Manuel Vilarinho: «Luís Filipe Vieira tem mais experiência no futebol»

PRESIDENTE ENCARNADO EM ENTREVISTA

A três meses de completar o primeiro ano na presidência do Benfica, Manuel Vilarinho revela na primeira entrevista a “Record” uma absoluta tranquilidade e confiança no futuro, em contraste com a ansiedade que tomou conta do clube nos últimos tempos
Manuel Vilarinho: «Luís Filipe Vieira tem mais experiência no futebol» • Foto: José Lorvão
Matérias sensíveis ou mesmo fracturantes como a entrega dos plenos poderes sobre o futebol a um director profissional não eleito com preferência para determinado agente-FIFA, como a construção do novo estádio ou como a reviravolta total no conflito com a Olivedesportos são assuntos resolvidos na cabeça do presidente do Benfica. Os sintomas de cisão interna, já realçada por uma demissão e muito conflito verbal, apenas lhe merecem sorrisos e bonomia, o mesmo bom humor com que faz questão de contar anedotas em que é o protagonista. Respondendo que ainda tem muitos “nós por desatar” quando se lhe pergunta por essas pastas prioritárias que foi cedendo aos seus colaboradores, garante: “Todos os problemas estão sanados e note-se que eu não me zanguei com ninguém. Se algum dia tiverem o privilégio de me ver zangado há-de ser notícia de jornal.” Só a comunicação social por vezes o tira do sério com a repetição das perguntas a toda a hora, porque não gosta nem quer dar “respostas ridículas, nem fazer frases feitas, nem armar em papagaio”. Por isso as suas entrevistas têm sido tão raras e esta, concedida a Record no limiar de uma época em que deposita as maiores esperanças, contém tantos sinais e linhas de rumo para dentro e fora do Benfica

Record – Passados nove meses do que podemos considerar o ano zero desta Direcção do Benfica, que expectativas tem para a próxima época?
Manuel Vilarinho – Infelizmente para o Benfica, para nós, Direcção e administração da SAD, o ano zero não é só este. É este e os dois próximos. Porque a situação caótica em que encontrámos o clube não permite que após nove meses de mandato possamos dizer que terminou o ano zero e amanhã começa o ano um. A situação ainda não está debelada, para lá caminha. Aliás, grande parte do que foi prometido na campanha eleitoral está cumprido: o aumento de capital, que era o ponto mais importante e nos tirou muito tempo, foi feito, mas continuamos a aumentar a casa que está bastante desarrumada e sempre com grandes dificuldades financeiras. É preciso ter em conta os condicionalismos, não se vá pensar que pelo simples facto de terem passado nove meses já está tudo resolvido. Não está! E posso garantir que hoje as dificuldades ainda são semelhantes às que tivemos quando aqui chegámos.

– Não melhoraram as coisas?
– Sim, mal seria que não melhorassem. Mas a situação era tão má que não se resolve de duas penadas. Vai demorar três anos.

– Não parece muito optimista. Que promessas pode fazer para os próximos tempos?
– Promessas não faço nenhumas. O que digo aos consócios e a todos os que gostam do Benfica é que faremos o melhor possível na área do futebol, Sabemos que é nela que se avaliará como mau ou bom o trabalho desta Direcção, o que a meu ver é uma injustiça. Mas as coisas são assim e temos que as aceitar. Se o futebol correr bem a Direcção é boa. Se correr mal a Direcção é má, apesar de tudo o que já fez e que foi muito.

– Se lhe atribui tanta importância, porque delegou as competências sobre o futebol?
– Deleguei, porque não havia outra hipótese. O trabalho é tanto que se tornou impossível eu poder dedicar-me ao futebol e continuar a desempenhar as outras tarefas. Há áreas no clube tão importantes como o futebol e agora posso dizer que não estou arrependido em quem escolhi e apostei, o senhor Luís Filipe Vieira, que dentro dos princípios de liberdade e responsabilidade tem desempenhado um óptimo trabalho. Estou contentíssimo e só esperamos, eu, os benfiquistas e ele próprio, que tenhamos a recompensa devida por esse trabalho.

– O Benfica andou alguns meses a perder tempo? A solução Luís Filipe Vieira devia ter sido adoptada logo após as eleições?
– Não foi uma perda de tempo. Quando somos confrontados com novas realidades e se não tivermos nada preconcebido temos que analisar a situação primeiro. Em relação ao futebol, eu trazia na cabeça apenas a ideia de ser o ‘homem do futebol’ para analisar a situação e ver como havíamos de resolver o problema. Depois de cá estar algum tempo, concluí que era preciso uma pessoa com determinadas características, com determinado poder e felizmente conhecia bem Luís Filipe Vieira. Sem desprimor para outros que haverá com igual capacidade e que poderiam desempenhar este papel, estou muito contente com a escolha que fiz.

– A sua ideia inicial era a intervenção directa e não a delegação do poder ou não?
– Não, não era. Não fazia sentido ter uma pessoa para o futebol antes de conhecer bem a realidade do clube. Primeiro inteirei-me dela, durante seis ou sete meses, sozinho, sem pressa, analisei o que dantes se chamava de departamento de futebol e hoje é uma sociedade anónima desportiva. Em função do que vi, do que conhecia e da minha sensibilidade, tomei esta decisão. Oxalá não me arrependa. Acho que não me vou arrepender.

– Ainda tomou decisões importantes, como a convicção eleitoral com Jardel, a contratação de Roger...
– Em relação ao caso de Jardel, leva-se em conta o momento de campanha eleitoral e entende-se como uma promoção de um candidato à presidência do Benfica. Posso garantir que não tinha esse objectivo primário, pelo contrário, procurava-se reforçar a equipa que toda a gente dizia que era fraca e por isso se avançou para o Roger.

– Mas virou-se contra si?
– Sim. Estou arrependido. Se fosse hoje não o teria feito. Eu vi-o jogar na televisão várias vezes e era um jogador de que gostava e que pensei poder ser útil ao Benfica. Mas no futebol é preciso ter outros cuidados, pois um jogador pode ser bom no Brasil e falhar em Portugal, ser bom na Croácia e não singrar no Brasil. Com o Roger enganei-me, mas aprendi. Nesta matéria é preciso ter outros cuidados, até porque está muito dinheiro envolvido. Enganei-me, mas ainda acredito que possamos recuperar o jogador. Ele agora voltou ao Brasil, onde se sente como peixe na água, já conhecedor de que o futebol europeu não tem nada a ver com o que ele estava habituado para ver se, com a experiência adquirida, pode mais tarde regressar a Portugal e ser recuperado para o Benfica. Mas a asneira ensinou-me que não devia ter feito a contratação sem levar em conta determinados pormenores externos e colaterais à contratação de um jogador que, confesso, não me passaram pela cabeça.

