Daniel Ramos: «Terminamos as conversas com a frase 'sempre juntos'»

Treinador do Boavista falou à Liga Portugal sobre o momento de impasse na vida e no futebol

A habitual conversa da Liga Portugal com os protagonistas do futebol teve hoje Daniel Ramos, treinador do Boavista, como protagonista: 

Refletir e orientar a linha de pensamento durante a quarentena têm sido algumas das ocupações de Daniel Ramos, que coloca o bem-estar mental como uma condição básica e como um ponto de partida essencial para tudo o resto que queiramos fazer. No meio de tanta negatividade, o treinador do Boavista reforça a necessidade de tentarmos estar próximos, ainda que separados pelo isolamento social.

Daniel Ramos considera que a reflexão que fazemos enquanto seres humanos é uma das formas de chegarmos ao fim e pensarmos que a quarentena valeu a pena. "Refletirmos sobre aquilo que somos, o que fomos e aquilo que podemos vir a ser".

O treinador, natural de Vila do Conde, teve passagens pelo Famalicão, Marítimo, Chaves e Rio Ave, mas agora, e em plena missão de fazer regressar o "velho Boavistão", foi interrompido por uma pandemia. Ainda assim, Daniel Ramos quer ajudar os jogadores que comanda, motivando-os para serem melhores profissionais, mas sobretudo melhores seres humanos.
 
Como tem sido lidar com esta situação?
Com toda a sinceridade, não tem sido fácil. Falo por mim, a minha vida sempre foi um bocadinho livre, no sentido de ir de encontro àquilo que gosto e àquilo que são as minhas rotinas, aquilo que me preenche. O facto de me limitar a estar em casa, isso restringe toda a minha liberdade, a liberdade para fazermos tudo o que gostamos, nomeadamente ir para o treino, liderar, estar ativo. Parece que não estamos no nosso habitat natural. Apesar de estarmos em casa, em família, e a cumprir com as recomendações, isso obrigou a adaptarmo-nos à situação. Apesar de tudo, temos sempre de nos adaptar às realidades que vamos encontrando, nomeadamente no futebol, aos grupos de trabalho que temos, aos clubes e aos desafios que nos vão surgindo pela frente. Esta adaptação é diferente, daí alguma dificuldade, ainda que aliada a uma superação e a uma gestão da situação da melhor forma possível.
 
Qual a maior dificuldade que tem vindo a encontrar nesta fase?
A maior dificuldade é a falta de liberdade de movimentos. Isto quem cumpre a sério, e eu tenho vindo a cumprir, pois só salvo raras exceções é que saio de casa e tenho respeitado as diligências incutidas pelo nosso Governo. Tem-nos levado a estar muito por casa, e quando estamos muito tempo por casa, existem períodos de saturação, por muito envolvidos que estejamos nas nossas coisas, a saturação aparece e é extremamente importante que o lado mental seja bem gerido, bem como a gestão do nosso tempo. Às vezes, haver tanta proximidade e não haver aquela liberdade para cada um fazer aquilo que normalmente faz, traz dificuldade acrescida. Não sou só eu, são também as pessoas que me estão próximas que estão limitadas. Quando isto acontece, há que haver respeito e tolerância. Acaba por ser o grande desafio, o de "agradar a toda a gente" de uma forma muito específica.
 
O que tem procurado transmitir aos jogadores do Boavista?
Tranquilidade. Ainda hoje estivemos duas horas a conversar, toda a gente teve oportunidade de interagir, de falar, de se expressar, partilhar as experiências vividas por cada um de nós durante estes tempos… Hoje foi um bom dia para isso. Animámo-nos uns aos outros, rimos, e acho isso extremamente importante: a proximidade dentro da distância. E os meios tecnológicos permitem-nos isso. Desta forma, conseguimos criar um ambiente positivo em torno desta dificuldade que está a acontecer e tentamos ao máximo estar próximos, mesmo à distância. Terminamos as nossas conversas com a frase "sempre juntos". É um movimento de força que faz com a equipa sinta que, nas adversidades, estamos preparados para nos ajudarmos uns aos outros.
 
