William Carvalho: O melhor do "Bê" ainda está para vir
“Quando começar a usar a boa meia distância, será mais completo”, diz o pai...
“Eu sou o maior conselheiro do meu filho”. Sentado no sofá da sala, Simão Carvalho regista com orgulho a cumplicidade que o liga ao descendente. “Digo-lhe que segure a bola e espere que se abram linhas de passe. No final dos jogos ele olha para mim e já sabe o que eu vou dizer”, revela.
Em casa, em Mira-Sintra, ninguém trata William pelo nome próprio. Lá, o médio continua a ser o “Bê”, “de ‘bebucho’, porque era muito forte quando nasceu”. Os quilos desapareceram à medida que a fome de jogar se instalou. Com 8 anos, numa viagem a Luanda, levou uma bola no avião e não a largou até ao regresso. No tempo da escola, escapava de casa, atirava a mochila pela janela e já não voltava, nem para comer. Pedia à irmã que lhe arremessasse fruta do 1.º andar! “Quando a mãe lhe cortava com o futebol por causa das más notas, ficava desanimado.”
Relacionadas
A aproximação mais séria à carreira começou no Algueirão. Seguiu-se o Mira-Sintra. O vício era tanto, que William passava a manhã nos juvenis e a tarde nos juniores. Embora tenha feito testes no Estrela da Amadora, a viragem deu-se quando o Mira-Sintra disputou a mesma série de Benfica e Sporting. Os encarnados interessaram-se, levaram-no a prestar provas no Seixal, mas hesitaram e os leões avançaram firmes (com José Manuel Torcato e Aurélio Pereira), após sofrerem com uma exibição do luso-angolano. “Isto foi num domingo e na segunda-feira ele já era do Sporting”, recorda o pai, ainda grato à ação do empresário Artur Futre.
Meteórico
Na Academia, anos mais tarde, foi Paulo Bento quem o chamou pela primeira vez aos treinos da equipa principal. José Couceiro estreou-o no campeonato, em Guimarães, e a velocidade dos acontecimentos parecia imparável. Por isso, quando foi cedido ao Fátima, William já “estava à espera de fazer a pré-época” em Alcochete. Ficou “em baixo”, mas soube responder e em janeiro foi para o Cercle Brugge, por troca com Renato Neto. “Foi lá que amadureceu”, afirma Simão Carvalho.
No regresso a Alvalade, o estágio no Canadá foi determinante para a permanência. E a convicção de quem está mais próximo é de que o melhor de William, aos 21 anos, ainda está para vir. “Quando ele começar a chutar à baliza, a usar a boa meia distância que tem, vai ser ainda mais completo. Se apostar nisso, vão ver”, desafia o pai, ambicioso para o novo ano. “Ficava muito feliz se ele fosse campeão no Sporting”, deseja. O amigo Edi reforça. “Que 2014 seja melhor do que 2013, cheio de sucesso e que possa alcançar um título.”
Surpreendeu amigo com camisola de Lucho
Chama-se Kiese Edison Mário, mas entre amigos quase só é conhecido por Edi. Em Mira-Sintra encontra-se com a reportagem de Record e conduz-nos pelos locais onde na infância jogava futebol com William.
“Primeiro tiraram as balizas, agora são os campos que estão a desaparecer”, lamenta, à vista de um parque de estacionamento onde antes havia um rinque. “Aos fins de semana estava repleto de crianças”, recorda. A frequentar um mestrado em branding e design de moda, no IADE, Edi, de 26 anos, não deixa de seguir a carreira do amigo (e vizinho) William Carvalho... e do clube do coração, o FC Porto. No recente jogo da Taça da Liga, até torceu pelo Sporting, mas o campeonato, esse, quer que vá parar ao Dragão. Quando os leões jogaram no Porto, em outubro, William trouxe-lhe a camisola 3 de Lucho González. “Pediu-lha sem me dizer nada. Fez surpresa”, revela Edi. “Antes desse jogo disse-lhe: até podes marcar 20 golos, desde que o Sporting não ganhe”, acrescenta.
Tem nos genes “Adiyó” e Praia
Na família de William, o talento para o futebol é hereditário. O pai, Simão, jogou no Progresso do Sambizanga. E dois nomes maiores do futebol angolano estão entre os antepassados que servem de inspiração genética: Lourenço Bento “Adiyó” (anos 60), um avançado esquerdino que rivalizava com Dinis (ex-Sporting), hoje dirigente na Escola do Marçal, Luanda; e Praia (anos 70) , um dos “melhores médios” de Angola, já desaparecido. A avó de William, Rosa Carvalho, é o elo de ligação.
Futura instalação levará o seu nome
O clube que ajudou a formar o luso-angolano está sem atividade e dívidas que ascendem a 8 mil euros. Rui Lopes, presidente do União Sport Clube Mira-Sintra, abre uma janela de esperança: tem 15 mil euros a receber de Alvalade (por William ter feito 5 jogos a titular) e já pensa numa futura transferência. Se (quando) ela se concretizar, será construído um campo de futebol ou polidesportivo que levará o nome do médio do Sporting.
ESTÁGIO
Há seis meses seria impossível prever a reviravolta na carreira de William. A uma época de acabar contrato, após temporada e meia de empréstimo ao Cercle Brugge, as perspetivas eram pouco animadoras. Rinaudo parecia destinado a segurar a posição 6, Eric Dier tinha somado pontos com Jesualdo Ferreira e o espaço no grupo estava muito reduzido.
Tanto assim que, quando os trabalhos arrancaram, Leonardo Jardim não deu quaisquer garantias em relação à permanência na equipa, inclusive teria outros planos para o meio-campo. O momento-chave foi o estágio no Canadá: os treinos, os 24 minutos contra o Kitchener e os 90 com o Peñarol fizeram com que o técnico voltasse a Lisboa apostado em encontrar uma solução para que o médio ficasse no plantel. Seguiu-se a renovação até 2018. Simão Carvalho reconhece uma boa dose de “sorte” do filho. O amigo Edi acredita que William “só precisava mesmo de uma oportunidade”.
NÚMEROS
14 A terminação do ano novo (bom prenúncio?) coincide com o número da camisola de William Carvalho. O dígito que escolheu, esse, fica a dever-se à admiração por um avançado, o francês Thierry Henry, que celebrizou o 14. Na infância, o 5 de Zidane era o seu preferido. Mantorras, vizinho em Luanda, foi referência mais distante
1 Em Luanda, onde o pai esteve em trabalho, a afirmação de William tem tido grande impacto. De tal forma que a federação angolana ainda tentou impedir o médio de jogar por Portugal. Tarde de mais, pois Rui Jorge foi um conselheiro importante nos Sub-21 e Paulo Bento proporcionou-lhe a primeira internacionalização frente à Suécia. “Portugal fez tudo por ele. Não cuspo no prato onde como”, diz-nos o pai
4 Os títulos coletivos serão sempre os mais relevantes, mas entretanto William tem colecionado distinções individuais: ganhou dois troféus de melhor jovem da Liga, um de melhor jogador da Liga e um Prémio Stromp de revelação do ano
15 Quando o luso-angolano saiu do Mira-Sintra para o Sporting (2005) ficou acordado que o ex-clube teria a receber 15 mil euros, caso o médio fizesse cinco jogos pela equipa principal, não importa se seguidos ou interpolados, desde que fosse como titular. O contrato venceu a 21 de dezembro, 90 dias após o objetivo ter sido atingido