O canto do Morais

O canto do Morais
O canto do Morais • Foto: Amândia Queirós
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Não fosse a súbita nostalgia que o momento exige em recordar a longínqua conquista da Taça das Taças em 1964 pelo Sporting e poucos seriam os que se recordam do nome de Morais, o autor do fabuloso golo de canto directo que valeu aos leões a vitória frente aos húngaros do MTK de Budapeste pela margem mínima e permitiu trazer o troféu para Portugal.

Hoje, mais de 40 anos volvidos, o Sporting tem nova oportunidade de conseguir um feito semelhante, ao qual nem o próprio Morais, João Pedro de nome próprio, fica indiferente e que deseja ver consumado. Isto apesar do seu distanciamento para com o clube de Alvalade, a sua grande mágoa de vida.

O brilhante Morais, cujo nome e pontapé inspirou então a composição de uma marcha intitulada de "O Cantinho do Morais", tem hoje 70 anos, mas ainda está cheio de vida. É um homem lúcido, de trato fácil, humilde, bom conversador e, acima de tudo, com uma mente recheada de memórias fantásticas.

Morais, um dos Magriços do Mundial de 1966, nasceu e foi criado na área metropolitana de Lisboa, mas os inesperados desenvolvimentos de uma vida comum a tantas outras levaram-no até Vila do Conde, terra onde, ao serviço do Rio Ave, colocou um ponto final numa carreira com mais de 20 anos de futebol e iniciou outra, a de funcionário público na edilidade local.

Record foi ter com Morais a Vila do Conde, local onde vive há cerca de 37 anos, ouviu a alegre história de vida de um homem que jogava com amor à camisola e recordou os momentos cruciais de um golo que nasceu de um sonho e ficará para a posteridade.

A convocatória

Morais jogou de leão ao peito durante 11 épocas consecutivas e quase sempre como titular, mas nas vésperas da primeira final com o MTK de Budapeste – a Taça só foi conquistada numa finalíssima, dado que o primeiro jogo terminou com uma igualdade a três golos e nessa altura não havia prolongamento nem desempate por grandes penalidades – deixou de fazer parte das opções do treinador de então, Anselmo Fernandes ou o arquitecto, como era apelidado pelos jogadores.

"Surpreendentemente não fui convocado para o jogo com o V. Setúbal nem para a deslocação à Bélgica. Achei estranho", começa por recordar Morais, passando a explicar como ganhou o lugar que lhe possibilitou escrever o nome na história: "Estava na bancada a ver o jogo com o Vitória. Na segunda parte o Hilário partiu o perónio num lance casual com o Zé Maria. Estávamos a perder por 2-1 e como nessa altura não havia substituições, jogámos com 10 até ao fim. Após o apito final ouvi nos altifalantes do estádio a chamarem-me para me apresentar na cabina do Sporting. Face ao sucedido, o arquitecto mandou-me ir a casa fazer as malas"...

A primeira final

Já na Bélgica, a equipa do Sporting preparava-se para um ligeiro treino de descompressão quando Morais, habitual extremo-esquerdo, foi abordado pelo treinador, que lhe comunicou que seria titular mas a defesa-esquerdo, no lugar do lesionado Hilário.

"Não me preocupei muito com o lugar. Aliás, no Sporting só não joguei a guarda-redes", desabafa Morais, prosseguindo de imediato com o resto da história: "Comecei logo a imaginar o que teria de fazer e em como travar o húngaro Sandor, veloz extremo de quem o Simões, do Benfica, era suplente na selecção da Europa. Só por aqui já dava para assustar, mas não tive medo algum."

Na primeira final, disputada em Heysel Park – estádio que mais tarde correu as bocas do mundo após o trágico desafio entre Juventus e Liverpool em 1985 – o Sporting empatou a três bolas mas a Taça podia ter conquistada logo ali. "Lá joguei a defesa e nesse jogo, já perto do fim, o Osvaldo Silva driblou o guarda-redes e tinha tudo para marcar o 4-3, mas ouviu um apito, parou e, já de costas, pontapeou a bola de calcanhar, a pensar que o árbitro tinha invalidado o lance. Mas a verdade é que o apito veio da bancada.

O sonho

Em Antuérpia, novamente na Bélgica, a dois dias da finalíssima com o MTK de Budapeste, Morais ficou a saber que jogaria a extremo-esquerdo: "Ia jogar no meu lugar preferido, fiquei descansado. Na manhã do dia seguinte, ainda antes do pequeno almoço, o guarda-redes Carvalho, o meu companheiro de quarto, acordou-me a perguntar se tinha dormido bem. Disse-lhe logo que tivera um sonho bestial: que tínhamos vencido por 1-0 e tinha sido eu a apontar o golo de canto directo. Ele riu-se".

