Vítor Murta reeleito presidente do Boavista: «O meu trabalho ainda não está terminado»

Líder axadrezado foi hoje reconduzido para mais um mandato de três anos

Vítor Murta foi reeleito, esta sexta-feira, presidente do Boavista, partindo para um novo mandato na liderança do emblema do Bessa. Em declarações aos jornalistas, o dirigente assume as dificuldades financeiras dos axadrezados como um dos argumentos para não ter tido concorrência no ato eleitoral, mas também deu ênfase à importância da sua continuidade em função da relação de estreita confiança com o investidor Gérard Lopez, que considera crucial para a sustentabilidade do clube. Abordou ainda os projetos que pretende desenvolver no futuro, entre os quais um novo pavilhão.

Pergunta: Quais foram os motivos que o levaram a avançar com este mandato?

Vítor Murta: "Estamos a viver um momento muito complexo e o meu trabalho ainda não está terminado. A vida é feita de ciclos e o meu no Boavista ainda não acabou. Começámos um projeto há três anos, mas esse trajeto ainda não está concluído. Seja porque este período de tempo não o permitiu ou porque vivemos uma época difícil por força dos efeitos da pandemia. É um contexto de enorme prejuízo, mas onde, para além do meu vínculo emocional ao Boavista, considero que é importante, neste momento em que o Boavista vendeu as suas participações sociais da SAD a Gérard Lopez, que o presidente do clube seja o mesmo da SAD. Até porque é necessário afinar agulhas e projetar um futuro de estabilidade. Foi isso também que me levou a assumir mais três anos de mandato. Um dia irei terminar este percurso e alguém me sucederá, mas espero olhar para trás e sentir que minha missão está concluída e acho que ainda não está."

P: Quais são os projetos que espera desenvolver neste novo mandato?

VM: "Temos vindo a encadear uma série de trabalhos. Construímos o relvado de apoio onde o plantel profissional agora trabalha, criámos a casa do sócio, fizemos obras no lar da formação, bem como novos balneários para os jovens e um restaurante para os atletas poderem fazer as suas refeições. Resumidamente, temos vindo a criar bases para mais anos de sucesso sustentado e é isso que pretendo continuar a fazer. Temos projetado o campo sintético para a formação, onde já começámos os trabalhos e penso que os trabalhos ficarão concluídos nos próximos tempos, além de que não há presidente de nenhuma instituição desta dimensão que não sonhe um dia ter um bom pavilhão, como o Boavista já teve. Agora não temos, mas é um sonho. Não me parece que o consiga em breve, mas gostaria de terminar o meu ciclo nesta casa com pelo menos a primeira pedra lançada porque é importante manter a concentração dos sócios em volta do nosso estádio e dar condições para fazer a massa crítica crescer."

P: Já há um espaço definido para o futuro pavilhão?

VM: "O espaço para o pavilhão será junto ao relvado de apoio do Estádio do Bessa. É um espaço que estamos a negociar para ser devolvido ao Boavista. Não é uma coisa para o próximo ano, mas que queremos concretizar porque, ao contrário do que aconteceu no passado, não podemos voltar a dar um passo maior do que a perna, até porque ainda estamos a pagar essa fatura. É óbvio que os adeptos têm sempre tendência para olhar para o resultado do final de semana, mas também é importante perceber que o Boavista é muito mais do que isso.

Quando cá cheguei o Boavista tinha uma dívida de 55 milhões de euros à Somague e um pedido de insolvência. Dívida essa que conseguimos renegociar para 19 milhões de euros, sendo que já abatemos aproximadamente um milhão de euros durante o meu mandato. Temos os salários dos nossos funcionários todos em dia e uma série obrigações que estamos a cumprir, porque a credibilidade é um pressuposto obrigatório para quem quer ter sucesso. Não posso esconder que continuamos a ter tremendas dificuldades e, se não tivéssemos o Gérard Lopez como investidor da SAD, seria muito difícil o Boavista ter a porta aberta. Estamos a pagar não um, mas dois orçamentos por força de um passado em que as decisões não foram as mais acertadas, na certeza de que não vale a pena estar a chorar sobre o leite derramado.

Resta-nos encontrar soluções. É isso que pretendo continuar a fazer porque acho que o Boavista ainda não encontrou todas as soluções que lhe permitam ter mais 100 anos de existência. Considero essencial consolidar esta relação com o Gérard Lopez porque não há receitas para sermos auto sustentáveis, pelo que a entrada do investidor foi a solução para esse problema."

