Benfica e os jogadores brasileiros da história do clube

UMA RELAÇÃO QUE ULTRAPASSA JÁ OS VINTE ANOS

Tudo começou na contratação de Jorge Gomes ao Boavista, em 1979, o ano que marca a primeira travessia do Atlântico por parte dos responsáveis encarnados, então para trazer o avançado César, do América do Rio. Hoje, Ronaldo é o sobrevivente de uma relação que chegou a permitir ver na Luz boa parte da selecção brasileira do final da década de 80, início de 90
Benfica e os jogadores brasileiros da história do clube

NUMA altura em que o Benfica pretende contratar Roger, coqueluche do Fluminense e considerado um dos melhores jogadores sul-americanos da actualidade, um olhar pelo passado conduz-nos a relação intensa entre o clube encarnado e os jogadores brasileiros.

Uma relação que, apesar de tudo, terá de considerar-se recente, porque 21 anos na vida constituem não mais que uma pequena parcela da existência de um clube a caminho do centenário.

É essa história com mais de duas décadas - não perdendo de vista que Otto Glória veio para Portugal e para a Luz em 1954, como treinador - que aqui faremos quase telegraficamente.

1 DE JULHO DE 1978 - No dia 29 de Outubro de 1976, os dirigentes benfiquistas já tinham tentado obter, em assembleia geral, a autorização dos sócios para a contratação de jogadores estrangeiros. Argumentavam que os tempos eram outros, que o campo de recrutamento estava substancialmente reduzido com a nova situação política da África de expressão portuguesa, que esse apego à tradição deixava de fazer sentido numa era de maior concorrência. Os associados ouviram e responderam... não. Mas a discussão permaneceu em aberto e assim que foi possível voltou a ser levada à AG. No dia 1 de Julho de 1978 tudo se decidiu favoravelmente às intenções do clube (então presidido por Ferreira Queimado), numa altura em que já não tinha tempo para reforçar a equipa para a temporada de 1978/79.

PRIMEIRO JORGE GOMES - Jorge Gomes entra na história não só como o primeiro brasileiro mas como o primeiro estrangeiro do Benfica, apesar de, em rigor, isso não corresponder à verdade: no longínquo ano de 1915 já o francês Cirilo Miramon envergara a camisola encarnada. Rigores à parte, a verdade é que mal foi concedida a autorização dos sócios para abordarem o mercado sem restrições, os responsáveis partiram em busca de Jorge Gomes, avançado em evidência no Boavista e que parecia o homem certo para reforçar a frente de ataque benfiquista, liderada pelo inesquecível Nené e da qual também já fazia parte o possante Reinaldo.

CÉSAR LOGO A SEGUIR - Com a época de 1979/80 já em curso, acontece outro momento historicamente importante: pela primeira vez o Benfica desloca-se ao Brasil para contratar um futebolista - tinha-o feito muito antes, em 1947, mas para recuperar Rogério de Carvalho, que saíra para o Botafogo. O alvo encarnado foi César, então um jovem com 23 anos, atacante fino, de boa técnica, que actuava no América do Rio. César tinha sido formado pelas camadas jovens do Fluminense, clube que representou desde os 12 anos até à idade de sénior. Jogou uma vez pela selecção brasileira de juniores e constituiu aposta de Mário Wilson, treinador benfiquista ao tempo de todas estas alterações. O velho capitão acabou por beneficiar da presença do jogador na final da Taça de Portugal dessa temporada, ganha ao FC Porto por 1-0, com excelente golo de César.

ERIKSSON POUCO SENSÍVEL - Já sob o comando do húngaro Lajos Baroti, os encarnados contrataram Paulo Campos ao Portimonense. Em 1982, o presidente Fernando Martins resolveu contratar uma das grandes estrelas do futebol brasileiro de então: o avançado Cláudio Adão. Ao mesmo tempo, apostou tudo num jovem sueco chamado Sven-Goran Eriksson, que chegou a Portugal com 34 anos, depois de ganhar a Taça UEFA à frente do Gotemburgo. Quando começou a trabalhar, Eriksson tinha mais de 30 jogadores num plantel que queria reduzir a 24. Todos os brasileiros foram dispensados e Cláudio Adão havia de regressar a casa sem ter feito uma única partida oficial pelo Benfica.

