António Sala: «Voto Vale e Azevedo»

EM TEMPO DE BALANÇO... ATÉ ÀS ELEIÇÕES

Tem sido um dos mais influentes membros da Direcção do Benfica. Vale e Azevedo convidou-o a recandidatar-se mas António Sala declinou, por razões que têm a ver com o pouco tempo que dedicou à família nos últimos três anos e com uma saúde que, sendo boa, ainda “paga” a factura da intervenção cirúrgica a que foi, há uns anos, submetido. Contudo, Sala não hesita em dizer que apoia Vale e Azevedo...
António Sala: «Voto Vale e Azevedo»

ANTÓNIO Sala abriu o livro e faz o balanço de três anos como vice-presidente do Benfica. Apesar de não se recandidatar ao cargo, mostra total empenho na vitória de Vale e Azevedo. E não está arrependido da aventura em que se meteu e lhe custou, ao longo do processo, alguns amargos de boca...

– Perdeu amigos, durante estes três anos de vice-presidência do Benfica?
– Não creio. Mas, de facto, algumas amizades ficaram crispadas.

– Valeu a pena?
– Respondo dizendo que prefiro fazer uma abordagem positiva do meu mandato. Fiz um trabalho sério, esforcei-me muito, à frente de uma equipa excelente e deixámos no Benfica, seja qual for a Direcção que saia das próximas eleições, bases na área da Cultura e Animação que antes não existiam. Elaborámos, em detalhe, um levantamento dos elementos do mundo da Cultura e do Espectáculo com vínculo afectivo ao Benfica. Hoje sabemos qual é o universo da cultura benfiquista, quais os escritores, poetas, músicos, cantores, jornalistas, pintores, escultores, maestros, que são sócios ou simpatizantes do Benfica. O maior elogio que pode fazer-se ao trabalho da minha equipa é verificar que os outros clubes estão a seguir as nossas pisadas. A universalidade da festa do futebol extravasou do próprio estádio. Sinto a consciência tranquila de ter feito um trabalho com alegria e prazer, que deu frutos.

– E a outro nível, no âmbito da política geral do clube?
– Também faço um balanço positivo. O juiz Cândido Gouveia disse recentemente que esta Direcção encontrou o Benfica numa fase de pré-catástrofe. Não me parece. Esta Direcção encontrou o Benfica em plena e absoluta catástrofe. Quando entrámos, encontrámos uma degradação para além do imaginável e havia condições para que meses depois os jogadores começassem a sair com ordenados em atraso. Hoje o Benfica tem os salários em dia, o plano Mateus está a ser cumprido, as obrigações com a Segurança Social e o Fisco estão regularizadas, as dívidas à banca, que eram enormes e faziam com que existissem juros incríveis, estão pagas. A situação era de ruptura absoluta e foi preciso, sobretudo, a tenacidade de um homem para que o clube não se afundasse. Vale e Azevedo tem, como todos nós, defeitos. Mas é muito corajoso e conseguiu criar condições para que o Benfica, numa primeira fase que foi mais longa do que o esperado, possa agora avançar rumo outros patamares.

– Em Abril de 1999 teve um desentendimento grave com Vale e Azevedo...
– É verdade. Mas foi por causa de Graham Souness e por razões marcadamente pontuais. A partir daí nunca tive dúvidas de que o meu mandato era para levar até ao fim.

–Passou-lhe pela cabeça pedir a demissão, na altura da crise-Souness, o que acarretaria novas eleições?
– Se alguma vez isso me passou pela cabeça, deixou de passar logo a seguir. Comecei a perceber que estava a ser seduzido por algumas oposições e todos os dias recebia pressões nesse sentido. Queriam que fosse eu a fazer o que eles, de forma democrática, não tinham conseguido. Mas, como nunca foi meu hábito, numa guerra, ser espingarda nas mãos dos outros...

– Depois dessa zanga pública, a sua relação com Vale e Azevedo manteve-se igual ao que era antes?
– Perfeitamente igual. Tenho com ele uma relação cordial, apesar de termos personalidades e estilos diferentes. Porém, respeito-o bastante e sei que ele também me respeita. Confesso que tenho uma enorme admiração pela sua coragem. Poucas pessoas conseguiriam aguentar o desgaste e as pressões que ele sofre a todos os níveis. Há “lobbies” montados para o destruir.

