As contratações, o futuro de Jesus e o impacto da Covid-19 no Benfica: tudo o que foi dito por Luís Filipe Vieira

Presidente do Benfica falou à BTV em dia de aniversário do clube

- Está dada por encerrada a entrevista de Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, à BTV. Poderá ler na íntegra (abaixo) todos os tópicos abordados pelo líder benfiquista no dia em que o clube da Luz celebra 117 anos de existência. 

Mensagem aos adeptos: 
"Sou o mesmo, não mudei nada. Tenho o cabelo branco, o bigode mais branco, algumas rugas, mas a cabeça é a mesma, a ambição é a mesma. Sou ambicioso, mas responsável. Não quero dizer que ganhei e depois deixar o Benfica hipotecado. As minhas decisões não são tomadas por adeptos. O meu percurso nos próximos quatro anos vai ser idêntico. A ambição é ganhar, mas sempre com responsabilidade. Peço aqueles que estejam descontentes. A principal pessoa que está descontente é aquela que vos acabou de dizer que é a culpada. Aquele que está mais descontente sou eu. Todos os dias trabalho para o Benfica maior. Dizem que estou agarrado ao lugar. Não levava a mal que as pessoas não votassem em mim. Eu iria descansar, sem problema nenhum, mas não foi o caso. Em três [adeptos], dois votaram em mim. Não vou trair a vossa confiança. Vão ter orgulho em terem votado em mim. Fazemos 117 anos de história. Como sou o presidente do centenário, também serei o presidente dos 120 anos. Vamos ser responsáveis como sempre. Com muita ambição, sempre."

Justificação para a ausência nos jogos: "O Benfica está num estado de alma que é confuso. Há pessoas mesmo pulhas. Todos sabem que estive com covid. O médico disse-me: ‘Neste momento, onde houver frio ou humidade, se tens o azar de apanhar uma pneumonia, vais ter sérios problemas’. Se quiserem aprofundem com o médico do Benfica ou com o do hospital. Todos os dias, das 7h até às às 19h, estou lá sempre. Todos os dias me vêem. É onde eu vou fazer parte da preparação física. A subir escadas canso-me muito. Nos pulmões estou um pouco debilitado. Quando vier o sol já me vão ver. Pensavam que andava escondido, era? Quem dá sempre a cara no Benfica? É raro eu aparecer nos momentos bons. Nos maus, quem aparece? Não sou eu? Hoje era um dia muito especial para mim. Se tivesse de ser três ou quatro horas, eu estava aqui. Não fujo de ninguém. Tenho a consciência tranquila."

Promessa para com a Comunidade Lusófona mantém-se: "Aquilo que eu prometi mantém-se de pé. Quando o Benfica for campeão vamos festejar a Cabo Verde pelo fervor benfiquista, pelo trabalho que fazem, pela forma como se vibra com o Benfica. É dos países que mais me marca em benfiquismo. Não posso esquecer a forma como fui recebido. Sinto-me como em casa. A equipa técnica sofre como os jogadores. Na eliminatória com o Arsenal tenho a certeza que o nosso treinador não dormiu. O Benfica é o clube da lusofonia. Ainda há pouco tempo havia uma conversa com meia dúzia de jogadores. Disse ‘nem vos passa pela cabeça o que os benfiquistas sofrem’. De certeza que o Benfica tem esse sentimento quando acaba um jogo que há muita gente a sofrer. Não podemos alterar mais nada. D ecerteza que ainda temos muito para conquistar e muitas alegrias para dar. Já sofremos muitos desgostos e dpeois soubemos reactivar o caminho das vitórias e dos títulos."

Projeto 2.0 das Casas: "Temos um projeto inovador, com diversas polivalências, desde restaurante a formação, partes pedagógica e desportiva."

Casas do Benfica:
"Antes de chegar, diziam que casas do Benfica eram centros de encontro para o dominó e para beber uns copos. Percorri o país de lés a lés a dinamizar as casas do Benfica. Uniformizamos as casas, temos cerca de 70 e poucas casas em ligação com o estádio. Temos encontrado alternativas de vos ajudar com receitas, nomeadamente na bilhética. Têm a parte da NOS e da MEO. Temos feito o que é possível. Dentro de qualquer casa só se vê benfiquismo. Não se vê uma parede amarela ou cor-de-rosa. Isto é um projeto de paixão. Já não gerem as casas de antigamente."