– Confiou demasiado no empresário [Jorge Mendes] e no investidor [Vítor Santos]?
– Não. Não houve confiança nenhuma, porque quem escolheu o jogador fui eu, depois de o ter visto jogar várias vezes. A iniciativa foi minha e negociei directamente com o Fluminense. O empresário apenas funcionou como apresentador...

– Foi esse caso que os fez mudar de estratégia e procurar a ajuda de Luís Filipe Vieira?
– Foi uma das razões, quer por falta de tempo, quer por não querer ficar com esta responsabilidade sozinho e porque humildemente reconheço não ter experiência ainda para ficar com o dia-a-dia desta coisa do futebol totalmente à minha guarda. Tenho que aprender!

– E o Luís Filipe Vieira vem em socorro...
– Com certeza. Ele está há anos no futebol e tem muito mais experiência, vindo colmatar o défice que eu teria.

– Assumindo responsabilidade total?
– Trabalhamos em sintonia. Com independência e responsabilidade, ele toma as decisões, mas sempre de comum acordo.

– Tem a última palavra?
– Se sou o presidente quer do clube quer da SAD, é claro que sim. Mas tenho plena confiança no Luís Filipe Vieira e estou contentíssimo, até pela sintonia na forma de pensar e de actuar: somos muito semelhantes em questão de rigor. O Benfica não nada em dinheiro e traçámos o objectivo de constituir uma equipa competitiva, mas sem megalomanias em matéria financeira, o que foi conseguido.

– Conseguiram um equilíbrio salarial, por exemplo?
– Já que publicaram os salários dos jogadores do Benfica – e eu não confirmo se o que veio a público [no jornal “Independente”] é verdade e admira-me que não publiquem os dos outros clubes para podermos comparar –, apenas digo que se aquela tabela estivesse correcta, eles não seriam nada exagerados... Pelo menos, garanto que a massa salarial total não é superior à do ano passado.

– Baixou?
– Não é superior!

– Foi à Suíça esta semana ver o estágio da equipa. Que lhe pareceu?
– Falo como adepto: gostei, não só das indicações que tive nos treinos, gostei principalmente do que vi no jogo de Bordéus, em que a equipa reagiu muito bem à adversidade e mostrou que quer ganhar, luta e tem outra maneira de estar dentro do campo. Dirão que foi só um jogo... eu tenho esperanças que sejam todos, ou a grande maioria. O que mais me interessa no futebol do Benfica, e também o temos conseguido, é fechá-lo. Fechá-lo. Fazer com que as coisas não passem cá para fora, que o grupo seja unido, coeso, com bom balneário e que todos os problemas que possam nascer no seio do grupo sejam resolvidos lá dentro e não venham para a praça pública.

– Ultimamente isso ocorreu não no seio da equipa de futebol, mas na dos dirigentes, nomeadamente na comparação feita pelo “investidor” Vítor Santos entre Luís Filipe Vieira, o “Rolls Royce” e Manuel Vilarinho, o “127”?
– Essa comparação só nasceu na imaginação de alguém. Cá dentro, tudo esteve sempre bem claro. Eu sou o presidente, ponto final. Toda a gente sabe o que se passou com o senhor Vítor Santos, mas eu posso adiantar que, neste momento, nem a ele nem aos outros amigos do Benfica o clube deve seja o que for. Ajudaram bastante na fase inicial, porque os cofres estavam vazios, ajudaram muito, mas repito: neste momento, o Benfica não lhes deve nada. Até aproveito para sublinhar que alguns deles têm sofrido consequências nas suas vidas particulares desta ajuda que deram ao clube...

– Problemas fiscais?
– De carácter geral. Têm tido problemas na sua vida particular e profissional que nasceram necessariamente desta ligação ao Benfica. Se há no país muita gente que gosta do Benfica, também haverá muita gente que não gosta... Não sei as razões, mas o que é certo é que não só ele [Vítor Santos], mas outros têm tido problemas e estão-se a afastar. Estão-se a afastar porque, apesar de gostarem muito do clube, talvez não se justifique que isso lhes acarrete graves problemas nas suas vidas particulares e profissionais.

– Esses afastamentos ainda têm implicações negativas no Benfica?
– Acho que não, porque o benfiquismo deles é de tal ordem que me garante que numa situação de emergência poderei sempre voltar a contar com eles.

– Esses “investidores” que o ajudaram exerciam uma grande influência na área do futebol?
– Não tinham, nem podiam ter.

– Não foi a dispensa do Roger que desencadeou o ‘frisson’ entre si e Vítor Santos?
– O ‘frisson’ tem a ver com o feitio das pessoas e eu não quero falar mais disso. E não foi o Roger, com certeza que não. No ano passado, era preciso reforçar a equipa em três sectores, contratámos três jogadores (Roger, André e Ednilson), mas não deu grande efeito, não adiantámos nada. Falhámos.

– Por um momento chegou a parecer que a equipa estava na luta pelo título. Acreditou?
– Não. Disse sempre publicamente que íamos ser campeões, mas no meu íntimo nunca me convenci. Tenho testemunhas, posso dizê-lo à vontade: nunca acreditei porque uma equipa de
futebol não pode ser uma manta de retalhos...

– Sentia-se isso no balneário?
– O problema não era no balneário, mas no campo. Como podia uma equipa com aspirações a títulos e grandes resultados jogar tão desligada e com os jogadores tão afastados uns dos outros. Qualquer equipa de segundo ou terceiro plano vinha à Luz e movimentava-se a seu belo prazer no nosso meio-campo...

– Houve uma fase em que ela teve espírito e coesão também em campo e ganhou uma série de jogos...
– Esses jogos consecutivos que ganhámos tiveram tanto de aleatório como os outros que perdemos também de seguida. Se têm sido entremeados a crise teria sido mais pequena, pois as expectativas não tinham sido tão altas e a decepção seria menor: derrota, seguida de vitória, seguida de derrota, seguida de vitória aborrece menos os adeptos do que seis derrotas consecutivas...

– Os maus resultados afectaram os trabalhos de recuperação noutros campos?
– Sim. A mola real disto tudo é o futebol e com o futebol naquele estado as pessoas desmotivam-se. Desmotivadas, deixam de aparecer e as receitas baixam ainda mais.

– Toni também viu logo que a equipa não tinha qualidade?
– Sim, inclusive ele já o tinha dito antes ao anterior presidente quando este o convidou para o mesmo cargo.