A autorização

Na véspera do encontro os jogadores do Sporting deslocaram-se até ao estádio para o habitual reconhecimento ao recinto e ao relvado: "Fui logo até uma baliza, curiosamente aquela em que marquei o golo, e comecei a tirar as medidas. Depois pedi ao arquitecto para marcar os cantos e expliquei-lhe o meu sonho. Disse-me que não e que quem mandava era ele. Não desisti e falei do assunto aos dirigentes que nos acompanharam. Foram eles que acabaram por convencer o treinador a dar-me autorização."

O canto mágico

Decorridos 15 minutos de jogo com o MTK, sensivelmente, Morais percorre todo o corredor esquerdo em sucessivas tabelas com Osvaldo Silva e, mal tira o cruzamento junto à linha de fundo, a bola é interceptada por um adversário. O Sporting havia conquistado o canto mágico do Morais.

"Virei-me para o banco e confirmei se era eu. O técnico acenou-me que sim. Lá fui. Peguei na bola com jeitinho, disse-lhe umas palavrinhas amigas, dei-lhe um beijinho... Depois, mal senti o pé a bater nela fiquei logo com a sensação de que seria golo. Parece que o tempo parou ali. Observei a trajectória do esférico, vi o Figueiredo a correr para o primeiro poste e o guarda-redes atrás dele para interceptar a eventual cabeçada do desvio, mas o destino estava traçado. A bola passou por cima dos dois e acabou por entrar junto ao segundo poste. Foi a euforia total, ainda para mais porque foi o golo que ditou a vitória e permitiu-nos trazer a taça", descreveu Morais, assegurando que "não foi um golo de sorte": "Ao longo da minha carreira marquei mais uns quantos da mesma maneira".

A mágoa do reconhecimento

Morais regressa hoje a Alvalade para assistir ao vivo a um jogo oficial do Sporting. Já passaram mais de 10 anos desde a última vez em que entrou no recinto do Sporting, o extinto José Alvalade, então a convite da UEFA. Para esta final assume o convite da direcção leonina, mas guarda a mágoa pela falta de reconhecimento e até garante que a sua deslocação a Lisboa será custeada pela RTP, a primeira entidade a convidá-lo para o encontro.

"Vou lá com muito gosto", começa por dizer Morais, desmonstrando o seu desagrado para com a falta de atenção dos responsáveis do clube: "Não sou mais nem menos do que outros, mas só a comunicação social é que se tem lembrado de mim. Sei que só se lembram do Morais porque o Sporting está na final da Taça UEFA, mas já não é mau. Do Sporting recebi apenas um telefonema e convites deste género não se fazem pelo telefone. Aliás, até hoje estou à espera do telefonema do Sporting e confirmar a minha presença."

Morais reconhece a efemeridade do prestígio, mas diz com orgulho que ainda tem popularidade: "Pelo menos nas casas do clube ainda me conhecem e respeitam. Sei que o que consegui ainda foi no tempo da outra senhora, antes do 25 de Abril e onde a política tinha a sua influência. Se fosse hoje andava ao colo e tudo seria melhor."

«Deus queira que a vitória nos sorria»

Seja outra vez na sequência de um canto directo ou de qualquer outra forma, o que Morais pretende hoje ver é o seu Sporting a derrotar os russos do CSKA de Moscovo e conquistar a Taça UEFA. O ex-leão garante que já não sente a euforia de tempos passados, mas ainda assume sofrer pelo clube do seu coração.

Está optimista na vitória, mas como uma final é sempre uma final e porque no seu tempo as equipas de Leste eram muito matreiras, lá lança um aviso aos jogadores do Sporting.

"Deus queira que a vitória nos sorria. Seja de canto ou não, o que me interessa é ver a equipa a vencer os russos", afirma Morais, convicto de que a conquista depende da vontade dos leões: "Agora já lá há estrangeiros e até mesmo brasileiros, mas o futebol de Leste ainda é muito frio e com tendência para adormecer o adversário antes da estocada fatal. Tanto jogam a 5 km/h como passam logo a jogar a 20 km/h. Nunca se sabe o que vão fazer. É ao Sporting a quem cabe a responsabilidade de assumir o jogo. Se procurarem isso e apresentarem um espírito colectivo então penso que podemos conquistar a Taça. Se os jogadores optarem muito pelas individualidades então não vamos a lado nenhum. Futebol são onze contra onze e o conjunto que apresenta o melhor colectivo vence quase sempre."

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