Falta de apoios do Estado:
"É de estranhar que o governo não pense no futebol. Esta indústria é a que deve dar mais visibilidade para Portugal. É de estranhar que o overno não pense no desporto. São todos os clubes que andam a sustentar o desporto. Era uma obrigação do estado, mas não está a ser. Não é só o Benfica, é o Sporting, o FC Porto, todos. É impensável que não pensem no desporto. Se o Presidente da República e o primeiro-ministro e o secretário de desporto só existem para as finais europeias ou quando a selecção foi campeã europeia, com os jogadores dos clubes, toda a gente foi. Agora, numa crise destas, não há ninguém que se lembre. Onde está o Presidente da Liga junto do Governo? É uma vergonha que o futebol nãos eja contemplado. O futebol é um dos principais pagadores de impostos do país. Isso era no passado. Somos dos principais pagadores de impostos do país. Se não nos respeitarem, temos de nos juntar e de nos defender. Se não houver futebol, não há. Não podem é brincar connosco. É uma falta de respeito para esta indústria. Isto não são brinquedos. São empresas auditadas que cumprem. O que querem de nós? Devíamos ser ressarcidos e bem ressarcidos. Estamos a apagar a fatura da pandemia. Não seria justo. É Mais do que justo para aquilo que representamos em Portugal. Vamos lá ver se aparece dinheiro ou não. Sabemos tomar atitudes e firmes."

Passivo do Benfica: "O passivo subiu, mas o ativo subiu para cerca de 600 milhões de euros. Não sei por que as pessoas se preocupam com o passivo do Benfica. Estão aqui muitos milhões de euros encobertos. Se tivéssemos um ativo inferior ao passivo é que era mau. É ponto de honra nosso. Tudo o que celebramos é cumprir. Ninguém nos pode apontar nada. O Benfica nunca entrou em incumprimento. Eu sei como comprei estes jogadores. Só foi possível pela credibilidade que o Benfica tem no mundo do futebol. Quando entrei, no início, precisava de uma garantia bancária. Eu sei como compro os jogadores. O Benfica é respeitado em todo o Mundo. Neste mês de março, vamos começar a fazer contas. O Lyon é um clube muito parecido com o nosso. 50 milhões de euros de prejuízo. A Juventus tem 113 M negativos. Nenhum clube vai apresentar resultados positivos Quem apresentar é porque teve vendas no ano passado, mas cai no ano seguinte. Enquanto não houver receitas, o que vamos fazer?"

Antecipação de receitas: "A única antecipação de receitas foi a que prometi que foi usar parte do dinheiro do contrato da NOS para liquidar a dívida do Benfica. Tenho cumprido escrupulosamente. O Benfica tinha pago tudo ao sistema financeiro. Quando tínhamos uma divida de 380 milhões, o Benfica foi o único clube português a pagar. Tem o empréstimo obrigacionista e vai cumpri-lo. Antrecipamos receitas para pagar a dívida ao BES, que salvo erro, era de 110 milhões de euros. Recuperámos o estádio para nosso nome e liquidamos o projeto Finance. Prefiro que o Benfica seja penalizado mas o estádio fica em nosso nome. Não está nada hipotecado. Aquilo que antecipamos é do contrato da NOS. Quando vendemos um jogador, vendemos, por exemplo em dezembro, já está contabilizado. Se eu quiser transformar aquilo em dinheiro, transformo. Mas isso não é antecipar receitas, é uma questão de tesouraria. Não tenho antecipação de receitas sem ser a situação do estádio. Se houver mais um ano de pandemia, não sabemos. No dia em que normalizar, é o nosso clube que vai recuperar mais depressa."