– Então como conseguiu o senhor convencê-lo?
– Não foi preciso muito. Ele aceitou imediatamente, mas correndo um grande risco pessoal, pois sabia bem o que vinha encontrar.

– E assim ficaram ambos ligados à pior temporada de sempre...
– Ligados estamos, ele como treinador, eu como presidente. Mas, embora nunca tivesse imaginado que íamos ficar em sexto lugar, também digo que não me sinto responsável por ela. E o Toni muito menos.

– Pode explicar melhor o estatuto de Jesualdo Ferreira, que dizem não ser um adjunto, mas um segundo treinador?
– Um treinador adjunto na maior parte dos casos anda ligado umbilicalmente ao treinador principal e no caso do Toni e do Jesualdo essa ligação já vem de longe. Mas o que pretendemos aqui no Benfica é que o professor Jesualdo Ferreira seja não só o treinador que coadjuva o treinador principal, seja este quem for, como também em simultâneo seja o pensador de todo o futebol do Benfica. É ele que está a organizar desde os iniciados até à equipa sénior o que o futebol do Benfica deve ser no futuro.

– Sem intervenção de Toni?
– Não sei se falam entre si, mas nessa matéria Toni não tem competências nem responsabilidades.

– É para vincar essa diferença que o contrato de Jesualdo é mais longo?
– Repito: Jesualdo é o pensador do futebol do Benfica, precisa de tempo. Foi-lhe pedido da seguinte forma: “diga-nos o que pensa que deveria ser a organização do futebol do Benfica e, como temos plena confiança na sua cabeça, nos seus métodos e na sua experiência, diga-nos também a forma de o implementar”.

– O que leva tempo...
– Claro, que isto não são coisas que se façam de hoje para amanhã. Desde os iniciados até acima, para fazer jogadores para reforçar a equipa e obviamente entrar no comércio futebolístico que é algo a que os clubes portugueses não podem fugir. Os nossos clubes têm que ser mais de vender do que de comprar...

– E têm infra-estruturas compatíveis?
– Aqui, na Luz, o que temos chega-nos.

– Abdicam do Centro de Estágio?
– Em princípio sim, mas tudo depende de outras questões que estão a ser tratadas, não directamente com o novo estádio, mas com o terreno do Seixal, que não estão a evoluir tão depressa como gostaríamos.

– A partir de agora, a responsabilidade é total. O que é que pode prenunciar para o ano que aí vem?
– Competitividade, andar nos lugares cimeiros e tentar ganhar o campeonato.

– Tem apreciado a preparação dos outros clubes, as suas contratações?
– Tenho. Gosto muito de futebol e, como sempre fiz, leio tudo, tento estar a par não só sobre o que se refere ao Benfica como o que diz respeito aos competidores. Não me pronuncio sobre se estão melhores ou piores. Mas pronuncio-me sobre o Benfica e digo que estamos bastante melhores. No entanto, mais no futebol do que na vida, tudo é efémero e contingente e, portanto, só veremos no fim. Mas a esperança é grande e os indícios são bons. Uma certeza tenho: a classificação do ano passado não se repetirá!

– Os benfiquistas não tolerariam isso.
– Sou uma pessoa tolerante, portanto ponho a situação noutros termos: seria compreensivo. Também sou benfiquista, também tenho direito a exigir. Era preciso constituir um grande plantel, mas de forma económica, que dê garantias.

– Os sócios já lhe perdoaram o cumprimento da promessa-Jardel?
– Nunca prometi o Jardel. Prometi que faria tudo para o trazer, de tal forma que houve o cuidado de estabelecer no contrato-promessa a cláusula a negociar. A negociar porque não podia cair na leviandade de pagar seis milhões de contos pela rescisão dele.

– Chegou a negociar com o Galatasaray?
– Mandei lá dois representantes por duas vezes.

– Alguma vez houve possibilidade de acordo?
– A certa altura a coisa esteve perto, mas depois por isto ou por aquilo...

– E hoje ele não teria lugar na equipa...
– Não sei se teria ou não. O que ele não tem é o perfil exigível a um jogador do Benfica. Comigo aqui nunca poderia ser jogador do Benfica!

– Essa exigência moral serve para outros jogadores?
– Com certeza. Estas mesmas palavras podem até servir para algum que ainda não se tenha apercebido disso. Tem que haver respeito mútuo. Nem o presidente do Benfica tem o direito de tratar mal ou dirigir-se de forma menos própria seja a quem for...

– Houve um caso recente com o Fernando Meira que acabou de forma bem mais compreensiva...
– Não é igual, pois o Fernando Meira nunca se dirigiu de forma menos respeitosa quer à Direcção, quer ao clube. Houve um mal-entendido, uma má transmissão de ideias, que o Luís Filipe Vieira colmatou imediatamente e, a meu ver, com inteira razão.

– “Ganhando” o jogador?
– Sim. Até foi nomeado ‘capitão’ de equipa.

– Um caso exemplar?
– Uma coisa não tem a ver com a outra. Tratou-se apenas de umas declarações infelizes do jogador, que foi repreendido, penitenciou-se e o caso terminou de imediato, amigos como dantes. Nunca houve faltas de respeito.

– E assim ganhou a braçadeira que chegou a ser pensada para o guarda-redes Enke. Quem decidiu?
– Também tive interferência no processo. Por consenso entre a equipa técnica, o Luís Filipe e eu, concluímos que o que seria melhor para o Benfica seria entregar a braçadeira de ‘capitão’ ao Meira.

– Que ideia devem os benfiquistas fazer sobre a coincidência de uma série de jogadores terem representado recentemente o FC Porto?
– Temos três ou quatro, mas isso não quer dizer nada. Não andámos a contratar jogadores que foram do FC Porto por nenhuma razão, nem sequer para acirrar alguma rivalidade. Trata-se de jogadores livres, tirando o Zahovic que foi trocado pelo Marchena.

– As pessoas podem contornar isso?
– Calhou, apenas. O Drulovic estava livre, tal como o João Manuel Pinto, o Argel interessava-nos, e o Valência entendeu fazer a troca do Zahovic. São coincidências.

– Não há aí uma competição pessoal com o seu amigo Pinto da Costa?
– Acho que ele deve compreender que estas coisas são como são. Não ofendemos ninguém, não passámos por cima de ninguém, não nos portámos mal, fizemos tudo com lisura e transparência.

– O início destas contratações não coincidiu com o esfriar das relações no G-18?
– Não. A saída do G-18 deu-se quase dois meses antes!

