Pedro Mendes: «O nosso futebol é arrebatador»

O Vitória de Guimarães oferece um futebol de requinte e é no meio-campo que o maestro giza a diferença com acções refinadas

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– Em três anos anos na SuperLiga, ganhou uma vez ao Benfica, curiosamente na sua época [99/00] de estreia, empatou uma e perdeu outra. Apesar deste equilíbrio pessoal, o Vitória tem somado pesadas derrotas com este adversário e o treinador Inácio não tem sido muito feliz, quer em resultados quer noutras incidências. Serão só coincidências?

– Espero que sim, embora não atribua muita importância a tudo isso. É um peso histórico que, por vezes, tem influência, mas dentro do campo isso passa-nos ao lado. Entramos concentrados com uma missão, que é vencer, e não vamos descansar enquanto não o conseguirmos.

– Que respeito merece este Benfica, ainda a sonhar com a conquista do título?

– O mesmo de todos os adversários. Não subestimamos ninguém e o Benfica está com uma nova ilusão. O novo treinador trouxe a esperança que parecia perdida.

– A Liga dos Campeões é ou não um único objectivo para assumir com firmeza?

– O mais importante é conquistar o maior número possível de pontos. Infelizmente, parece que esta é a única conclusão que nos resta. Não adianta sonhar, porque estão a acontecer coisas muito estranhas e lamentáveis. Toda a gente tem constatado que de há alguns jogos a esta parte temos sido extremamente prejudicados pela arbitragem e até parece que, dado o lugar que ocupamos, estamos a perturbar alguém.

– Não é possível combater esse aspecto?

– Não é fácil. O nosso futebol tem muita qualidade, mas, lamentavelmente, pode não ser suficiente para atingir as metas que têm sido comentadas e projectadas na Comunicação Social. Não ficamos indiferentes à possibilidade de subirmos mais lugares na tabela classificativa, mas parece que não nos deixam. Não acredito em perseguições, sou de bons princípios, mas quem não se sente não é filho de boa gente.

– O futebol do Vitória é o melhor da SuperLiga?

– O último jogo, em Aveiro, foi mais um bom exemplo da nossa marca. Aliás, o nosso golo resulta de um golpe de contra-ataque fantástico que deixou o adversário sem reacção. E mais: o jogo estava prestes a terminar, o que prova que nunca esmorecemos, mesmo com golos contrários e adversidades que tendem a abater-nos. Somos fortes psicologicamente, dedicados no espírito de grupo e uns vencedores dentro do campo, mesmo que percamos o jogo.

– Mas é ou não o melhor?

– É justo dizer que o Vitória e o FC Porto praticam um futebol onde predomina a técnica e a raça. É de qualidade e arrebatador. Julgo que ninguém tem dúvidas, tanto mais que os resultados são o reflexo evidente dessa prova de valentia e categoria. O nosso futebol está acima da média e, se olharmos à nossa volta, creio que é um luxo.

– Entre este plantel e a massa associativa existe, de novo, a empatia dos melhores anos da história do clube?...

– Parece uma relação de amor e ódio, mas no fundo é uma verdadeira paixão. São sócios que só gostam do Vitória e que o defendem como um filho. Guimarães, pela sua vivência, aprecia e discute o futebol como nenhuma outra cidade. Por vezes existe uma certa exacerbação, mas o prazer de jogar com um grande apoio a incentivar-nos suplanta tudo o resto.

– Estamos perante a sua melhor temporada?

– Sem dúvida. Procuro evoluir diariamente, faço a minha autocrítica e tenho conseguido superar alguns obstáculos que impediam, de certa forma, a minha emancipação em termos de futebol sénior. Parece-me que estou mais agressivo e ciente que hoje em dia, no futebol moderno, não basta ser tecnicamente evoluído e capaz de gizar lances de mestria. Não basta.

– Deixa o Vitória ainda em Janeiro, ou só no final do ano?

– Tenho contrato. Quero o melhor para mim, mas sem dar passos em falso. Estou tranquilo e compenetrado na campanha do Vitória. Se for vitoriosa, tanto eu como os meus colegas podemos sair beneficiados; caso contrário, estaremos remetidos à dimensão. Não adianta comentar nem projectar cenários, sob pena de, aí sim, podermos alimentar falsas expectativas.