Sacrifícios feitos em prol do Benfica e ameaças recebidas:
"Tenho 20 anos de muito sacrifício. A minha failia tem sofrido. Não vão brincar mais. Se continuarem, vou denunciar muita gente. Aqui ninguém assalta. Em cada três benfiquistas, dois votaram em mim. Agora chegam ao luxo de dizer "morre", "família morre". A mim já não me amedrontam. Já me chegou assaltarem a casa duas vezes. Aquilo que faço é o caminho certo. Aquele que vier a seguir a mim tem de pensar sempre nisto. Nunca mais a família vai ter descanso, vai passar por ladrão ou homem das comissões. Não merecemos a atitude que alguns benfiquistas estão a ter. Ou o Benfica está unido ou não vai a lado nenhum. Nunca ataquei nenhum presidente do Benfica nem ninguém. Não vim para falar mal dos outros. Tenho feito esse trabalho. Ouvir pessoas. Não tenho o Jorge Brito a dar-me dinheiro. Tenho de inventar o dinheiro. Cumprimos com toda a gente. Quatro meses depois de ganhar estas eleições, será possível este caos todo?"

Recuperação da história do Benfica:
"As pessoas têm de viver o Benfica a sério. Não tínhamos nada. Se calhar pegavam nos 11 milhoes e compravam 1 ou 2 jogadores. A história do Benfica hoje existe. Desde o tempo do Sport Lisboa, os jornais estão todos digitalizados. A única pessoa que dignificou o nome do Eusébio fui eu. A única pessoa que tem o cuidado e que se preocupa com os ex-jogadores do Benfica sou eu e nunca faço publicidade. O que é isso? Faz dez anos precisamente que com a autorização da família do cosme Damião mexi no jazigo, que estava destruído. A mística não é o campo de futebol, a mística é mais profunda, é a história. Se calhar voltamos às nossas origens, sou bairrista. O Benfica foi formado com um homem de pé descalço e eu tenho uma grande sensibilidade. Tenho sido vítima de uma falta de respeito, uma pulhice. Eu sou uma rocha. Houve uma pessoa responsável a dizer que o Benfica não tinha estrutura. Nunca andei com uma lanterna à procura de um jogador do Benfica. Nenhum jogador saiu do centro de estágio. Dormiram lá sempre. Há coisas que têm dito que me revoltam. Esses não são bem-vindos ao Benfica. É preciso ser profissional, é preciso ser líder. O segredo do Benfica tem sido assim. Ainda hoje somos o clube em Portugal que conquistou mais títulos nos últimos tempos, somos apontados como exemplo lá fora, porque não somos aqui? Tentam denegrir-nos. Vi um programa de duas horas e meia a esfarrapar o Jorge Jesus, a partir o Jorge Jesus. Quando estava no Brasil, bajulavam-no."

História do Benfica:
"Só todos juntos é que conseguimos lá chegar. O Benfica, enquanto não esteve estabilidade, para fazer um bi demorou 31 anos, demorou um tri 39 anos e fez um tetra que nunca tinha feito. Se fosse meu, o Benfica seguia o caminho do Seixal. Não abdicava disso. É o caminho certo. Também sabes que é muito difícil presidir um clube como este. É difícil quando o Benfica perde. Não tomo decisões como adepto, tomo como presidente. Definimos um pouco de juventude com experiência. Foi o que pensamos e foi assim que foi aprovado. Sei ouvir e tomar as decisões enquadradas no espírito de todos nós. O Seixal é a minha menina dos olhos de ouro. É ali que está o futuro do Benfica e é ali que devemos investir. Há jovens na primeira equipa do Benfica com 15, 12, 11 anos de Benfica. Conhecem a história. É tudo mais fácil, se calhar correm mais do que os outros. Custa muito ouvir palavras de pessoas que já passaram por cá e com alguma responsabilidade dizer que o Benfica não tem mística. Em 2013 investi num museu cerca de 11 milhões de euros. Só investi isso porque a história do Benfica não existia. Andou por baixo de bancadas arruinadas, taças que desapareceram, taças leiloadas, outras foram roubadas e nunca mais apareceram. Peço por favor a quem tenha essas taças. Entreguem dentro de uma caixa na porta 18. Na minha presidência é que se está a recuperar todo o património histórico. Quem tiver filhos, netos, pode ir visitar a casa e está lá toda a história do Benfica. Já recuperámos 30 taças e galhardetes do Benfica. Lembro-me perfeitamente como foi encontrar o primeiro livro de quotas do Benfica. Está destruído."

