Rami e a salvação do Boavista: «Uma das maiores emoções da minha carreira»

Francês campeão do Mundo passa em revista a época de estreia em Portugal e deixa o futuro em aberto: "Tanto posso ficar como ir para outro lugar"

• Foto: José Gageiro/Movephoto
Adil Rami concedeu uma longa entrevista ao site francês ‘SoFoot’ onde o central do Boavista percorre todas as emoções da sua época de estreia em Portugal, vincando que viveu "uma das maiores emoções" da sua carreira quando chorou no final do jogo em Barcelos que garantiu a permanência dos axadrezados.

Isto dito por quem já foi campeão do Mundo pela França tem naturalmente um grande peso e Rami revela muito mais nesta franca conversa, mostrando-se grato ao Boavista por lhe ter devolvido a "paixão pelo futebol", mas deixando também o seu futuro em aberto, apesar de ter mais um ano de contrato com o clube do Bessa.

Eis a entrevista na íntegra:

- O Boavista conseguiu a permanência na 1ª Liga portuguesa na última jornada. Ficou muito emocionado com a vitória em Barcelos?
"Acho que essa foi uma das maiores emoções da minha carreira. Nunca senti este tipo de risco de descer de divisão e foi muita emoção, ao ponto de fazer chorar os adeptos também. Estava acostumado a ver gente sempre feliz e considerar-me um super-herói. Acontece que não estava pronto quando cheguei ao Boavista e avisei-os. Percebi o quão importante posso ser na equipa. Havia muitos jovens, 19 novos jogadores e quase todos na casa dos vinte anos. O Luís Campos e os jogadores respeitavam-me muito, mas ficava algo incomodado porque não tinha condições de jogar."

- Mas ainda fez 22 jogos, apesar de um início de época conturbado…
"Tive uma lesão que durou quase um ano. Fiz uma preparação física em Cannes para tentar ficar bem, mas perdi muita força muscular na coxa esquerda. Retomei a corrida assim que cheguei ao Boavista. Fiz dois treinos com a equipa, após dez meses de hiato, e sou chamado para jogar contra o Porto (26 de setembro de 2020, nota do editor), porque não tínhamos defesas. Joguei quando ainda não sabia o nome dos meus companheiros. No final, perdemos por 5-0, mas fiquei feliz como nunca antes. Não pela derrota, claro, mas porque fiz 90 minutos depois de pensar em desistir do futebol. Senti muita alegria pelo que consegui superar. Acho que poucas pessoas poderiam ter feito isso. Tive um problema no joelho na Rússia. De repente, entramos em confinamento, não tinha mais fisioterapeuta nem médico. Recebi ameaças lá. Tinha perdido muita massa muscular. Para ser bom, para me sentir bem, tenho que estar muito bem fisicamente. Existem jogadores que são muito técnicos. Eu não tenho muitas qualidades, mas sou fisicamente forte."

- É campeão de França, campeão Mundial, finalista do Europeu, vencedor da Liga Europa. O que vale a permanência do Boavista após isto tudo?
"É uma sensação incrível, ganhei títulos, joguei contra o Messi, o Ronaldo, o Neymar, os melhores jogadores do mundo. E você diz para si mesmo que talvez fique em baixo quando chega a um clube de segundo plano, mas isso é impensável para mim, sou muito competitivo. É por isso que comecei a chorar nesse último jogo. Disse a mim mesmo que o futebol era bom demais. Você tem que vivê-lo para entendê-lo."

- Não estamos acostumados a ver o Rami expressar esse tipo de emoção. Foi uma verdadeira libertação?
"Depois do jogo com o Porto, fiquei doente. Não tinha mais energia, era complicado. O treinador estava sempre a perguntar quando eu não estava pronto. Tive de quatro a seis lesões, entre setembro e dezembro. Saí de campo três ou quatro vezes. Estava a ficar muito em baixo, pois via os meus companheiros de equipa, jovens, que precisavam do irmão mais velho. Eu estava desamparado e isso deixou-me triste, mas nunca desisto e essa é a minha resposta às pessoas que me querem ver errar. Na sombra, trabalho muito, mas as pessoas não sabem disso."

- Então, o ponto de viragem de sua temporada foi em dezembro?
"O treinador começou a entender como eu estava a recuperar. Em janeiro, quando voltei a treinar, disse aos responsáveis da equipa que ia continuar a treinar todas as tardes: força muscular, prevenção, tudo! E paguei do meu bolso, porque eles eram tão simpáticos e saudáveis, que tive que fazer isso. Depois, eles começam a dar-me a braçadeira de capitão. Até o dia em que tivemos um reencontro e Chidozie Awaziem, o jovem que tinha a braçadeira até então, estava um pouco de costas para a parede. Ele disse que precisava dar-me a braçadeira de capitão por respeito. E então eu disse a todos: ‘Não tememos mais nada. Conheço as minhas energias, conheço a minha mentalidade’. Recebo ainda um SMS do Luís Campos a dizer-me: ‘Adil, não quero ver este clube afundar.’