Perfil

Pedro Mendes é natural de Moreira de Cónegos, vila do Concelho de Guimarães que tem dado alguns desgostos ao principal clube vimaranense. O Moreirense eliminou o Vitória da Taça de Portugal por três vezes e Pedro Mendes ficou com o coração dividido.

O menino Pedro estudou onde nasceu, em Vizela e em Guimarães. Era bom aluno. Os primos mais velhos andavam na "primária", mas Pedro, mesmo sem idade, não resistia e já ia à escola. Concluiu o 12º ano na escola da Veiga e estava na área da fisioterapia.

Começou a jogar futebol no Desportivo das Aves, mas cedo se mudou para o Vitória. Aprendeu coisas novas no Ribeira de Pena e deu um salto qualitativo com a camisola do Felgueiras. Mas foi no Vitória, o clube do seu coração, onde se fez homem, profissional de futebol e se tornou num craque.

É casado, ainda não tem filhos, mas há-de ter, naturalmente, para poder, eventualmente, ter um delfim à altura. Aprecia a qualidade de vida, mas não é de grandes luxos. Talvez porque o contrato ainda não o permite verdadeiramente, mas vai permitir quando der o salto. E já esteve mais longe.

O FC Porto é o principal candidato no mercado português, mas no Celta de Vigo existem relatórios que deliciam o secretário técnico, Félix Carnero. Recentemente, contra o Marítimo, o espanhol não se cansou de escrever e de abrir a boca de espanto com a qualidade do médio.

A Europa têm-no debaixo de olho e o próprio já se apercebeu. Sentado ao computador navega pelo mundo fora e não dispensa uma espreitadela às Caraíbas, onde por norma goza férias. Consulta os jornais e acompanha as oscilações da bolsa... Consta que é um ás nas cartas e há um dia por semana em que não dispensa uma "moca" de sueca com os amigos.

Oito dribles

1 - A saída do D. Aves para os infantis do Vitória consumou-se a troco de material desportivo no valor de 1000 euros, 200 contos na altura. Mas a luta foi terrível e o seu pai teve mesmo de intervir com punho de ferro, ameaçando não o deixar jogar mais. O D. Aves só aceitava libertá-lo por 500 contos, mas após um "forcing" foi contratado.

2 - O já falecido José Silva, numa sessão de captações, foi o seu primeiro treinador no Vitória de Guimarães. Feita a primeira análise, assinou contrato através do pai, dando razão aos amigos que lá jogavam e que com ele estudavam. Valeu, portanto, a pena seguir os conselhos dos amigos para mudar para o Vitória.

3 - Na sua etapa de juvenil chegou a ser emprestado ao Ribeira de Pena. E aí quase desanimou. Era demasiado franzino, jogava em pelados e poucos acreditavam no seu sucesso. Mas o seu pai, que também tinha jogado futebol, sabia que estava ali um diamante. Era preciso tempo para o lapidar.

4 - Concluído o período da sua formação, Pedro Mendes foi emprestado ao Felgueiras. Partiu esperançado em evoluir e o Vitória renovou-lhe o contrato com vantagens financeiras. No clube duriense deu mostras de qualidade e o técnico Diamantino Miranda tinha poucas dúvidas. "Vai dar craque. De certeza", afirmou.

5 - Voltou a Guimarães e estreou-se na SuperLiga em 1999/2000. Quinito era o treinador e lançou-o logo na primeira jornada, contra o Vitória de Setúbal. O treinador considerava-o um dos "bebés" que fazia do equipamento do Vitória de Guimarães o pijama para dormir. Os outros "bebés" eram Rego, Lima e Fernando Meira.

6 - Na época passada já tinha realizado uma campanha consistente, mas este ano está, de facto, a revelar-se como o maestro de uma equipa que desenvolve um futebol vistoso. O médio já defende com rigor e comanda o sector nevrálgico com a mestria e agressividade que lhe faltava.

7 - Esta temporada fica desde já marcada pela primeira internacionalização pela selecção A. Aconteceu em Braga, num jogo amigável contra a Escócia. Rodeado dos craques que se habituou a admirar, a noite foi marcante e o médio vimaranense guardou a camisola do jogo num lugar muito especial na sua casa.

8 - O seu contrato termina em Junho de 2004, mas dificilmente o vai cumprir. A saída é inevitável. Quer pelo interesse acentuado dos clubes, quer pela necessidade do encaixe financeiro. O FC Porto não o contratou, mas estará bem posicionado. Poderá, de facto, ser o seu destino, mas para já não passa de uma das hipóteses.

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