Resposta à pergunta de Toni, sobre a aposta na formação do Benfica: "Não há uma política de ziguezague. Se alguém quer apostar na formação, está aqui à frente. Sou eu. Quando apostamos seriamente na formação, diziam que não podíamos ser campeões com miúdos, que o Vieira queria era vender por causa das comissões. Tivemos um treinador para fortalecer e consolidar uma politica destas, os benfiquistas sabem o que se passou e o que fizeram ao treinador. Este ano, por causa dessa contestação, tenho de ter a sensibilidade daquilo que os sócios querem. Fizemos uma mescla de experiência. Não houve contratações por avulso. Foi o nosso departamento de scouting que visionou estes jogadores, têm os relatórios, o Jorge Jesus viu os jogadores e aceitou. O Jorge, o Rui, o Tiago Pinto e eu. Foi desta maneira que nós fizemos a equipa. Contrariamente ao que mutios possam pensar, houve muita gente a dizer que íamos passear no campeonato. São todos jogadores internacionais excepto o Gilberto. O único presidente, penso eu, na história do Benfica que pensou seriamente na formação fui eu. Quero investir no centro de formação. Por isso vai haver uma reunião a 1 de março para haver uma permuta do terreno que pretendemos para termos mais 6 campos de futebol e uma unidade hoteleira. Tudo que assenta em base no projeto do Benfica permitiu ter robustez financeira e ser dos clubes da europa mais rentáveis. A rentabilidade é para o Benfica. Continuo a manter esse sonho de ser campeão com uma equipa da formação. A pandemia vai atrasar. Ter um clube em que seja possível ser financeiramente estável e futebolisticamente. Desportivamente ganhador. Os sócios do Benfica têm de assumir. Vamos seguir esse caminho. O Rui Vitória fez o trabalho que fez, lançou jogadores, tal como o Bruno Lage e vêm dizer que so com miúdos não vamos lá. Aqueles que falam da formação são os mesmos que diziam que não vao la com miúdos e que diziam que eu é que fazia a equipa. Vamos ver para o ano o que vai suceder."

Responsabilidade pelos resultados:
"O Jorge disse que era o responsável. Disse é que não podia ser responsável pelo que sucedeu. Se não tinha os jogadores para treinar, foi o que ele disse, não fugiu a nada até hoje. Eu não preciso de o estar a defender. Ele já deu mais do que provas do que é a sua qualidade como treinador. É ganhador, é um extraordinário profissional. Chega cedo, sai tarde. A derrota com o Arsenal está atravessada. Ele nessa noite não dormiu. Aquilo marcou-o tanto, da maneira como foi. Estávamos super convencidos, todos nós e os jogadores, que íamos ultrapassar o Arsenal. Infelizmente não conseguimos. Tivemos um lance decisivo para nós, o Darwin. Se faz o 3-1, acabava o jogo e pronto. Ficou atravessado. Temos de acreditar no que temos em casa porque são pessoas que já deram provas mais do que suficientes do que conseguem fazer."