– Do Drulovic já se sabia há muito tempo...
– Não, não. Eu nunca falei com o Drulovic senão no fim do campeonato, quando ele já tinha deixado de ser jogador do FC Porto. Nem eu nem ninguém do Benfica ou a mando do Benfica falou com o Drulovic antes de ele terminar o contrato com o Porto. Mais: a hipótese de ele vir só nos foi colocada três ou quatro dias mais tarde.

– Mas o FC Porto já desconfiava.
– Se desconfiava, desconfiava mal, porque nunca esteve previsto.

– Se fechar contrato com a Olivedesportos estará a unir-se a um dos maiores accionistas do FC Porto...
– Ainda não disse que era com a Olivedesportos, mas se for não tenho problema. O tempo é de globalização e o futebol também já é globalizado. Não misturo o que são negócios das pessoas com as suas filiações clubísticas. Se for a Olivedesportos, mesmo com esses estigmas, a pagar melhor, é ela que leva os direitos.

– O Benfica “rende-se” ao seu próprio cavalo de batalha...
– Do qual saiu mal: o sistema, a Olivedesportos e o FC Porto. O que é certo é que desde que inventaram essa lengalenga o FC Porto nunca mais ganhou o campeonato, e os clubes que estão com a Olivedesportos, Boavista e Sporting, ganharam.

– “O sistema” mantém-se, o FC Porto é que saiu dele?
– Não. Não acredito nisso.

– O futebol português não tem esse problema?
– Toda a gente sabe o que tem.

– É preferível estar com a Olivedesportos do que contra a Olivedesportos?
– Também não. Apenas me preocupo em pôr os interesses do Benfica à frente, em particular os financeiros.

– Neste caso, são apenas interesses financeiros?
– Sim. Quantas pessoas do Porto e do Sporting não servem o Benfica contratualmente noutras áreas? Não sei, nem me importo. Devo ter muitas, se ofereceram as melhores condições. Muitas vezes até são os melhores. E tenho aprendido nestes últimos nove meses no Benfica que grandes manifestações de benfiquismo acabam, na prática, apenas com interesse em fazer negócio e... mau para o Benfica. Portanto, quando se trata de dinheiro, se calhar até é melhor negociar com gente do Sporting e do Porto!

"Jardel? Nem que fosse o Pelé"

– Se vir Mário Jardel com a camisola do FC Porto, o que dirá?
– Se o Jardel for para o Porto e o Porto ganhar o campeonato, o presidente desse clube vai dizer: “pela segunda vez roubámos o Jardel ao Benfica e pela segunda vez ele nos ajudou a ser campeões”. Se o Porto não ganhar, ele não dirá nada.

– Porque desistiu do Jardel?
– Porque o Jardel escolheu a via da comunicação social para dialogar com o Benfica e relativamente à forma como se referiu ao presidente do Benfica e à instituição nem que fosse o Maradona ou o Pelé ele poderia vir para cá. Quem se referir ao Benfica naqueles termos não tem aqui lugar.

– Exactamente o que disse ele?
– Não vou reproduzir o que ele disse, mas recordo que fazia ultimatos que nem o contrato que tinha assinado na altura da campanha eleitoral lhe dava qualquer direito a exigir.

– As contas com ele estão saldadas?
– Estão.

"Prefiro acordo com quem não tenha canal de televisão, como a Olivedesportos

– Chegou a hora do ajuste de contas com a SIC, a TVI, a Olivedesportos.
– O Benfica resolveu os contratos com a SIC por razões próprias. Quer houvesse, quer não houvesse litígio com a Olivedesportos, o Benfica resolveria sempre o contrato com a SIC, porque razões jurídicas, razões económicas e razões éticas nos levam a não querer ser parte contratante com essa televisão. Os tribunais decidirão, se for caso disso, quem tem razão. Não se trata aqui de rasgar contratos – uma expressão muito em voga na imprensa...

– O dr. Vale e Azevedo também invocou razões próprias para resolver o contrato com a Olivedesportos.
– Nunca acreditei que o Benfica ganhasse essa acção e tudo indica que a iria perder. Mas quero frisar é que independentemente desse julgamento, connosco nunca haveria continuação do contrato com a SIC na próxima época.

– Por que não resolveu o contrato logo quando tomou posse?
– Estávamos a meio da época e estas coisas não podem ser feitas em cima do joelho. Houve que estudar bem a questão, ver se estávamos bem calçados juridicamente, embora não nos faltassem as razões de queixa. Neste momento estamos de tal forma confiantes na nossa razão jurídica que pensamos poder reclamar uma indemnização.

– Com aquele contrato, 500 mil contos para três directos, esta época cada jogo do Benfica valia mais de cem mil contos. É um mau preço?
– Não. A SIC tinha direito a todos os jogos, temos que contar também os diferidos. A meu ver, inclusive, os jogos em diferido estragavam o espectáculo e constituíam um mau negócio para o Benfica. Os diferidos afastam gente do estádio e não são compatíveis com um produto desta categoria. Benfica, ou se vê em directo ou não se vê!

– No comunicado invocou razões éticas. A imagem do Benfica foi lesada pela SIC?
– Não chego tão longe. O Benfica sente-se lesado economicamente. Quer antes, quer durante a campanha, quer já depois das eleições, por exemplo no jogo de Campo Maior com chamadas constantes do anterior presidente, quer mais recentemente com uma entrevista de casa dele, o Benfica também foi beliscado. A nosso ver, não se justifica que um parceiro de negócios se comporte desta forma. Podem dizer-me que são critérios editoriais e vão dizê-lo com certeza; mas nós respondemos: com gente assim, fiquem lá com os critérios editoriais que nós vamos procurar outro!

– Não se vai repetir a situação agora num eventual acordo com a TVI, a televisão que ajudou a sua candidatura e que eventualmente se acha no direito de fazer um “bom contrato”?
– Ninguém disse ainda que vamos fazer contrato com a TVI. Estou à vontade para garantir que o que se vai fazer é o que for melhor para o Benfica.

– O dr. Pinto Leite, da Media Capital, já disse esperar que a actual Direcção do Benfica tenha memória...
– Se a TVI fez algum trabalho durante a campanha para vir a obter os direitos televisivos, desde já respondo que se enganou, pois não será por isso que os adquirirá. Só vai ter os nossos direitos se nos fizer o melhor preço.

– Já recebeu propostas?
– Claro que sim. A época está a começar, não podíamos estar parados. Quero em todo o caso sublinhar que o Benfica vai lutar pelo melhor preço e acabar definitivamente com litígios nesta área, como em todas as outras. O nosso departamento jurídico deve ser dos mais sobrecarregados do país...

