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Benfica-Boavista, 2-1: Quando o sonho comanda a vida

CRÓNICA

"Venceu o futebol, ao cabo de hora e meia em que palavras aliadas a  conceitos como ética, dignidade, auto--estima e passado foram defendidos intransigentemente por aqueles que são os maiores derrotados da época"
Benfica-Boavista, 2-1: Quando o sonho comanda a vida • Foto: João Trindade
ERA uma vez um jogo ingrato, do qual dependia a história maior da I Liga. Uma história que não estava totalmente definida, capaz de misturar sonho e realidade, potencial geradora de confusão entre o que era trabalho por conta própria e o raciocínio aritmético que apontava sempre para possíveis benefícios de terceiros. No essencial venceu o futebol, ao cabo de hora e meia em que palavras como ética, dignidade, auto-estima e passado foram defendidas intransigentemente por aqueles que, neste momento e por motivos distintos, são os maiores derrotados da época.

Derrotado o Benfica, sonhador de um título distante e alimentado fora de época, a quem o tempo ensinou a reduzir os objectivos, primeiro à presença na Liga dos Campeões e por fim à simples presença europeia, meta problemática à entrada da última jornada, mesmo depois da vitória de ontem sobre o ex-campeão nacional – nos últimos dezasseis jogos a contar para o campeonato, os encarnados só venceram quatro. Derrotado também o Boavista, ciente de que para revalidar o título teria de esperar por um milagre que o Sporting alimentou nas duas últimas jornadas, mas para o qual teria de contribuir cumprindo a sua missão. O excepcional campeão de 2000/01, que um ano depois voltou a estar na corrida até final, veio a Lisboa defender a sua condição de detentor do título, alimentando o sonho, respeitando o passado recente, tendo sempre presente os valores de quem está na fazer hoje a grande história de amanhã.

Sendo um jogo problemático para ambas as equipas, a verdade é que só a vitória interessava para continuarem a alimentar a esperança de atingir o objectivo final. A especificidade do embate traduziu-se, inclusivamente, na própria forma como Jesualdo Ferreira e Jaime Pacheco montaram as equipas. O Benfica com dois avançados na zona central (Mantorras e Jankauskas), como resposta à ausência de Zahovic; o Boavista apostando na velocidade de Duda no eixo central do ataque, fazendo avançar Erivan para a frente de Mário Loja, com o objectivo de formar uma primeira barreira às subidas de Armando pelo flanco direito benfiquista.

Num confronto sempre equilibrado, muito jogado a meio campo e no qual o músculo se impôs ao talento, marcou o Boavista na transformação de um livre directo de Sanchez, ao qual Moreira não deu a melhor resposta. Tornou-se então mais evidente que nunca a necessidade de os encarnados recorrerem ao máximo de si próprios para superarem a lógica de bater uma equipa quase invencível a partir do momento em que se adianta no marcador. A maior vantagem do Benfica residiu no facto de não ter entrado em depressão, continuando a jogar com o mesmo calor de sempre.

Foi nesse período entre os dois primeiros golos do encontro que o Boavista se tornou mais vulnerável, ajudando a explicar, no fim de contas, a reviravolta no marcador. A equipa não se entusiasmou (não valia a pena porque estava à frente) mas também não controlou a capacidade de resposta do adversário (claro sinal de quem pensava não ser muito difícil manter o cenário favorável). Quando chegou ao empate e partiu em busca do triunfo, também empurrado pelo vibrante apoio do seu público e indiferente ao facto de estar a jogar com menos um (expulsão de Pesaresi), o Benfica correu atrás de um sonho que lhe comanda a vida nestes últimos passos da época. A vitória chegou na sequência de falhanço incrível de William, facilmente aproveitado por Mantorras. Seguiram-se depois os minutos da fúria boavisteira, em forma de ataque cerrado, feito com muitas unidades na frente e poucas ideias a suportá-los. Os últimos quinze minutos tiveram uma emoção fantástica e surpreendente para o cariz do jogo, confirmação de quem soube defender a camisola e a essência do próprio futebol.

PAULO BAPTISTA orientou o seu trabalho enquadrado nos moldes gerais da I Liga em toda a época: confusão quase permanente entre a aplicação da lei da vantagem e o benefício do infractor; minucioso nas pequenas faltas e um perfeito desastre no capítulo disciplinar.
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