P: Considera-se como uma garantia de estabilidade entre o Boavista e o investidor?

VM: "Entendo que existe uma relação de muita proximidade entre mim e o investidor, como até o próprio Gérard Lopez já teve a oportunidade de o esclarecer. Tanto mais que o investidor teve o cuidado de ajudar o Boavista ainda antes de ser accionista da SAD durante um período onde as garantias em como o Boavista iria cumprir com as obrigações era de minutas. Não tenho dúvidas que o Gérard Lopez gosta do Boavista e quer que o Boavista seja um clube grande, mas para isso é preciso que o clube também tenha pessoas da sua confiança. Não sou peça única ou rara, nem estou a dizer que o investidor deixaria de estar preocupado com o Boavista sem o Vítor Murta, porque certamente muitas outras pessoas tomariam conta do clube com a perspectiva de encontrar o caminho certo. Agora é muito mais fácil haver uma conjugação de ideias estando o Vítor Murta na liderança do Boavista.

É nesse sentido que considero importante haver continuidade agora que a OPA vai avançar e, acima de tudo, tranquilidade, porque nada se faz sem tranquilidade ou sem união. As pessoas não têm de gostar de mim como pessoa ou como presidente, mas têm de gostar do Boavista. Se isso acontecer e a demonstração de união permanecer vamos ter muito sucesso pela frente."

P: Que leitura lhe merece o facto de ter sido o único candidato a este sufrágio? Encara o contexto como um voto de confiança ou um sinal dos tempos complicados?

VM: "É um pouco das duas coisas. Quando me candidatei à presidência no mandato anterior não sei se foi um ato de coragem ou um ato de loucura, porque quando avancei não havia Gérard Lopez nem nenhuma luz ao fundo do túnel, mas havia uma quantidade de dívidas brutal, como ainda agora existem, porque os passivos do Boavista e da SAD são enormes. Acho que o amor ao Boavista falou mais alto. Senti que, se não tivesse pegado no Boavista naquele momento, porque já conhecia alguns dos problemas, dificilmente alguém pegaria ou conseguiria resolver os problemas.

Fiz parte da direção antes de me candidatar e não concordei com todas as decisões, mas achei que a minha continuidade era importante para ajudar o Boavista a resolver os seus problema. Neste momento é difícil alguém de fora ver a quantidade de problemas que ainda temos e ache que pode contribuir de uma forma positiva através de uma candidatura. Ao contrário do que se possa pensar gostaria que houvessem muitos candidatos e que houvesse um que dissesse que tinha a solução para o Boavista e que conseguisse concretizar essa afirmação porque também é agradável estar a ver os jogos na bancada e dizer o que achamos dos árbitros sem apanhar os 45 dias de suspensão que me foram aplicados.

Neste momento, acho que quem está no exterior pode ter receio de pegar neste barco com medo de o levar ao fundo, como também acho que há outra facção que entende que isto estará bem entregue e que, apesar das críticas, que são legítimas, também entendem que temos conseguido manter este barco à tona da água. É muito difícil conseguir cumprir com todas as nossas obrigações e estaria preocupado se o Gérard Lopez tivesse despejado um saco de dinheiro e dissesse para gastarmos onde quiséssemos. Porque não é isso que acontece e não acontece porque quem investe quer ganhar dinheiro. O Gerard Lópes está aqui para ganhar dinheiro e isso dá-me satisfação porque diz-me que é um projecto a longo prazo.

Acho que conseguiremos levar o Boavista a bom porto e também é por isso que não terão aparecido outros candidatos. É muito fácil estar de fora e dizer que deveriam ter contratado o jogador a, b ou c, mas é muito difícil dizerem-nos como é que vamos pagar os 14 mil euros por mês da conta da água, pelo que considero que as pessoas também depositam alguma confiança em mim."

P: É muito difícil reforçar o plantel em janeiro ou há soluções para arranjar novos jogadores?

VM: "A situação difícil é transversal a todos os clubes. Para o Boavista não é difícil por ser janeiro ou porque está mais frio, porque já foi muito difícil em agosto e em dezembro e continuará a ser muito difícil nos próximos anos. Em bom rigor da verdade tenho plena confiança em todos os jogadores do nosso plantel profissional e no sucesso que vamos alcançar com este grupo. O resto será para discutir com o Petit e os restantes membros da administração da SAD."
Por Pedro Malacó
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