– Haverá alguma televisão que lhe garanta negócio e isenção informativa?
– Pois não, se calhar é melhor irmos [fazer negócio] para quem não tem televisão.

– Quem?
– A Olivedesportos!

– Isso não ajudará a “domar” os critérios editoriais das televisões.
– Não tem problema, porque nesse caso não terão contrato connosco. Até nisso é benéfico os clubes terem contrato com a Olivedesportos, que não tem canal de televisão para dizer bem, nem dizer mal.

– Mas o Benfica está em desvantagem negocial perante a Olivedesportos.
– Não concordo com essa conclusão. Considero que estamos exactamente na mesma posição deles: pensarão que têm vantagem, mas não têm a certeza e nós julgamos que vamos perder, mas também não temos a certeza. Por isso, estamos em igualdade de circunstâncias para podermos negociar.

– O Benfica está a partir do princípio que é derrotado no Supremo Tribunal de Justiça?
– Parte do princípio, mas ainda não foi derrotado e a Olivedesportos, por seu lado, pensa que vai ganhar, mas também não tem a certeza. Por isso, estamos na altura ideal para chegar a um acordo.

– Mas por que é que o Benfica pensa que vai perder, se ganhou na Relação?
– Quando o processo foi dado para vistos – à presença de mais dois juízes – nem precisámos de o consultar: perdemos por 2-1. Porque se a decisão de 2-1 tivesse sido a nosso favor, estaria concluído, uma vez que para confirmar a decisão da Relação basta 2-1 e para a contrariar é que é necessário 3-0. Ora se levam a vistos a mais dois juízes, isso significa que foi contra a decisão da Relação. Agora, repito que isto não influenciou em nada a resolução do contrato com a SIC, apenas os “timings” foram coincidentes.

– Sabe quanto vale exactamente o Benfica em termos de televisão?
– Não vou desvendar como vamos negociar...

– Partindo do princípio que a SIC pagava pouco, o que é razoável? O triplo? Quatro vezes mais?
– Sim... por exemplo. Vê-se que sabe qual era o valor justo, três ou quatro vezes mais!

– O próximo jogo com a Fiorentina, dia 4, dá na TVI ou na SIC?
– Na TVI, porque todo o estágio e jogos da pré-época foram comprados pela empresa Ociomédia que os vendeu à TVI.

– E se a Ociomédia tivesse vendido à SIC?
– Custava-me, mas se eu não tivesse qualquer ressalva no contrato, teria que suportar a situação. Aliás, na Taça de Portugal é isso que sucede, pois os jogos são da SIC. E é até um bom termo de comparação, para se perceber como o Benfica era economicamente prejudicado: os 22 jogos da Taça de Portugal custaram à SIC 1,750 milhões de contos; será que os 17 jogos do Benfica só valem 500 mil?

– As negociações com a Olivedesportos estão avançadas?
– Não, não estão. Temos falado com toda a gente e decidiremos em breve.

– Diz-se que o acordo já está feito.
– Só lhe digo que, no caso de ser a Olivedesportos, não se trata de um contrato novo, mas de repor o que foi violado pelo Benfica [e que estava em vigor até 2004]. Repondo o contrato acaba-se com as guerras.

"G-18? A unidade quebrou-se"

– Como explica a saída do G-18?
– O objectivo traçado na primeira reunião era credibilizar o futebol, mostrando inequivocamente ao país e às autoridades que esta indústria é importante. O chamado G-18 seria o embrião de uma nova organização do futebol em Portugal. Mas a partir do momento em que colegas presidentes de outros clubes não falavam comigo directamente a respeito de situações que envolviam o Benfica, mas serviam-se da comunicação social para o fazer, dizendo o que lhes vinha à cabeça, a unidade quebrou-se. Além disso, aquilo devia ser uma reunião de presidentes, mas havia um [do Imortal] que nunca lá apareceu e mandava um empregado que, por sinal, tem uma acção judicial contra o Benfica [Álvaro Braga Júnior]. Para estar naquela situação, preferimos estar sozinhos!

– Participa na Taça da Liga?
– Não sei. É uma novidade que ainda não estudámos. Mas estranho porque por um lado diz-se que a época está sobrecarregada, que há falta de datas, mas por outro cria-se uma nova competição...

"Toda a gente com quem falo é a favor de um estádio novo"

– A construção de um novo estádio não foi a sua primeira opção.
– Não, de facto. A minha primeira decisão foi o estádio municipal e parece que os factos me estão a dar razão.

– Porque abdicou dele?
– Porque verifiquei que não havia condições para que fosse avante.

– Condições exógenas?
– Exógenas, sim, que as internas estavam preenchidas. A Direcção queria, não sei se os sócios o aceitariam, mas não chegámos a pôr-lhes a pergunta.

– Os investidores não o queriam, o vice-presidente Mário Dias nunca foi a favor do municipal.
– Tem que lhe pôr a pergunta a eles.

– Dentro da Direcção, alguma vez eles concordaram com isso?
– Sim, essa foi a decisão dentro da Direcção. Havia um acordo: primeiro estádio municipal, segundo estádio novo, além das outras hipóteses de remodelação ou não fazer nada.

– O Sporting imputou as culpas da falta de acordo ao Benfica.
– Pelo que eu percebi, não acho que tenha imputado. O Sporting também concluiu que não havia condições.

– Para o Sporting essas condições eram sobretudo ser ressarcido dos investimentos já feitos no novo estádio de Alvalade.
– Quanto a isso seria fácil chegar a acordo. Não foi por aí. As condições não estavam preenchidas: havia três entidades, Câmara, Benfica e Sporting, mas não havia tempo útil, sobretudo porque o terreno não era da Câmara

– E na Luz? É possível fazer um estádio novo?
– No projecto está bem implantado. Não só é possível, como seria óptimo para o Benfica que se fizesse, mas ainda falta acertar dois ou três pormenores.

– Quais?
– Não há problemas com o Banco Espírito Santo, com eles está tudo resolvido.

– Tem garantias de financiamento?
– O “project finance” está resolvido, há acordo de financiamento, dependendo de determinadas condições que compete ao Benfica satisfazer. O que falta só diz respeito ao Benfica, não ao Banco [a saber, a questão do PDM e a hipoteca da Euroárea]. Mas em rigor não está ainda aprovado.