Períodos de adaptação dos jogadores:
"Se apontarmos aqui os jogadores, há aqui alguns jogadores que precisam de adaptação. Houve se calhar um fator que não ponderámos, que foi um erro: a adaptação dos jogadores. Temos experiência o que é um jogador adaptar-se ou não, o que é certo é que não é pela falta de qualidade deles. São todos internacionais. É preciso tempo. O treinador é que escolhe. Temos um departamento de scouting altamente profissional. O treinador está cá, está lá o Rui Costa, que é hoje o responsável máximo. Está a acumular o cargo de administrador com o de diretor-geral. E depois estou eu. Existe diálogo entre todos. Em relação ao Rui Costa, ele tem feito um trabalho extraordinário, de dedicação ao Benfica, de benfiquismo. Ao contrário do que dizem, ele nem está renumerado. Está a trabalhar grátis, agora é dirigente do Benfica. Nós não podemos ser renumerados. Ele tem feito um trabalho fantástico. Quando as pessoas dizem que não há mística, está lá o Rui Costa e o Luisão. Ele até me está a surpreender. Aquilo que ele fazia e o que está a fazer, tem feito um trabalho extraordinário. A sintonia é de tal ordem que faríamos exatamente o mesmo. Talvez devêssemos ter sido mais teimosos no meio-campo. Agora, até veio finalmente o Lucas Veríssimo, que o Jorge Jesus queria. Não o conseguimos trazer na altura, que era quando o queríamos trazer, mas veio em Janeiro. É outro jogar que todos conhecem, o que se fala do Lucas, um jogador de craveira reconhecida."

Contratações:
"Foi um plano que foi possível fazer-se com as exigências do Jorge Jesus daquilo que ele entendia. Ele teve uma voz ativa. Qualquer contratação foi decidida por mim, pelo Jorge Jesus, pelo Rui Costa e pelo o Tiago Pinto. Há total sintonia, completa. Nós estamos agarrados uns aos outros. Estou lá todos os dias, de manhã até à noite. Agora até tenho dormido lá nos últimos tempos. Há um compromisso entre todos nós. Não há um benfiquista que não criasse expectativas com o plantel que temos. Há muita gente que dizia que o Benfica ia passear neste campeonato. Sabemos do plantel que temos, dos jogadores que temos. Normalmente desvalorizamos sempre. Um exemplo: o Matic. Quando ele veio para o Benfica, diziam que só tinha pernas grandes. O que é que foi depois o Matic? O Salvio quando veio para o Benfica, diziam que não vale nada, que só metia a cabeça no chão e corria. Depois vimos quem era o Salvio. O Enzo Pérez chegou, foi emprestado. Quando regressou, passou a jogar a 8 graças ao Jorge Jesus. Toda a gente hoje tem saudades do Enzo. O Di María, lembrou-me de dizerem: ‘porque é que foram comprar este trinca-espinhas?’. Que era um habilidoso, mas mais nada, não ia ser ninguém no futebol. Viram o que foi o Di María. O David Luíz, quando o Fernando Santos o lançou, teve azar em dois golos, o que disseram dele."

Planeamento da época:
"Hoje fazíamos igual. Quando contratámos Jorge Jesus, eu, o Rui Costa e o Tiago Pinto tínhamos sempre uma equipa sombra no Benfica. Graças a um departamento altamente profissionalizado do scouting do Benfica. Quando o Jorge veio, entregou-me um documento com os jogadores que pretendia e não houve um jogador que o Jorge não dissesse que sim. Ele queria o Cabrera, entendemos que não o devíamos contratar porque pediam-nos 15 milhões de euros e o Espanyol devia-nos 15 milhões de euros e queria fazer contas. Outro defesa central, o Kosch, ele também queria. O Rui Costa foi com o Tiago Pinto à Alemanha para contratá-lo a ele e o Waldschmidt, mas esse não havia hipótese porque já tinha compromisso com outro clube. O Everton, o Jorge Jesus fez uma pressão fantástica e disse: ‘Oh Luís, precisamos deste jogador. Este não pode falhar’. Fomos comprá-lo. Toda a gente conhece o Everton, jogador fantástico, internacional brasileiro. O Darwin também foi pedido do Jorge exclusivamente. Lá foi o Rui Costa para Almería para o contratar. Curiosamente estava também identificado pelo scouting do Benfica. O Otamendi veio porque o Rúben Dias tinha saído, o Vertonghen foi também contratado com o consentimento dele [Jesus]. Não era bem o que ele queria, mas nós também não podíamos comprar o Cabrera. Então entendemos que era um jogador experiente e o Jorge disse para irmos por aí, que não havia problema nenhum. Quis o Gilberto, contratámos o Gilberto. O Pedrinho era um jogador que não foi contratado quando o Jorge estava cá. Ele até disse que se fosse ele a escolher, escolhia outro. Mas quando ele já estava a treinar aqui, chegou ao pé de mim e disse: ‘Luís, enganei-me. O Pedrinho é um craque. Tenho é de o preparar bem, mas é um craque. Tem um pé esquerdo diabólico’."