– Quando comunicou ao presidente do Benfica que não estava disponível para a lista a apresentar nas eleições do próximo dia 27?
– Há uns meses, Vale e Azevedo endereçou-me dois convites. Um, no sentido de ser administrador da SAD, que, por razões profissionais, declinei; outro para continuar como vice-presidente para esta área. Agradeci e também recusei. Tenho uma vida profissional muito preenchida e a minha saúde, embora esteja bem, já não é a mesma que tinha há uns anos. Depois da intervenção cirúrgica a que fui submetido, ficou, digamos que... precária. Estarei sempre, incondicionalmente, ao lado do Benfica e caso aconteça a vitória, como eu espero, da lista de Vale e Azevedo, continuarei a colaborar, na medida das minhas possibilidades, naquilo que ele entender necessário para o clube.

– Acredita no modelo de SAD que vigora no Benfica?
– O mundo mudou, e as Sociedades Anónimas Desportivas têm de se submeter às regras de mercado, tornando-se atractivas para os grandes investidores. Caso contrário não passarão de SAD domésticas, como acontece no FC Porto e no Sporting. Nestas coisas, não tenho grandes complexos relativamente a quem domina o capital. As regras de blindagem quanto a determinadas matérias estão criadas; de onde vem o dinheiro, de Portugal ou de fora, é uma questão de somenos importância. O Benfica será sempre dos portugueses e dos benfiquistas. Se puder ser capital nacional a dominar a SAD e a torná-la grandiosa, fico encantado; Se não o for, não ficarei minimamente preocupado. O que importa são os resultados e numa altura em que a globalização é uma realidade e se caminha num rumo federalista na Europa, é quase mesquinho e ridículo levantar este tipo de problemas.

– A SAD chega tarde?
– O Benfica nunca tinha caído onde o encontrámos se os presidentes fossem pessoalmente responsabilizados, como será a Administração da SAD, pelos passivos que acumularam.

– Houve irresponsabilidade dos anteriores presidentes?
– Não direi que se tratou de irresponsabilidade pessoal, mas sim de um sistema que permitia a acumulação de passivos sobre passivos. Hoje, tudo é diferente. O futebol romântico é letra morta. As receitas de bilheteira e a quotização dos sócios já deixaram de ser a parte mais importante dos orçamentos. Vale e Azevedo percebeu isso antes de toda a gente. A luta com a Olivedesportos (que teria direito a ficar até com direitos que poderiam advir de tecnologias ainda não inventadas!) é a prova disso mesmo.

– A guerra de Vale e Azevedo e contra Vale e Azevedo é fundamentalmente económica?
– É de estilos e também política. Mas a vertente económica é substancial e incontornável.

– É redutor dizer que as eleições do Benfica vai ser disputadas entre a SIC e a Média Capital?
– Tanto uma como outra lutam pelo bolo apetitoso que o Benfica representa. Só fico chocado quando vejo que as políticas editoriais se deixam condicionar por este tipo de interesses. O “Independente” trouxe uma nota do seu director em que ele assumia que o jornal tinha interesse na vitória de Manuel Vilarinho e ia agir em conformidade. Parece-me de uma incorrecção total. Os critérios da informação da TVI relativamente ao Benfica são uma coisa terrível...

– A política desportiva destes três últimos anos deixou sempre muito a desejar...
– Foram feitos grandes esforços...

– Mas nunca os melhores. Entregar-se nas mãos de dois treinadores deu mau resultado...
– Entregou-se mais nas mãos de Souness que nas de Heynckes. O técnico alemão, com o excelente currículo que possuía, foi capaz de conseguir uma margem de manobra apreciável e teve sempre o bom senso de, conhecedor da realidade económica do clube, nunca exigir a Lua Cheia, ficando-se por um Quarto Crescente ou, até, um Quarto Minguante.

– Os casos de Paulo Bento e João V. Pinto são emblemáticos do império da vontade de Heynckes...
– Houve uma opção clara por um caminho corajoso, embora politicamente incorrecto, de aposta no médio prazo. As possibilidades que estamos a dar a jovens jogadores, é bonita, muito digna e pode servir de exemplo ao futebol português.