– Também falta saber a vontade dos sócios.
– Será expressa em assembleia geral, mas se eles não quiserem não se faz. No entanto, estou convencido de que aprovarão a construção de um estádio novo, pois já perceberam que é a forma de rentabilizar o património. Neste momento, o único activo patrimonial que temos é este espaço da Luz, com campo principal, campos de treino e zonas circundantes. Se mudarmos a posição do estádio mais para a ponta [cruzamento da Avenida Lusíada com a Segunda Circular], vamos não só ter uma rentabilidade comercial que não temos no actual como ainda criamos património traduzível em dinheiro [zonas de construção] que agora é impossível.

– Quando começam as obras?
– Têm de começar em Setembro, senão não há estádio...

– Quando vão os sócios decidir?
– Ainda não está o dia marcado... O Benfica tem estatutos, estão antiquados, mas tem estatutos e eles têm de ser respeitados. Falta o parecer prévio do Conselho Fiscal, que tem de ser dado após uma análise dos documentos que carece de tempo. Esta é a decisão mais difícil dos últimos anos neste clube, não pode ser tomada em cima do joelho.

– Fazer o estádio novo é melhor do que remodelar o antigo?
– Não só é melhor, como a remodelação é impossível. Não temos financiamento para isso, porque a remodelação não garante retorno financeiro, ao não permitir o reaproveitamento das instalações. Por isso essa hipótese foi posta de parte.

– Tem encontrado muitas pessoas a favor da remodelação, inclusive nos órgãos sociais?
– Muito poucos, quase nenhuns. Toda a gente com quem falo é a favor do estádio novo.

– E os outros convencem-se?
– Ainda só tive de convencer um, mas é fácil com o argumento de que construir o estádio novo é criar riqueza ao permitir um aproveitamento comercial que o antigo nunca vai oferecer. Aliás, desse dinheiro sairá uma parcela que paga o próprio estádio. Não totalmente, mas uma parte significativa é paga pela comercialização da obra. O novo estádio será um edifício com utilização diária, de quinze em quinze dias com um jogo de futebol, mas quotidianamente como centro comercial e de diversão, com vida própria independente do futebol.

– E visa gerar receitas para o futebol, ou o futebol conseguirá sobreviver por si?
– No futuro serão receitas para o Benfica, o clube. Se a SAD precisar, o accionista maioritário tem que injectá-las no futebol.

– É com este discurso que vai convencer os sócios?
– Com mais pormenorização. Penso que vai ser fácil convencê-los de que esta é obviamente a melhor solução. Neste momento não temos nada, no futuro teremos bastante, mesmo considerando que parte substancial do que for construído será afectado ao pagamento do próprio estádio. Trata-se de transformar um terreno que não tem rentabilidade num activo imobiliário rentável.

– Sabe exactamente quanto vai custar o novo estádio?
– Sei. Não vou dar o número exacto, mas saber o valor exacto é um ponto essencial do modelo de negócio, uma vez que a obra vai ser feita de chave na mão.

– Não vai haver derrapagens?
– No nosso caso não é possível, porque vamos ter um preço fixo. Deslizes só pode haver para... baixo.

– Dê-nos um valor aproximado... Quarenta milhões de contos?
– Nem pensar. Seria inviável. Um estádio que custe mais de 27 milhões de contos é inviável.

– Tem de ser mais preciso na AG.
– Lá, responderei com exactidão. Já tenho os números definitivos...

– 27 milhões então?
– Não. O que eu digo é que mais do que 27 milhões seria um desastre, nem o Benfica conseguiria capital para entrar.

"João Pinto ainda é credor"

– O João Vieira Pinto ainda é credor do Benfica?
– Ainda. Mas as coisas estão acordadas e vão continuar assim até que consigamos pagar-lhe tudo, a ele e a outros credores. Tem sido muito compreensivo, como aliás outra coisa não seria de esperar.

– Que vantagem existe no acordo com Porfírio, após a derrota judicial?
– Quer a equipa técnica quer os colegas estão contentíssimos com o Porfírio. Ele sabe que, na idade em que está, esta é a hipótese de não passar ao lado de uma grande carreira. Tenho fortes esperanças de que esta oportunidade vai ser tão boa para ele como para nós. É um bom jogador que nos vai ser muito útil.

– Apenas porque o tribunal mandou?
– O jogador Interessava-nos à mesma, mas tínhamos sempre de chegar a acordo em primeiro lugar. O caso dele, o do Michael Thomas e o do Sanchez são todos iguais, pois não havia justa causa para a rescisão. Nós só despedimos um jogador [Dani], mas tínhamos razão e ganhámos o processo.

"Luís Nazaré não tinha razão nenhuma para se demitir do Conselho Fiscal"

– Quanto vale agora uma acção da SAD do Benfica?
– Não faço ideia, não está cotada. Neste momento essa pergunta é irrespondível, porque estamos numa fase de arrumação da casa e de transformar o clube numa verdadeira empresa. Talvez haja quem defenda a tese de que por causa de não ganhar o campeonato há sete anos só valha 500 escudos, ou quem defenda que as potencialidades permanecem intactas e hão-de vir ao de cima e por isso devem valer 1500 escudos. O mercado da Bolsa é muito susceptível a factores psicológicos. Por isso só saberemos quando estiver cotada.

– O aumento de capital da SGPS atrasou-se?
– Não. Esteve sempre previsto para este segundo semestre e é o que vai acontecer. Estamos a negociar com parceiros, fica para mais tarde.

– Na campanha eleitoral disse que já tinha equipa para a administração da SAD, mas não conseguiu formá-la.
– Só ficou incompleta com a saída de Armando Vara que, de facto, não fazia parte dessa equipa projectada antes das eleições. Mas tem havido muitas vicissitudes a condicionar os nossos planos...

– Como a demissão do presidente do Conselho Fiscal?
– Ainda não falei com Luís Nazaré. Esteve de férias, demitiu-se, mas acho que ele não tem razão. O problema não foi comigo, foi com o dr. Tinoco Faria, uma excelente pessoa, e acho que não tem razão nenhuma.

– Faz uma leitura política deste abandono de duas pessoas mais próximas do partido do Governo?
– É mera coincidência. Que interesse teria o Partido Socialista em isolar-se do Benfica? Nenhum. Somos o clube que lhe pode dar mais votos, o que tem mais gente!

– Mas naquela questão da dívida fiscal o Governo tratou o Benfica com condescendência.
– Com toda a justificação, porque o Estado é responsável pelo menos por omissão por tudo o que se passou no Benfica nos últimos três anos. Devia ter intervido e não interveio, apesar de ter todos os mecanismos do seu lado em matéria fiscal.

