Lixa: «Os velhotes paravam para me verem jogar»
DOMINGOS Alexandrino Fonseca Gomes é o Lixa do V. Guimarães. Começou no Sporting da Torre e nas ruas chutava contra as paredes até às quatro da madrugada. O bairro do Lumiar via nascer uma estrela. Mas nem todos acreditavam. Jaime Pacheco observou-o em Guimarães na temporada de 96/97.
"Gostou do que viu, mas disse-me que era novo e ainda que cheirava a leite!", recorda sem rancor. Rogério Gomes, olheiro dos minhotos, não desistiu: "Chamaram-me louco. Do Águias da Musgueira? Não tem categoria para jogar aqui!", lembra, agora que a sua valiosa descoberta vale alguns milhões. Homem de palavra, Lixa confessa que é benfiquista. Mas o voo de águia ao peito pode esperar. O Benfica e o seu prestígio sensibilizou-o, mas não o demoveu. Guimarães já significa muito para a sua carreira e o dinheiro nem sempre é tudo na vida.
-- Atitudes como esta escasseiam no futebol. O que o fez rejeitar o convite do Benfica?
-- A pressão a que fui submetido foi enorme e penso que qualquer jogador com a minha idade (20 anos) assinava logo pelo Benfica e deixava tudo para trás. Sou benfiquista desde pequeno, mas só tenho uma palavra. Cresci com esta filosofia, fui educado desta maneira e não abdicarei nunca desta minha conduta. A questão não era o convite, mas sim a palavra dada ao V. Guimarães e gosto de honrar os meus compromissos.
-- Nunca esteve para cair na tentação?
-- Foi uma confusão enorme. O Benfica até pagava a rescisão do contrato com o V. Guimarães. Mas nem sempre o dinheiro é tudo. Marquei dois golos pelo Sintrense ao Olivais e o Benfica não me largou mais. Nessa noite viajei para Guimarães com o sr. Gomes, assinei contrato, estive meio escondido, e só no final da época informei o Sintrense. Ficaram chateados e disseram-me que fora ingénuo porque eles resolveriam melhor a minha vida.
-- Dauto Faquira, seu treinador no Sintrense em 97/98, dizia que poderia ganhar muito dinheiro, bastava querer. Porquê?
"ENCAREI A PROFISSÃO"
-- Eu baldava-me por completo aos treinos. Esse período coincidiu com o tempo de Verão e depois está-se mesmo a ver: Lisboa, praia, namoradas, enfim. Ele conhecia-me bem e telefonava-me todos os dias. Depois de uma conversa decidi ter juízo e encarar esta profissão.
-- O que seria do Lixa se cumprisse o percurso normal de um jogador que tem formação desde os infantis?
-- Lamento-me disso, é verdade. Felgueiras acabou por ser a minha escola. Eu só sabia fintar e correr com a bola. Aprendi a movimentar-me no terreno, a fazer marcações, passes, remates e tudo aquilo que é, em resumo, o “abc” do futebol e que se aprende desde "puto".
-- Quinito diz que é um encanto vê-lo jogar e Rogério Gomes diz que é um predestinado. É verdade?
-- Os mais velhotes da minha terra paravam para me ver jogar e diziam que eu poderia ser um grande jogador. Se sou um predestinado como dizem, quero aproveitar esta faculdade para me realizar enquanto jogador. Se Quinito diz que sou mágico, ele sabe o que está a dizer.
-- É um menino com algum ídolo?
-- Aprecio alguns jogadores, mas não imito ninguém. Se vão imitar-me a mim? Peço-lhes que não o façam. Não é assim que se aprende a ser jogador de elite.
-- Por que razão guardou as botas do jogo com a Hungria, pela selecção de sub-21?
-- Marquei um golo importante para as aspirações da selecção, memorável para mim, e agradeço a oportunidade dada pelo "mister" Jesualdo Ferreira.
-- Domingo é o seu primeiro “derby” minhoto, está preparado?
-- Com toda a certeza. Eu e toda a equipa. Há uma rivalidade antiga entre os dois clubes, mas estou convencido que o V. Guimarães reúne condições para vencer.
NOTAS DE LIXA
-- Estreou-se na I Liga na derrota com o Boavista, jogando os 37 minutos finais. Começara a época a curar uma luxação no ombro que transitou da temporada anterior em que esteve em Felgueiras por empréstimo do V. Guimarães.
-- Com o Alverca, na última jornada, foi uma das três novidades no onze vimaranense (com Alvarez e Paiva). "Só o jovem esquerdino se destacou" e "fez tremer o flanco esquerdo até sair esgotado", nas avaliações de Record. Quinito, no final, não poupou uma referência especial a "um menino que faz fintas, coisa rara no futebol português, e é um encanto".
-- Frente à Hungria (sub-21), rendeu Maniche (62 m) e marcou o golo do 2-1 final, aos 74 minutos. Já chegara à selecção à última hora, por força da passagem de Simão Sabrosa para a selecção A. "Tem o 'mau vício' de pegar na bola e partir para cima dos adversários", escrevemos no comentário ao jogo. Sobre ele fora cometida uma falta de cujo livre resultou o golo do empate (1-1) por Marco Almeida.
INFÂNCIA FELIZ NO BAIRRO DO LUMIAR
Lixa estudou até ao 10º ano e foi carpinteiro nas horas vagas. Sabe o que é trabalhar no duro, mas o emprego tornou-se incompatível com o futebol. Aos 22 anos dizem que tem cara de menino, mas o seu discurso é fluente e amadurecido. Desfruta os prazeres da vida com satisfação e orgulho.
"As coisas estão a correr-me muito bem e sinto-me feliz por ter tido uma infância como todas as crianças desejam. Jogava futebol de manhã até de madrugada e não me deixei levar para os caminhos da marginalidade. O Lumiar é um bairro civilizado e ajudou imenso à minha integração na sociedade." Nasceu em Cabo Verde, na ilha de Santiago, e já não se estranha por que razão se tornou amigo íntimo de Neno. "Nasci em 1977 e em 81 deixei a terra que me viu nascer. O meu pai já trabalhava em Portugal quando muito novo viajei com a minha mãe", recorda com o discurso entravado. "O futebol ajudou-me a ultrapassar um momento difícil da vida: a separação dos meus pais. O pior era com a minha irmã, a mais novinha, porque eu não sabia o que lhe havia de dizer quando me perguntava pela mãe." Mas as coisas já melhoraram. "A minha mãe sofreu muito, está agora em França e tem a companhia de dois meus irmãos. O Zito está a jogar futebol e dizem que tem muito jeito. Em Portugal, o José Alberto joga no Sporting da Torre e, segundo ouço, pode ir longe. Depois há ainda o Lito que faz parte do plantel do Sp. Espinho e toda a gente sabe as suas qualidades."
MARCO AURÉLIO