– José Mourinho, também é politicamente incorrecto?
– Talvez. Porque há muitos complexos. Quando é que um adjunto pode passar a treinador principal? Quando substituiu o principal, e aí não há dúvidas? Essa tem sido a altura lógica da mudança... Desta feita houve coragem para fazer o que não é normal. Analisou-se a situação e concluiu-se que Mourinho tinhas as condições certas para o desempenho do cargo e avançou-se para o contrato. Portugal não costuma gostar disto, prefere viver de sebastianismos e procurar os salvadores da Pátria.

– Como se sentiu perante os acontecimentos da última AG do Benfica?
– Não estive presente, por doença. Assisti pela televisão e vi imagens de uma violência muito grande.

– Como é que o Benfica chegou a este ponto de confrontação?
– O clube não ganha o Campeonato há seis anos e creio que os adeptos, independentemente da tendência que apoiem, não estão preparados para uma coisas destas. Cria instabilidade e intolerância nas relações. Cada vez que um dirigente do Benfica espirra a Nação benfiquista constipa-se. Está tudo muito sensível.

– A Direcção, em algum momento do mandato, sentiu-se isolada?
– Nunca senti isso. Ando permanentemente na rua, vou almoçar fora todos os dias, viajo em transportes públicos, as pessoas conhecem-me e falam muito comigo sobre o Benfica. Fazem-me perguntas e a grande maioria acaba invariavelmente a dizer “não desistam, nós acreditamos no que estão a fazer”. Nunca senti esta Direcção isolada.

– Nem mesmo em função de várias promessas não cumpridas?
– Houve algumas, de facto. E porquê? Por não as querermos realizar, ou porque quereríamos enganar os sócios? É evidente que não. O que aconteceu foi que demos de caras com uma realidade diferente da que esperávamos. O empréstimo obrigacionista, por exemplo. Estava tudo tratado e não se fez porque houve uma solidariedade corporativista na banca que (devido a dívidas do passado, nomeadamente o problema com o Finibanco) nos boicotou. Também a má Imprensa, promovida por “lobbies” ao serviço da Olivedesportos, nos prejudicou bastante.

– A subscrição das acções da SAD é que nunca mais “sai”...
– Estou de acordo com a Oposição quando diz que a subscrição pública de acções da SAD deve ser feita depois das eleições (só espero que depois não venham dizer que, afinal, devia ter sido feita antes das eleições...). Julgo que, de qualquer forma, Vale e Azevedo vai vencer as eleições, porque é um grande benfiquista que não teme mares encapelados para defender os interesses do clube. É um homem de coragem. No lado da Oposição estão também pessoas de enorme devoção ao Benfica (tenho lá grande amigos) mas não lhes reconheço essa coragem. Muitos deles, nas alturas difíceis, abandonaram o barco, outros não têm autoridade moral para aparecerem publicamente a defender grandes coisas. Estiveram na Direcção em grandes mandatos, foram responsáveis por áreas fundamentais do clube e o passado não é nada abonatório. Depois, não lhes vejo uma ideia sequer sobre o Benfica. Manuel Vilarinho, por exemplo, ainda não disse nada sobre o caso com a Olivedesportos...

– E se Vale e Azevedo perder as eleições e, depois da subscrição, continuar como presidente da SAD? O que acontecerá, então, ao Benfica?
– Manda na SAD quem lá investir. Ouve-se falar em tantos milhões... Se calhar até o dr. Guerra Madaleno investe uns milhões. Ou então a Média Capital através de Manuel Vilarinho...

– Mas se Vilarinho ganhar nas urnas e Vale for maioritário na SAD, haverá condições sociais para o Benfica funcionar?
– Seria muito difícil. Se calhar como um Governo do PSD e um Presidente da República do PS... Só faço votos para que haja sintonia completa entre quem dominar a SAD e quem mandar no Benfica.

– Vai votar Vale e Azevedo?
– Sim. Sem Dúvida.

BENFICA BENEFICIOU DE DINHEIRO PRIVADO

António Sala revelou quem se prontificou a tapar alguns buracos de tesouraria, quando a crise “apertou” mais para as bandas da Luz...

