal põe em causa a política futura dos respectivos clubes. "Portugal está atrasado em termos de infra-estruturas", avança Lito peremptório, que, referindo-se ao clube que representa, acrescenta: "O Estádio do Restelo é muito bonito, mas também muito grande em relação aos espectadores que acolhe. Não se pode viver do passado, se bem que seja importante haver referências." O jogador sportinguista, por seu lado, nem ousa pôr em causa os responsáveis leoninos. "Seria um disparate não dar crédito às pessoas que estão à frente do clube. O que tenho visto motiva-me a continuar no Sporting."

E a vertente desportiva? Vidigal fala de mais proximidade em relação aos jogadores após as alterações verificadas na SAD, mostrando-se crente no futuro. "As pessoas que entraram têm estado mais perto dos jogadores e mostrando preocupação com alguns problemas. Isso tem-nos tornado mais fortes. Não me cabe a mim falar do passado, mas, sim, no presente e, na realidade, há mais interesse em ajudar-nos." Lito constata a transformação do Belenenses e elogia Ramos Lopes e os seus companheiros de equipa. "O clube tem-se transformado e está equilibrado economicamente, graças à Direcção e ao presidente, do qual só se pode dizer bem. O plantel é jeitoso e constituído por grandes profissionais. Todos puxam para o mesmo lado e essa tem sido a força do Belenenses."

RECORDAÇÃO DE VIDIGAL

Dos jogos entre Belenenses e Sporting, o sportinguista é o que guarda mais recordações. Enquanto Lito destaca, apenas, o facto de nunca nenhum dos "manos" se ter lesionado, Vidigal lembra o Sporting-Belenenses de há duas épocas em Alvalade, no qual marcou o golo que levou os leões às competições europeias. Na sequência disso, o Sporting defrontou o Bolonha e a polémica instalou-se quando Simões de Almeida disse publicamente que o "trinco" leonino devia procurar outro clube, reagindo à expulsão do jogador nesse mesmo jogo. Hoje os sócio gritam por Vidigal e este fala pela primeira vez do assunto.

"Esse jogo com o Belenenses foi memorável, porque apurou a equipa para a Taça UEFA e tirou o clube de uma situação complicada", lembrou, para, de seguida, e referindo-se à reacção de Simões de Almeida, referir que "são coisas que só entende quem anda no futebol". "Sou forte e tenho capacidade para ultrapassar os problemas. Quem tem Deus como orientador aguenta tudo."

Vidigal está, hoje, em estado de graça e conseguiu, inclusivamente, virar a massa associativa a seu favor, uma situação que lhe merece uma palavra. "Sei perdoar. Sem perdão dificilmente se vive no mundo. Nunca guardei rancor a ninguém no Sporting. Sempre quis e sempre vou querer o melhor para o clube. Nunca existiu intenção de ser expulso com o Bolonha nem de prejudicar qualquer director." "Nunca", reforça.

Lito não ficou obviamente insensível à situação e viveu momentos de amargura. "Acho que o meu irmão foi injustiçado e vivi esse episódio com amargura. Talvez fosse melhor que isso tivesse acontecido comigo, porque penso sempre que aguento melhor do que os outros. As pessoas não se apercebem, muitas vezes, do esforço que é preciso para inverter esse tipo de situações."

ATLETAS DE CRISTO PORQUE FÉ MOVE MONTANHAS

Lito e Vidigal são dois jogadores extremamente crentes. O sportinguista é atleta de Cristo desde os tempos em que representava o Estoril e diz ter seguido o melhor caminho. Lito assume-se como católico, pratica na medida do possível e também já participou em reuniões. Hoje já se considera atleta de Cristo. A história de cada um:

Vidigal: "Foi uma experiência gira que aconteceu quando ainda estava no Estoril. Tinha participado em algumas reuniões e percebi que esse era um caminho extremamente importante na minha vida e a resposta está à vista.

Ingressei no Sporting, fui à selecção sub-21 e aos Jogos Olímpicos e estou muito bem em Alvalade. A fé move montanhas e hoje sinto-me um homem melhor, mais forte e com possibilidades de alcançar mais qualquer coisa."

Lito: "Acredito em Deus, leio a Bíblia e pratico na medida do possível. O meu irmão seguiu um caminho correcto, mas é uma situação que depende do momento. Também já participei em reuniões e já me considero atleta de Cristo."

CARDOSO TREINOU AMBOS E TECE ELOGIOS

Carlos Cardoso, actual técnico do V. Setúbal, conhece bem os irmãos Vidigal e foi o único treinador português que orientou os dois jogadores, quando estava no Elvas, cidade onde se radicou toda a família Vidigal quando veio de Angola. Foi também aí que começaram a jogar futebol.

Cardoso, referindo-se a cada um individualmente, tece os maiores elogios.

O treinador dos sadinos começou por falar do sportinguista. "Conheço-o há bastante tempo, desde a altura em que estava a fazer a transição do escalão júnior para o sénior, no Elvas. Trabalhei com ele durante quatro anos e posso dizer que como homem há poucos como ele. Como jogador, o Sporting está agora a acreditar nas suas potencialidades, porque se trata de um atleta polivalente, que é sempre útil a qualquer equipa e a qualquer treinador". Sobre Lito, Carlos Cardoso refere: "É igualmente uma pessoa muito honesta, que cria óptimo ambiente dentro do balneário. Ainda tem muito para dar ao futebol e o Belenenses só tem a ganhar por ter nas suas fileiras um jogador da sua estirpe."

JOÃO PEDRO ABECASIS

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