Estabilidade financeira do Benfica:
"É revoltante o que fazem às pessoas, ao treinador, ao presidente. É revoltante a pressão que fazem. Este clube não pode ser vivido assim. Este clube vive de vitórias, mas há alturas em que não podemos ganhar. Não ganhámos, não ganhámos. Temos de estar unidos na derrota e na vitória, se não, levam-nos ao passado. Estabilizar um clube destes… Tenho muito orgulho em dizer isto: em Março do ano passado éramos dos clubes mais rentáveis da Europa e éramos dos clubes com maior robustez financeira. Tudo graças à formação do Benfica. Mas depois vínhamos com aquela falácia: ‘o Vieira quer é vender’. Não há nenhum clube em Portugal que não tenha de vender. Só é possível um clube ter um trajeto vitorioso se tiver equilibrado financeiramente. No dia em que o Benfica deixar de se equilibrar financeiramente em prol dos resultados desportivos, vai tudo por aí abaixo. Começam a haver hipotecas, tudo. Mas comigo não vai ser assim. Comigo o pensamento é que foi assim que trouxe o Benfica até aqui e é assim que vai continuar."

Continuidade de Jorge Jesus: "Jesus vai continuar. Por que tem de sair? Não é compoetente? Toda a gente dizia que o Jesus tinha de vir para o Benfica, que foi quem deu o melhor futebol ao Benfica. Até as outras listas apoiavam. Toda a gente apoiava o Jorge Jesus. Tem provas dadas neste clube, tem 12 titulos. Quando defendo Jorge Jesus, ele não precisa. Ele tem 12 títulos. É o treinador que mais títulos conquistou. Por aquilo que se passou, as pessoas não entendem. Há uma realidade que as pessoas não estão a entender. Passou-se dentro daquela casa. Estou lá todos os dias. Se porventura não houver a imunidade de grupo no próximo ano, o Benfica nunca mais se equipa em balneário nenhum. Sai do hotel equipado, vai para o estádio, entra em campo e acaba o jogo. Palestra ao intervalo dentro de campo. Sai direto para o autocarro, depois para o hotel e jantamos lá. Nunca mais. É impensável para mim ver 27 pessoas infetadas em 8 ou 9 dias. Pedi ao presidente do Nacional para adiar o jogo: Ele disse ’não posso’. Mas se emprestasse o Diogo Gonçalves já adiava o jogo. Nem há solidariedade nenhuma. Eu já fui muito solidário com o Nacional. Eu não, o Benfica. Já fomos muito solidários. Tirando até 2009. Tenho uma magoa. Ele sabe. Tivemos a seguir alguns treinadores. A partir de 2009, só tive três treinadores. Depois Rui Vitória, que em 36 meses ganhou seis títulos. É o treinador do tetra. O que fizeram? O que escreveram? Vieira, vai para rua. Vitória na rua. No dia em que falei com o Rui Vitória. Não tenho nenhuma animosidade. Falei abertamente com o Rui. Já não era bom para o Rui. Depois veio o Bruno Lage era o novo Mourinho, tudo era bonito. Fizemos uma primeira volta. So perdemos com o FC Porto, mas estávamos isolados. As coisas correram-nos mal. Depois veio o Covid. Perdemos com FC Porto e Sp. Braga. Depois paramos o campeonato. O Bruno Lage não era treinador para o Benfica, não tem ideias. Certo é que Bruno Lage teve a coragem de pegar. Ferro, Florentino e João Félix. Como é que o Benfica vai ganhar com miúdos? Diziam que estávamos a por jogadores na montra. Na altura, ano era para por na montra. Os benfiquistas têm de saber o que querem. Experiência ou formação."