– Hoje talvez já não o fizesse?
– Mas fez e se tivesse sido mais célere, em tempo útil, o clube nunca teria chegado a esta situação, porque teria sido travada mais cedo. Depois de ter culpas no cartório, só podemos elogiar o ex-ministro Pina Moura, pois eles têm que avaliar o que se deve. Eu disse quanto é que devíamos, mas eles ainda estão a conferir. Todos os dias temos cá uma brigada a fiscalizar, ainda não terminaram o trabalho, pois têm que apurar 1998, 1999 e 2000.

– O Benfica estava muito desorganizado?
– Não. Quando por cá passei, quer com o presidente Ferreira Queimado, quer com Fernando Martins, quer com Manuel Damásio, foi sempre um clube muito bem organizado. Agora encontrei-o mais desorganizado, não por culpa dos funcionários, mas sim do desleixo a que foi votado nos últimos anos.

– Acha que tem funcionários a mais?
– Sim. Existe um plano de emagrecimento que não pode deixar de ser levado à prática, porque o clube gasta mais do que recebe. O Benfica já não consegue gerar as receitas que a SAD do futebol consegue e por isso vai ter de se cingir aos meios que possui e, fundamentalmente, pagar aos credores.

– Por isso também o abandono das modalidades?
– Já fazia parte do meu programa eleitoral, vão ser bem emagrecidas. Vamos tentar manter as secções, o Hóquei em Patins já está salvo. O Basquetebol não pode voltar a gastar 250 mil contos como no ano passado, este ano vamos jogar com a equipa de juniores que foi campeã nacional na última época. Quem não tem não pode gastar.

"Benfica já pagou dívida a José Veiga. Ele ajudou a resolver problemas do futebol"

-- Hoje deixa tudo para Luís Filipe Vieira, mas há pouco mais de seis meses dizia “eu percebo de futebol, toda a vida vi futebol, futebol é comigo”. O que o fez mudar de ideias?
– Se eu soubesse nessa altura o que vinha encontrar, não o teria dito. Muito me custa, porque era no futebol que eu gostava de estar. Contudo seria egoísta se continuasse a bater nessa tecla e iria servir mal quer os interesses do Benfica quer a mim próprio.

– Não pensa voltar a liderar o futebol?
– Não. Eventualmente no futuro, se eu por cá ficasse nove anos, com tudo a caminhar sobre esferas, talvez... pudesse ser simultaneamente o Vilarinho e o Luís Filipe! Mas agora não há tempo nem disponibilidade anímica, com tanta coisa para pensar.

– Com o estádio a andar, a televisão quase resolvida, o futebol entregue – o que é que o presidente faz?
– Ainda me sobram muitos nós por desatar. Nós herdámos uma situação de 20 milhões de contos de passivo directo e outros 20 milhões de passivo de contingência. Isto não é brincadeira. Todos os dias aparecem acções em tribunal, sempre pela mesma bitola, 200, 300 mil contos... mas já resolvemos bastantes.

– Já sugeriu em público que se soubesse o que sabe hoje não se tinha candidatado?
– Não foi bem assim. O último balanço do Benfica não estava correcto, estava viciado com uma receita de mais cinco milhões de contos, dinheiro que nunca existiu. Ora cinco milhões de contos para cima, mas cinco milhões para baixo, temos uma diferença de dez milhões, o que resultou numa ideia completamente errada do que podia vir encontrar. Sabia que era mau, mas configurei uma situação cinco ou seis vezes pior do que quando cá cheguei, poucos anos antes, com Manuel Damásio. A verdade é que encontrei uma situação 12 ou 14 vezes pior do que conheci com o presidente Damásio!

– Degradou-se em tão poucos anos?
– Não respondo para não ser desagradável. Mas há uma lógica, claro, por isso é que ‘o homem’ está preso... Vendeu os terrenos todos e ainda aumentou o passivo!

– A imagem do clube já melhorou?
– Um pouco. Já conseguimos comprar jogadores sem garantias bancárias.

– No caso do Simão era esse o problema?
– Não. Mas se fosse, resolvia-se. Antigamente é que não. Basta que o banco acredite nas pessoas para haver garantias.

– Com José Veiga a dar uma ajudinha?
– Não era preciso. O Benfica também já não lhe deve nada. As contas que ele aqui tinha, cerca de 500 mil contos, foram pagas.

– E transformou-o num parceiro?
– A orientação foi de Luís Filipe Vieira e pelos vistos foi bem tomada.

– É mais um caso de antagonismo encarnado com o presidente do FC Porto?
– Parece que sim, mas cada qual sabe de si. O empresário José Veiga foi escolhido para ajudar o Benfica nesta área, mas a perturbação que eventualmente causa fora do clube não nos diz respeito.

– José Veiga era ignorado por ter sido um parceiro do presidente anterior...
– Era desconhecido até do Luís Filipe, mas depois de analisar o mercado ele entendeu que estava ali uma boa aposta para a resolução dos nossos problemas no futebol e a verdade é que apostou bem.

– Um tiro no escuro?
– O Luís Filipe não dá tiros no escuro. Ele pondera sempre bem as coisas.

– Como naquela situação em que transformou o Pedro Mantorras numa espécie de “cavalo de Tróia” para entrar no Benfica?
– Não. Quando o Mantorras foi negociado ainda não tínhamos sequer pensado na hipótese de o Luís Filipe vir para a SAD ajudar-nos. Mesmo que o Mantorras não tivesse vindo, não faria diferença.

"Van Hooijdonk ganhava demais e podia não ser titular"

– Por que razão dispensaram o van Hooijdonk?
– Porque o ordenado dele era muito alto. O Benfica não pode comportar um jogador com as características do van Hooijdonk pelo preço que ele custava, correndo o risco de, nesta época, não ser efectivo.

– Tinham esse parecer do treinador?
– Claro. Aliás, qualquer pessoa que goste de futebol, olhando para os valores que o Benfica possui este ano, conclui que seria relativamente fácil ele não ser titular. E não podíamos manter um contrato com aqueles valores. Nem de um titular, quanto mais um suplente!

– Não tentaram baixar-lhe o salário?
– Julgo que o Luís Filipe Vieira ainda chegou a propor-lhe uma redução de salário, mas isso deixou de ter importância porque entretanto ele saiu...

"Simões ao lado da equipa técnica"

– O cargo do director desportivo, António Simões, foi esvaziado com a entrada de Luís Filipe Vieira?
– Foi sobretudo complementado. Não se pode dizer que tenha sido completamente esvaziado, porque há tarefas que são divididas, mas o Luís Filipe Vieira está num patamar hierárquico superior.

– Mas António Simões continua acima da equipa técnica?
– Nunca esteve. Está ao lado. Se houvesse um organograma estaria ao lado.