Algum jogador que o tenha surpreendido de forma particular?
Todos eles. Existe, por parte dos jogadores do Boavista FC, e também dos treinadores, uma sensação de que não estão sós. Estamos próximos, a viver um período diferente, cada um dentro da sua realidade. Mas uma das coisas que hoje foram faladas foi: se alguém tiver algum tipo de dificuldade durante estas semanas, e ainda para mais nestas que aí vêm e que serão de ainda maior saturação, estamos aqui todos para ajudar. Quero que partilhem isso com o grupo e que tenham a liberdade e a frontalidade para o fazer.
 
Como gostaria de ver o desfecho do campeonato?
Eu gostava que o campeonato terminasse. É o desejo, não só meu, mas de toda a equipa, que o campeonato termine. Respeitando todas as decisões que venham a ser tomadas, gostávamos de terminar o campeonato a jogar, se possível.
 
Coisas boas desta quarentena?
(risos) Fica difícil! Acho que temos de contar pelos dedos da mão e se calhar uma chega (risos). A verdade é que as coisas acabam por ser muito mais negativas do que positivas, face aos constrangimentos que todos encontramos. Todos perdem… A nível psicológico, financeiro, o desgaste que isto provoca, as incertezas, tudo isto traz muitas dúvidas…
 
Mas aproveitou para fazer alguma coisa que, por acaso, ainda não tinha tido oportunidade de fazer?
Era aí que queria chegar. O que é que fazemos mais nesta fase, porque temos mais tempo em casa? É, por exemplo, dedicarmo-nos um pouco mais à leitura, é isso que tem acontecido. Estarmos mais atentos às notícias a nível mundial, vermos mais televisão, mais filmes, séries, cada um ao seu jeito, e eu também o tenho feito. Este é um momento de reflexão. É o ponto positivo. Podemos refletir em relação àquilo que somos, àquilo que fomos e ao que podemos vir a ser. Essa reflexão tem sido o momento-chave para mim, pois tem estado dentro da minha lógica diária: "O que é que eu posso fazer?", "O que é que eu tenho de fazer?", "Como é que eu posso ser mais útil?", "Como é que eu posso ser melhor pai de família?", "Como é que eu posso ser melhor marido?", "Como é que eu posso ser melhor treinador?", "Como é que eu posso ser um melhor amigo?". Quero ser um melhor ser humano e quero continuar a crescer com aqueles que me podem ajudar a sê-lo.
 
Para quem se preocupa com essa parte, a de uma evolução a nível pessoal, a partir dessa reflexão de que o mister fala, o que é que aconselha especificamente a fazer?
Passa por estarmos mais ativos e olharmos para isto como uma forma de, no meio da adversidade, há sempre uma oportunidade. A oportunidade aqui é: "De que forma é que eu posso melhorar?". Para além de ler mais, encomendei vários livros online, e ainda hoje estive numa formação, em que equacionei a possibilidade de haver um trabalho a nível psicológico para a minha equipa. Se estivermos bem do ponto de vista mental, conseguimos estar bem do ponto de vista físico. O estar ativo, o estar capaz de melhorar os conhecimentos, proporcionar melhor qualidade àqueles que nos são próximos, acaba por ser também extremamente importante. Como temos este tempo, temos também a capacidade de ver, analisar e tomar decisões a esse nível. Tem sido uma das minhas preocupações e acho que é também uma das minhas melhorias enquanto treinador.
 
Que conselhos deixa para os adeptos não deixarem que a impaciência e a saudade do futebol assumam o controlo?
Fica difícil dizer algo.  É dizer-lhes que sejam pacientes para podermos novamente estar a fazer aquilo que gostam, que é aplaudir, estar junto das suas equipas, a viverem o jogo e a viverem a experiência do jogo. Isso está no ADN dos portugueses. Cada um à sua maneira, acompanharem aquilo que vai acontecendo, serem pacientes para regressarmos brevemente. Precisamos novamente do futebol, da emoção.

Por António Mendes
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