O meu clube é a minha primeira casa
Separação da família é outro dos motivos da dupla para procurar refúgio em Alcochete...
Ouvir um jogador dizer que determinado clube é a sua segunda casa já se tornou num lugar-comum. Menos comum, para não dizer raro (em idade sénior, entenda-se), é quando o clube se transforma na primeira casa de um jogador. Dito de outra forma, imagina-se a dormir no local de trabalho? Não? Pois então, seja bem-vindo à realidade do egípcio Rami Rabia, 21 anos, e do japonês Junya Tanaka, 27, ambos a residir na Academia Sporting, em Alcochete, respetivamente há dois e três meses.
Uma opção que tem implicado sacrificar quase por completo a vida privada, pois as horas de repouso e muito do tempo de lazer é passado no centro de estágio da equipa, mas que se entende quando o objetivo é acelerar a adaptação a uma nova etapa da carreira, radicalmente diferente.
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Tudo novo
Afinal, e sem esquecer a alteração principal – o futebol, os métodos de treino, a concorrência interna e o nível competitivo –, a mudança que os dois enfrentam ultrapassa os contornos de uma simples transferência: cidade, país, até continente, tudo é novo na rotina dos reforços que os leões foram recrutar ao Al-Ahly e ao Kashiwa Reysol. Escolher o quartel-general do Sporting para começar a aventura tem sido não só a melhor forma de superar alguns obstáculos diários (em necessidades tão básicas como a alimentação), mas também a estratégia adequada para manter o foco total nos compromissos profissionais (conhecendo cada pequeno detalhe da rotina do clube).
A Academia, que tem as valias de um hotel e acolhe dezenas de jogadores da formação (desde a abertura, em 2002), oferece todas as condições e comodidades de alojamento. A solução não deixa de ser temporária, mas no caso de Tanaka e Rabia a residência prolongou-se para lá do que é hábito. A distância (mais a cultural do que a geográfica) em relação aos países de origem e o facto de nenhum dos dois ter a companhia da família são outros motivos a justificar o recurso ao domicílio na fortaleza verde e branca, onde o apoio permanente dos funcionários do Sporting ajuda a suavizar as dificuldades.
Recatados
Ao contrário do compatriota Shikabala, sob alçada disciplinar por estar em parte incerta há mais de um mês (!), Rabia prima pela discrição e leva um estilo de vida regrado, orientado por convicções religiosas. Com a frequência possível, o internacional egípcio sai da Academia para conhecer Lisboa. Uma intervenção cirúrgica, no princípio de setembro, contribuiu para que o central decidisse alongar a estadia em Alcochete mas, recuperado da lesão, a mudança deve estar para breve, e tanto assim que a procura de casa está em marcha.
Discrição, pacatez e seriedade máxima perante o trabalho são características que distinguem igualmente Tanaka, cuja rapidez de integração surpreendeu no defeso. Pai desde julho, o japonês tem aproveitado as convocatórias da seleção nipónica para estar mais perto da família, que deve juntar-se ao avançado ainda na presente temporada. O “check-out” da Academia, onde tem encontrado tudo o que precisa em termos logísticos, ficará reservado apenas para essa altura. Até lá, Tanaka sente-se cómodo no meio dos leões e prepara-se a aprender português.
Pequeno-almoço obrigatório com Inácio
• A regra foi instituída na época passada e transitou para esta temporada: diariamente, o plantel profissional do Sporting reúne-se à mesa antes do treino matinal para tomar o pequeno-almoço com o diretor de futebol, Augusto Inácio. O compromisso está marcado, salvo circunstâncias que não o permitam, para as 8 horas, pelo que todo o grupo está obrigado a entrar no quartel-general do futebol antes, sob pena de ter de contribuir para a caixa das... multas. Ora, este é um “problema” que Tanaka e Rabia não têm, ou antes têm em menor escala, pois a residência na Academia permite-lhes ser sempre os primeiros a “chegar” ao encontro com Inácio. Na prática, a rotina profissional do egípcio e do japonês “só” difere dos restantes jogadores na medida em que ambos pernoitam em Alcochete. E isso, como se percebe, também pode ter vantagens.
FACTOS E NÚMEROS
Competição Rabia esteve num jogo da equipa B (contra o Aves) antes de ser operado a um problema abdominal (entretanto já está recuperado). Tanaka entrou nos minutos finais da receção ao Arouca e participou no lance da vitória.
Língua Tanto o egípcio como o nipónico falam inglês e ambos já dominam algumas palavras em português. Tanaka está mesmo a ter aulas e é inseparável dos dicionários.
Amigos Embora residam na Academia, ambos convivem diariamente com outros jogadores do plantel fora de Alcochete. Rabia, a título de exemplo, é próximo de Carlos Mané, Jonathan Silva e Nani.
Apoio O apoio logístico (e burocrático) ao plantel do Sporting é da responsabilidade do secretário-técnico, Vasco Fernandes. Cabe-lhe a ele o auxílio mais próximo e direto aos jogadores, nomeadamente aos “residentes” Tanaka e Rabia.