O MUNDIAL DE 1986 - O Mundial de 1986 marca uma viragem não apenas no Benfica como no futebol português: a partir da prova mexicana a qualidade dos estrangeiros nas nossas equipas aumentou claramente. Depois de Wando, Nivaldo e Chiquinho (todos com percursos diferentes), os encarnados deram início a um ciclo de ouro na relação com os jogadores brasileiros. Em 1987, Elzo (titular do escrete no Mundial do México) e Mozer (afastado da mesma prova por lesão de última hora) assinam contrato com o clube da Luz. Começam a época com o dinamarquês Skovdahl e terminam com Toni, na final da Taça dos Campeões, perdida em Estugarda para o PSV Eindhoven, nas grandes penalidades.

DE REPENTE... A SELECÇÃO DO BRASIL - De repente, com a disponibilidade financeira de Jorge de Brito e o domínio do mercado em causa do empresário Manuel Barbosa, o Benfica viu passar pelos seus quadros alguns dos mais importantes jogadores brasileiros do seu tempo. Em 1988, a Elzo e Mozer juntaram-se Valdo e Ricardo Gomes - mais Ademir, contratado ao V. Guimarães em luta com o FC Porto, e Lima, o excêntrico avançado que trazia o rótulo de goleador, mas que acabou por não confirmar credenciais. No ano seguinte, foi a vez de Aldair. Para além do elevado rendimento desportivo patenteado, Mozer (Marselha), Aldair (Roma), Ricardo Gomes e Valdo (ambos para o Paris Saint-Germain) permitiram excelentes negócios ao Benfica, que comprou barato e vendeu substancialmente mais caro. Processo que, percebeu-se anos mais tarde, adiou a já então inevitável rotura financeira que havia de provocar o célebre Verão quente de 1993.

O FENÓMENO ISAÍAS - O brasileiro com números mais expressivos em toda a história encarnada é Isaías - 125 jogos (só Valdo fez mais) e 53 golos. A sua contratação ao Boavista coincidiu com a de William ao V. Guimarães. Decorria o ano de 1990 quando começou uma das mais impressionantes relações de amor dos adeptos benfiquistas. Isaías era um jogador extraordinário pela força, pela velocidade, pela capacidade de drible e pela potência de remate. Um jogador muitas vezes decisivo, capaz de inverter sozinho a tendência de um jogo. Teve muitas tardes de glória, mas nenhuma tão brilhante quanto aquela noite londrina em que fez os dois golos que bateram o Arsenal e qualificaram o Benfica para a primeira edição da Liga dos Campeões, decorria a época de 1991/92.

DEPOIS DA GRANDE CRISE - Desde 1993, isto é, desde a grande crise e até aos dias de hoje, e falamos de sete anos, o Benfica contratou quase tantos brasileiros como no tempo que está para trás, até 1979. Uma história que começou com o avançado Ailton (importante no último título nacional) e prosseguiu com vasto grupo de mais de uma dezena de jogadores. Alguns de qualidade indiscutível mas que não tiveram tempo para mostrar o esplendor do seu futebol (Edilson, Donizete e Paulo Nunes), outros que constituíram rotundo falhanço (Paulão, Clóvis, Paredão, Luís Gustavo, Jamir, Lúcio Wagner e Leónidas) e outros ainda que, sem números particularmente excepcionais, caíram no goto dos adeptos, como Amaral e o próprio Valdir, aquele que se autodenominava “matador” e que, feitas as contas, em dez jogos para o campeonato (que é a única referência deste trabalho) marcou quatro golos.

O SOBREVIVENTE RONALDO - Neste momento, e enquanto não chega aquele que será o 33.º jogador brasileiro da história encarnada, da relação benfiquista com o Brasil sobrevive Ronaldo, o defesa-central que vai na quinta época ao serviço do clube - como curiosidade registe-se que nenhum brasileiro esteve mais de cinco épocas no Benfica. Deste modo, Ronaldo igualou Isaías, William e Valdo (este com quatro anos pelo meio, aqueles em que representou o Paris Saint-Germain), podendo transformar-se no caso de fidelidade máxima ao clube. Basta-lhe ficar mais uma época, como parece ser intenção das duas partes.