“Vale e Azevedo, quando as coisas estiveram mais negras, com sacrifício pessoal e financeiro, avançou com o seu dinheiro para que as coisas não parassem. Também José Manuel Capristano não se furtou a auxiliar quando foi preciso, o mesmo acontecendo, nas Amadoras, com José Manuel Antunes. Também eu, em determinadas alturas adiantei dinheiros ao Benfica, que mais tarde, em alturas de maior disponibilidade, o clube regularizou. Nesses momentos de aperto, em que tivemos de recorrer a soluções privadas, esses que agora apregoam milhões só serviram para criar entraves.”

«CALADO COLABOROU EM VISITAS AO IPO»

António Sala mostrou-se particularmente agastado com o boato que envolveu o capitão do Benfica, Calado. “Trata-se de um rapaz espectacular, bem formado, que se vê envolvido, da forma mais cretina, numa história estúpida.” O “vice” encarnado não quis deixar passar a oportunidade para contar um episódio que pode caracterizar a maneira de ser de calado.

“Costumo organizar mensalmente visitas às crianças internadas no Instituto Português de Oncologia (IPO), em Lisboa. Levo, normalmente, artistas de circo, cantores e por vezes jogadores de futebol. É uma tarefa difícil, num ambiente pesado, de meninos tristes, no meio de processos complicados e dolorosos de quimioterapia. O Calado foi lá duas vezes e não só procurou animar os meninos, conversando com eles sem pressas e com uma naturalidade que por vezes é difícil manter, como também se inteirou antecipadamente do número de crianças que iria visitar e surgiu com chocolates e brinquedos para oferecer.”

UM ESPECTÁCULO NO ESPACTÁCULO

“Antigamente as pessoas iam ao futebol apenas pelo jogo. Hoje em dia a oferta a quem se desloca a um estádio tem de ser maior. Há jovens que aproveitam a ida para verem o espectáculo do grupo musical que mais apreciam, ou porque não querem perder o fogo de artifício.”

«PRESIDENTE É CORAJOSO»

“É um homem surpreendente, a todos os níveis. Houve alturas em que eu pensei, ‘e agora o que é que vai acontecer?’, e ele conseguia encontrar fórmulas inovadoras. Com Vale e Azevedo há coisas de extrema dificuldade que consegue solucionar muito bem e por vezes, aquilo que é normal, cria-lhe problemas por manifesta falta de sensibilidade. É um guerrilheiro permanente que fica fora do seu teatro de guerra quando as coisas são simples. Aí tem a tentação do abismo e complica muito.”

«TEMPO DE ANTENA DE MANUEL VILARINHO»

“Há uma campanha de intoxicação da Opinião Pública contra Vale e Azevedo. Por exemplo, perante o que vi, decidi não ler o ‘Jogo’, da mesma forma que não ligo ao Desporto do ‘Independente’ ou da TVI. Há programas que mais valia se surgissem assinalados como tempo de antena de Manuel Vilarinho.”

«’LOBBIES’ NÃO AJUDAM»

“Nos outros clubes, os ministros que são simpatizantes, às vezes de forma despudorada, não deixam de ajudar e apoiar. No Benfica, parece que toda a gente tem medo, até, de criar apenas as condições normais e tudo se torna sempre mais complicado.”

O «BIG BROTHER» DO BENFICA

“A Leonor Pinhão disse há pouco tempo, com muita razão, que querem fazer um ‘Big Brother’ no Benfica. Televisões como a TVI, jornais como o ‘Independente’, (que pertencem ao Grupo Media Capital com interesses confessos na lista de Manuel Vilarinho), o caso particular de ‘O Jogo’ e as dores da Olivedesportos que a RTP resolveu chamar a si, constituíram um ‘lobby’ que tem procurado fazer do Benfica e da vida privada de Vale e Azevedo uma espécie de ‘Big Brother’.”

ASSEMBLEIA GERAL À IMAGEM DO PREC

“O que aconteceu na última Assembleia Geral caracteriza o estado de espírito da Oposição. Aquilo foi um PREC. Curiosamente, já tinha sentido aquele tipo de reacção em AG onde não havia qualquer tipo de dúvida quanto ao vencedor. É aos gritos e murros, ameaçando fisicamente as pessoas, que deve reivindicar-se uma recontagem? E não foi o Poder que fez isso...”

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