- Por isso é que agradeceu publicamente a Luís Campos após garantir a permanência?
"Todo o mundo conhece o Luís, mas as pessoas não sabem o quão simples ele é. Poucos dias depois deste jogo com o Porto (0-5), chama-me e diz-me: ‘Estou orgulhoso de ti, o que fizeste é desumano. Eu só queria agradecer do fundo do meu coração.’ Foi aí que senti as pessoas incríveis que estavam em meu redor e nunca me poderia separar disso. Pedi desculpas porque tinha sido um desastre e não poderia dar mais. Tinha feito de tudo para voltar ao alto nível, mas precisava de tempo."

- Queria retirar essa das pessoas do Boavista ficarem a com a ideia de que tinha ido para o clube como turista?
"Sim, retirar essa imagem da noite, de quem só dá festas… Esse não sou eu. Tivemos uma reunião em dezembro. Disse que havia um problema, que não estávamos em sintonia com a equipa médica. Sugeri que me dessem um mês com o meu preparador-físico, para não jogar mais durante esse tempo. Ia treinar de manhã, mas todos os dias os dias fazia um segundo treino com meu preparador e depois comecei a fazer jogos em cadeia e acabou. Saímos da zona de rebaixamento e voltamos para ela, saímos. Mas quanto mais jogava, mais forte e sereno me sentia. E cheguei a um ponto em que senti que a equipe não poderia viver sem mim. Nem o clube nem os adeptos, embora me dissessem que eu não ligava, que estava de férias, que estava lá só para ganhar dinheiro. Fiquei um pouco incomodado com os comentários dos adeptos. Há limites para tudo, foi uma maldade ... Mas a partir de janeiro, senti as coisas a virar. Então sim, houve jogadores que fizeram a diferença, que marcaram golos bonitos, como o pequeno Angel Gomes, mas eu senti que era a base da equipa e da recuperação. Redobrei, ou tripliquei o meu esforço quando senti que era o líder indiscutível. E se eu saísse e ficasse lesionado nem que fosse uma semana, pensava 'Estás morto, todos eles vão cair’. Mesmo na comunicação, quando falei com eles, tentei tranquilizá-los. No jogo da segunda volta contra o Porto, estávamos a ganhar 2-0 e voltei sofrer uma lesão. Disse a mim mesmo que não iria correr nenhum risco. Tínhamos mais 20 minutos pela frente, ainda estávamos na liderança do jogo e pensei que eles iriam conseguir, mas quando saí senti toda a equipe em pânico. O jogo acabou 2-2!

- Como líder, sentiu muita pressão?
"Sim, senti essa pressão. Sentia a minha responsabilidade. O Boavista tem história em Portugal, não é um clube pequeno. Situa-se atrás de Sporting, Porto e Benfica, mas à frente de Braga e Guimarães. É um grande clube, um grande estádio, com adeptos muito fanáticos. Então, no final da última vitória, pensei em todas os jovens com quem joguei, como poderia tê-los derrubado o facto de iniciarem as suas carreiras numa equipa a descer de divisão. Tudo isso deixou-me triste e forte ao mesmo tempo. Senti que aquela equipa era como uma família, os meus irmãos mais novos. Depois vamos para casa, para o Bessa e não sei quantos milhares de adeptos estão à nossa espera. De repente, berram o meu nome e chama-me de capitão, foi maravilhoso."

- Depois do dérbi contra o FC Porto, em fevereiro, a imprensa descreveu-o como "a voz de comando em meio a tanta juventude". Como se sentiu com esse elogio?
"Sei que as pessoas não gostam de se verem expressas com essa franqueza. Mas, nessa altura, sentia-me no top 3, mesmo no top 5, ao lado dos melhores defesa-centrais de Portugal. Não havia nenhum atacante que me pudesse assustar, embora eu estivesse a 85 por cento da minha forma."

- Tenciona estabelecer-se no Boavista a longo prazo?
"Se ficar, eles terão 100 por cento Rami e será uma nova aventura. A temporada acabou bem, o público respeita-me e respeita o clube e os meus companheiros. Tanto posso ficar como ir para outro lugar, mas não posso de agradecer ao Luís Campos, ao presidente Gérard Lopez e ao Boavista. Eles fizeram-me voltar a viver a paixão do futebol."
Por António Mendes
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