"Mourinho ainda podia ser o treinador"

– A saída de José Mourinho foi um revés?
– Saiu porque quis.

– Podia ser ainda hoje o treinador do Benfica?
– Podia. Mas ele não acreditava nas minhas palavras. Se a época corria bem, para quê mudar? Aliás, quem me conhece sabe que eu não sou de andar a mudar. E nestes nove meses já o demonstrámos: não mudamos por mudar, mas apenas quando se tem que mudar – o que não era o caso dele.

– Era ele que já tinha tudo acertado para ir para o Sporting?
– Nunca confirmei nada, mas os indícios são esses.

"Objectivo da época é sermos campeões"

– Os jogadores têm objectivos traçados para esta época?
– Sim. É serem campeões.

– E se não forem?
– Ninguém os mata... Mas gostava que fosse o Luís Filipe Vieira a explicar o que está traçado entre administração da SAD e ele nessa matéria. Tudo converge e foi programado para esse objectivo.

– Com prémios e penalizações?
– Prémios sim, penalizações não.

– Confirma aquela obrigação de os jogadores trabalharem todo o dia no clube?
– Sim, mas isso é pelouro do Luís Filipe. Ele que explique.

"Renovação de Enke não está nas nossas mãos"

– O guarda-redes Enke renovará o contrato?
– Só ele sabe. Eu já ando desde o ano passado a tentar.

– A dificuldade em renovar contratos era um defeito apontado ao anterior presidente...
– Nunca o apontei de forma genérica. Apenas o fiz num caso, do Diogo Luís. Nem podia fazê-lo relativamente ao Poborsky porque seria injusto. Todos sabemos que nas condições actuais o jogador próximo da liberdade contratual não assina e tenta fazer sozinho um melhor negócio com outro clube. O Poborsky é que não estava interessado em renovar.

– E portanto a saída do Enke torna-se inevitável no fim da época?
– Não tenho perspectivas. Tentaremos renovar, mas a decisão não está nas nossas mãos.

"Ausência europeia dá-me grande tristeza"

– O que sente ao ver o Benfica pela primeira vez fora das competições europeias?
– Como benfiquista sinto uma grande tristeza. Como dirigente lamento a perda de receitas, não só de bilheteira como de televisão. Contra factos consumados nada se pode fazer, se não aceitá-los e trabalhar para que o futuro seja diferente.

– Sempre são menos jogos a cansar a equipa...
– Sim, talvez haja benefícios no campeonato, porque a equipa estará mais folgada. O que não quer dizer que seja determinante.

"Na expectativa pelo julgamento de Vale e Azevedo"

– Como acompanha o processo de Vale e Azevedo?
– Não acompanho de perto. Estou na expectativa, porque o Benfica é assistente e quer ser ressarcido dos enormes prejuízos que lhe foram causados.

– Nunca foi chamado a prestar declarações?
– Não, mas foi o Benfica que fez a denúncia, que se queixa – dos processos do Benfica. Ficava-nos mal perante quem nos elegeu se não o tivéssemos feito. Aliás, mal entrámos no clube, quer a Polícia Judiciária, quer a Inspecção Geral de Finanças estiveram cá a passar tudo a pente fino, não só o Benfica como os locais de trabalho e as residências do antigo presidente.

"Mantorras faz-me lembrar Jordão"

– Que opinião tem sobre Pedro Mantorras?
– Dizem que parece o Eusébio, mas a mim faz-me lembrar mais o Jordão. Um Jordão com mais poder de explosão, mais força e mais rápido.

– Quanto tempo pode ele ficar na Luz?
– Gostava que ficasse bastante, mas se continuar a jogar assim não tarda a ter de sair.

– Algum dia o Benfica pode ter condições para manter um jogador assim?
– Nos próximos anos, nem pensar! Só se os dirigentes fossem megalómanos. É preciso saber fazer bons negócios, adquirindo, valorizando e vendendo, de forma a que os credores não se possam queixar.

"Problema do Sporting com Simão não diz respeito ao Benfica"

– As relações com o Sporting estão a azedar por causa de Simão ?
– O Simão não era jogador do Sporting, era do Barcelona.

– O Sporting não tem direitos?
– É um problema que diz respeito ao Sporting e ao Barcelona, não ao Benfica.

– Pode dificultar a transferência, nomeadamente nos moldes de pagamento?
– Não adianto nada sobre isso porque nem sei se existe a tal cláusula ou se o Sporting tem direito a alguma coisa. Nunca fui informado de nada pelo Barcelona.

– O Sporting não vos alertou?
– Não sei se não mandaram para aqui um faxe, não tenho a certeza.

– O Simão é um jogador tão importante para o Benfica?
– Sobre questões técnicas não me pronuncio. Gosto de o ver jogar.

– Estão a pensar apresentá-lo hoje, domingo, na festa do Dia do Benfiquista?
– Bem, isso seria fantástico, provocaria uma apoteose, mas nada está previsto nesse sentido.

– De certo?
– Não...E de helicóptero ainda era melhor!

– Mostra grande vitalidade financeira...
– Os estatutos dizem que os dirigentes que gastarem o que o clube não tem, devem pagar do seu bolso. Ora, eu não quero gastar o meu dinheiro com o Benfica...

"Discurso de João Malheiro é útil, presidente do FC Porto é que decidiu dialogar com ele"

– Quem pode falar no Benfica?
– Em questões de Estado fala o presidente. Em questões particulares fala quem a Direcção e a administração entenderem que é mais adequado. Por exemplo neste diferendo com a SIC quem falará mais será o dr. Tinoco Faria. O João Malheiro tem a incumbência de todos os dias contar o dia do clube, para os jornalistas serem bem servidos.

– E também faz comentários...
– É uma forma de dar notícia sobre o que o Benfica pensa.

– Entrando em diálogo excitante com o presidente do FC Porto?
– Porque o presidente do FC Porto decidiu dialogar com ele, dando-lhe resposta.

– Revê-se nos comentários dele?
– Nunca foi mal criado. Usa aquela terminologia comum às guerras do futebol que eu confesso não gostar pessoalmente, mas reconheço a sua utilidade ao objectivo a que nos propusemos, desde que não sejam insultuosas, nem desrespeitadoras para as pessoas.

– Quem é que teve a ideia do porta-voz?
– A ideia foi minha, mas não conhecia o João Malheiro. Dados os seus antecedentes benfiquistas e a sua profunda ligação ao mundo do futebol, pareceu-me ser a pessoa indicada para o lugar. E não estou nada arrependido da escolha.
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