Manuel Machado: «Vitória poderia ser como o Dep. Corunha»
Oito meses após o choque do despedimento do clube que serviu durante 19 anos, o técnico constata que os promotores da sua saída já reconheceram o erro que cometeram. Não se surpreende com o insucesso do projecto que se sobrepôs ao seu e lamenta que o Vitória esteja a ser ultrapassado pelos rivais
MANUEL Machado quebrou o silêncio para falar o V. Guimarães, clube que o despediu com 19 anos de casa e uma folha de serviços de inegável qualidade. Mas alguns meses depois foi abordado para regressar. Uma revelação assumida em exclusivo a «Record» no decurso da sua primeira entrevista para falar objectivamente do seu despedimento.
O técnico do Moreirense tem o seu nome associado a muitos dos êxitos do clube e também foi responsável pelo seu crescimento. Formou jovens, emprestou conhecimentos no futebol sénior, detectou talentos e foi conselheiro hierárquico. Recusou a subserviência e é respeitado por Pimenta Machado. Estranho convite? Não. Simplesmente a máquina do futebol no pleno da sua acção e, talvez mais cedo do que se esperava, a reconhecer um erro.
- Foi afastado do V. Guimarães por incompetência?
- Há provas do contrário. Na minha vigência e dos meus colegas despedidos o clube ganhou tudo aquilo que ainda não tinha ganho e promoveu nos últimos dez anos ao plantel profissional 25 atletas, permitindo uma facturação de largas centenas de milhares de contos. Fomos afastados porque alguém viu um caminho eventualmente mais interessante e rentável. Deitou-se um sapato fora e deixou-se o pé descalço pensando que se teria arranjado um sapato melhor. Mas vê-se que, agora, não têm sapato nenhum.
- Sentiu-se maltratado por sair sem explicações devidamente sustentadas?
- Saí magoado porque estava a produzir-se um trabalho de qualidade. Fiquei estupefacto. As pessoas são livres de renovar ou não os vínculos, mas do ponto de moral e afectivo senti uma... não direi traição, talvez tristeza.
- Surpreende-o insucesso do projecto?
- Havia antecedentes que indiciam de alguma maneira um desfecho como este que infelizmente se acaba por verificar. O Vitória não apreendeu com a lição e infelizmente para o clube foi desfeito algo que estava a correr bem.
- Que intenções moveram um projecto que à partida morria à nascença?
- Deve denunciá-lo quem o liderou. O Vitória tinha um departamento que era respeitado, rentável em termos formativos e competitivo a nível nacional. Neste momento tudo o que tem são os restos de um passado. A curto/médio prazo, se não houver uma reforma profunda, o departamento sofrerá uma diluição total. Quem enunciou este projectou queria-o científico e de qualidade. Foi um percalço. A vinda de Paulo Autuori para gerir todo o futebol é neste momento defunto, para não lhe chamar um nado-morto.
- Por que razão nunca foi treinador principal do clube, liderando o seu projecto?
- Nunca fui convidado.
- A Direcção nunca viu em si capacidades para tal?
- A resposta não pode ser dada por mim. Não sou pior nem melhor que qualquer outro dos técnicos e tenho a certeza que responderei positivamente quando um desafio dessa envergadura me for colocado.
- Aceitaria regressar ao Vitória?
- Regressaria, mas não a qualquer preço. Teriam de ser reunidos vários pressupostos.
- E eventualmente já foi convidado a regressar?
- Confirmo que existiram algumas abordagens informais no sentido de um retorno ao Vitória na próxima temporada. Simplesmente, nesta altura ainda é prematuro. O meu futuro passa pelo Moreirense.
- É normal apertar a mão a quem o trai?
- Não me considero traído. Fiquei triste com as atitudes de algumas pessoas mas há valores humanos que se sobrepõem às questões de âmbito desportivo e é nesse contexto que ainda tenho amigos no clube e com quem privo regularmente.
- Foi um marco na sua carreira eliminar o Vitória da Taça de Portugal?
- Mais que um marco foi uma particularidade. Não é normal para quem esteve tanto tempo do outro lado da barricada e não deixa de ser algo especial.
- Aceitou o convite do Moreirense a pensar numa pequena vingança?
- De maneira alguma. Após alguns meses de trabalho constato que Moreira de Cónegos é uma vila que adora e vibra com o Vitória.
- Também sente o Vitória ser ultrapassado pelos seus rivais?
- É uma questão fundamental e verdadeira. Tenho 45 anos, sou vimaranense, estive 19 anos no clube, sou vitoriano e sócio. Sinto as questões regionais e sei que a população se espelha na sua colectividade, mais propriamente no Vitória.
- O que é que o Vitória não é e poderia ser?
- O maior clube do País fora dos grandes centros. Talvez o Deportivo da Corunha de Portugal. Em função da região em que está inserido tinha todas as condições para o ser, mas é latente o divórcio que existe entre o clube e a população.
«Vizela e Moreirense não são os únicos candidatos»
"Vizela e Moreirense não serão os únicos candidatos, apesar de neste momento a classificação demonstrar que são os mais fortes. Famalicão e Leixões, nomeadamente, para além de um Paredes que está muito bem apetrechado, vão discutir a subida de divisão. A luta não será fácil e penso que à entrada para o último terço da prova saber-se-á exactamente quem vai subir."
«Ascensão do segundo não seria muito bonito»
"A questão das equipas "Bês" é discutível. O FC Porto tem alterado a sua equipa, já cedeu alguns jogadores e até tem mantido o mesmo nível. Mas pode vir a acontecer o inverso. Na época o Sp. Braga utilizou alguns elementos do plantel principal e ganhou vários jogos consecutivos que lhe garantiram a manutenção. A ascensão do segundo classificado não seria muito bonito."
«Finalmente a reforma do quadro competitivo»
"Estive muitos anos directamente ligado à formação e neste momento, após mais de dez anos de luta, perspectiva-se a tão desejada reforma do quadro competitivo. Contrariamente ao que algumas pessoas pensam, hoje mais do que nunca vale a pena formar atletas com qualidade. Contudo, é preciso fazer a defesa dos clubes que se dedicam a formar devido ao mercado que gravita na modalidade."
Quem é quem
Nome: Manuel António Marques Machado
Data de Nascimento: 04/11/45
Habilitações académicas: bacharelato em Educação Física pelo ISEF
Carreira: treinador de andebol (4º, 3º e 2º graus - Desportivo Francisco de Holanda, Clube Desportivo de Portugal, Clube Propaganda de Natação, Coelima, Fermentões e V. Guimarães), treinador de futebol (4º nível - V. Guimarães, Vila Real, Fafe e Moreirense), coordenador e responsável técnico pelo sector de formação do V. Guimarães de 86/87 e 99/00, secretário técnico (86/87 e 92/93), preparador físico (81/82, 82/83, 83/84 e 84/85), treinador adjunto (90/91, 91/92 e 95/96), treinador principal interino (88/89, 90/91 e 95/96).
Distinções: campeão nacional de juniores (90/91), Prémio José Maria Pedroto (ANTF) e Prémio Fundador (Associação de Futebol de Braga).