Importância dos adeptos: "O 12º jogador é muito importante para o Benfica, principalmente fora. Nós é que enchemos casas. Aqui tem 55 mil, 60 mil pessoas. Esse público que estava aqui arrastava o Benfica para as vitórias. Faz muita falta o público nos estádios. O acompanhamento que fazem à equipa, o carinho que recebem. Tudo isso influencia o comportamento dos jogadores. Cria uma química especial dentro de campo, os jogadores estão sempre a pensar nos adeptos."

Divisão no clube: "Não entendo esta fratura. Já no tempo da ditadura o Benfica foi um clube democrático. Era a instituição mais democrática. Em cada três sócios, dois votaram em mim. Não percebo a contestação. No Benfica, se não houver estabilidade, se não houver unidade, dificilmente ganhamos. Foi por este comportamento que o Benfica demorou vários anos a chegar ao bi, 39 anos para o tri. Os críticos falam sempre do penta. Nunca tínhamos feito um tetra. Isto só foi possível porque houve uma estabilidade. O Benfica preparou-se a partir de 2009 para ser um clube vencedor. Independentementedos percalços, estivemos em duas finais europeias. Na outra, fomos espoliados. Escamotearam os três penaltis. A palavra certa é dizer que roubaram o Benfica. Foi preciso os espanhóis denunciarem para cá em Portugal se falar. O Benfica fez um bi, um tetra e lutou pelo penta e sofre um golo aos 90 minutos. Se o jogo com o FC Porto terminasse empatado, éramos campeões. O Herrera nunca mais repete esse pontapé. Esse percurso todo só foi possível com estabilidade. Na derrota vê-se os verdadeiros benfiquistas. Ao ganhar todos batem nas costas. Há coisas que marcam na derrota. Receberam-nos em Lisboa como se fossemos campeões depois do Chelsea. Tínhamos perdido o título nos últimos segundos. Perdemos a Taça nos últimos minutos. Quando Jorge Jesus subiu e chegou ao pé de mim, tive pena. Estava marcado com cuspidelas. Disse-lhe: 'vais para o balneário, com a cara levantada e já vou ter contigo'. Tive de estar à espera da cerimónia. Tinha de respeitar o V. Guimarães. Cumprimentei o Júio Mendes. Não vi ninguém comigo, só estava o João Gabriel. Tive de descer as escadas sozinho para ir ter com a equipa. Os benfiquistas não podem estar assim. Adeptos não podiam ter reagido assim. Na altura, aquilo era para o JJ desaparecer. Não havia ninguém que quisesse. A mim faziam-me confusão. Pensei ‘este homem levou-nos a todas as finais, por que tem de sair?’ Pensei pela minha cabeça e disse ‘vais cá ficar’. Depois Jesus continuou e ganhámos tudo daí para a frente. A final com o Sevilha não foi perdida. Levaram-na. Propositadamente entenderam que tínhamos de perder."

Árbitros estrangeiros?:
"Tudo que seja pela verdade desportiva. Façam tudo que seja possível. Só não pode ser assim. Não é só a arbitragem. É mais num local próprio que temos de falar. Presidente, leia com atenção. Não vale a pena andar a disparar, já bastam os comentadores. Quem é presidente do clube não deve fazer. Isso é uma indústria. É aquela que gera mais receitas. Temos de virar isto ao contrário."

Arbitragens?: "
Eu não posso dizer que sou vou dizer alguma coisa, lá vou 200 dias. Não quero. Já falei esta semana, entregamos a carta ao presidente da FPF para que mal acabe o campeonato que haja os estados gerais secretário de estado, presidente da Liga, APAF, associação treinadores. Temos de dar a volta a isto. As cosias não estão bem. Quando veio o VAR pensamos que acabou a contestação, mas não acabou como complicou. Há lances. Já tive a oportunidade de ir ao VAR. Estou a falar do Moreirense. Não viu os penáltis. Não viu porquê? Há algo que está mal. A própria FPF vai estar sensibilizada para algo se fazer. Quando disse 'venham árbitros estrangeiros', todos ficam ofendidos, mas agora veio um inglês contradizer. Parece que em Portugal só temos cegos. Não há um comentador, dirigente que diga e venha dizer "é penalti".

Covid-19 é o principal culpado pelos resultados?:
"Tem um componente muito forte e eu diria que era o principal. Há culpas também minhas, mas aquilo que é o principal é o mês de janeiro onde nós fomos fustigados a sério."

Casos de Covid-19 na equipa:
"Mas isto não desculpa nenhuma, é uma raridade. O principal objetivo de um jogador de futebol é correr todos os dias, e não pode. Eu nunca vi, tirando nos lares, 27 casos, tirando os lares, num curto espaço de tempo. O Jorge [Jesus] esteve fora do Benfica cerca de cinco dias, também não treinava. Houve um tempo no Benfica em que nada foi normal. Independetemente disso ter acontecido, não faltou profissoinalismo, dedicação e trabalho. Praticamente não tínhamos contacto uns com os outros por causa desta situação, mas hoje as coisas já estão a ficar diferentes. As situação pode começar a normalizar, com mais precalço ou menos precalço. [Desde que testei positivo] Eu não consigo subir um lanço de escadas do Seixal sem parar e antes não me acontecia, o médico disse que ia melhorar. O meu estado mantém-se igual, dizem-me que vai melhorar e ainda não melhorou, dizem-me que tenho de esperar. Vamos lá ver."

Responsabilidade
: "O principal responsável só posso ser eu. Os sócios elegeram-me, na hora da derrota não vale a pena andar atrás de fantasmas. Sou eu o responsável.  Na hora da derrota tem de aparecer sempre quem lidera o clube. Devo ser dos presidentes mais titulados do Benfica, ganhei seis campeonatos, quando ganhámos o tetra não dei uma entrevista, pois foi uma vitória dos benfiquistas. Não de uma pessoa só. Acho que é importante e que não sirva de desculpa para ninguém. O Jorge falou, emocionou-se, estou sempre no Seixal. Sei o que se passa naquela casa. O mês de janeiro fomos fustigados... Quando tentámos adiar o jogo com o Nacional, nessa semana tivemos uma tempestade perfeita, com 27 casos de covid, dez eram jogadores. Os benfiquistas não devem minimizar o que se passou. Quando ficamos negativo não está resolvido, tanto para mim como para um atleta. E até houve colegas e amigos que estranhavam, 'a equipa só corre uma parte...'. Os jogadores corriam normalmente entre 9 e 12 quilómetros e não correm mais de sete quilómetros. Isto não é desculpa. É realidade. Eu sou ser humano, os jogadores também, mas a sua profissão é correr".

Momento da equipa de futebol: "Neste momento ninguém baixou os braços. Até ser matematicamente possível vamos lutar para ser campeões. Temos Taça para conquistar. Ninguém baixa os braços, que acreditem sempre. Já ganhámps um campeonato com 8 pontos de atraso. Só assim vale a pensar ser Benfica. Para isso é importante estarmos juntos, que os adeptos e sócios apoiem a equipa. Envolve toda a gente. Temos de estar unidos, a pensar sempre que é possível lá chegar."

Palavra aos benfiquistas: "Hoje é um dia muito especial, são 117 anos de uma história nobre, singular em Portugal e em todo o Mundo, onde todos nós sentimos vaidosos. História de amor a um clube. Quero cumprimentar todos os benfiquistas, hoje era um dia normal para nós celebrarmos neste pavilhão, se não fosse a pandemia. Brevemente veremos qual a oportunidade para estarmos todos juntos. É um dia de simbolismo para o benfiquismo, é uma manhã e iremos caminhar pela tarde."

18h30 - Arranca a entrevista ao presidente do Benfica.

- Em dia de aniversário do Benfica, Luís Filipe Vieira concede este domingo uma entrevista à BTV na qual deverá passar em revista os mais importantes temas da atualidade do clube. Em especial o momento desportivo da equipa de futebol, com a recente eliminação da Liga Europa e uma grande desvantagem para o líder Sporting na ordem do dia. Uma entrevista que poderá acompanhar ao minuto no site de Record. Fique por aí!

Por Sérgio Magalhães, Isabel Dantas, Miguel Custódio e Rafael Soares
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