OS QUE NUNCA JOGARAM

Da lista apresentada dos brasileiros que vestiram a camisola encarnada, convém fazer desde já um esclarecimento: só aqui estão registados os nomes de jogadores que actuaram em partidas a contar para o campeonato. Assim, ficam de fora Cláudio Adão (contratado em 1982 por Fernando Martins, mas rejeitado por Eriksson), King (veio em 1995, pela mão de Artur Jorge, mas nunca actuou na prova maior do calendário nacional) e Duda (o avançado do Boavista o máximo que conseguiu foi ir uma vez para o banco dos suplentes). Isto para já não falar de Marcelo, que, apesar do sotaque, convém recordar, é cidadão português.

O CASO DE GAMARRA

SENDO paraguaio, Carlos Gamarra também pode entrar nestas contas como objecto de relação entre Benfica e Brasil. Para o contratar, na época 1997/98, os encarnados tiveram de atravessar o Atlântico e adquirir o seu passe ao Internacional de Porto Alegre. Foi um dos melhores defesas centrais que passaram por Portugal nos últimos anos (talvez mesmo um dos melhores de sempre), mas acabou por não aquecer o lugar. Poucos meses depois de ter chegado como jogador de classe mundial, o Benfica viu-se na contingência de transaccionar o seu passe para o Corinthians, única forma de resolver dificuldades de tesouraria.

A PAIXÃO DOS TÉCNICOS

Toni, Artur Jorge e Manuel José foram os treinadores mais rendidos aos encantos brasileiros. Com Toni ao leme, o Benfica contratou Valdo, Ricardo Gomes, Ademir, Lima e Ailton, enquanto Artur Jorge, para além de promover o regresso de Valdo e Ricardo Gomes, aproveitou para retocar o plantel com Edilson, Paulo Pereira, Paulão, Clóvis, Paredão e Luís Gustavo. Com Manuel José vieram Valdir, Ronaldo, Lúcio Wagner, Leónidas e Paulo Nunes. Se juntarmos as quatro contratações de Paulo Autuori (Donizete, Jamir, Gustavo e Amaral), atingimos uma vintena de jogadores do país irmão que chegaram a actuar pelo Benfica em partidas do campeonato.

1979/80

Nome: JORGE GOMES (18/5/1954)
Posição: avançado
Épocas: 3 (79/82)
Jogos: 41
Golos: 10
NOTA: 2

Nome: CÉSAR (13/4/1956)
Posição: avançado
Épocas: 4 (79/83)
Jogos: 54
Golos: 19
NOTA: 3

1981/82

Nome: PAULO CAMPOS (25/5/1957)
Posição: médio/avançado
Épocas: 1 (81/82)
Jogos: 5
Golos: 0
NOTA: 1

1984/85
Nome: WANDO (13/3/1963)
Posição: extremo-esquerdo
Épocas: 4 (84/88)
Jogos: 91
Golos: 12
NOTA: 3

Nome: NIVALDO (2/8/1958)
Posição: médio
Épocas: 1 (84/85)
Jogos: 6
Golos: 0
NOTA: 1

1986/87

Nome: CHIQUINHO (26/4/1963)
Posição: avançado
Épocas: 2 (86/88)
Jogos: 55
Golos: 14
NOTA: 3

1987/88

Nome: ELZO (22/1/1961)
Posição: médio
Épocas: 2 (87/89)
Jogos: 38
Golos: 1
NOTA: 4

Nome: MOZER (19/9/1960)
Posição: defesa
Épocas: 5 (87/89 e 92/95)
Jogos: 118
Golos: 11
NOTA: 5

Nome: MARLOS (10/6/1969)
Posição: avançado
Épocas: 1
Jogos: 1
Golos: 0
NOTA: 1

1988/89

Nome: VALDO (12/1/1964)
Posição: médio
Épocas: 5 (88/91 e 95/97)
Jogos: 137
Golos: 19
NOTA: 5

Nome: RICARDO GOMES (13/12/1964)
Posição: defesa
Épocas: 4 (88/91 e 95/96)
Jogos: 112
Golos: 24
NOTA: 5

Nome: ADEMIR (17/12/1966)
Posição: médio
Épocas: 2 (88/90)
Jogos: 30
Golos: 4
NOTA: 2

Nome. LIMA (17/9/1962)
Posição: avançado
Épocas: 3 (88/91)
Jogos: 36
Golos: 4
NOTA: 2

1989/90

Nome: ALDAÍR (30/11/1965)
Posição: defesa
Épocas: 1 (89/90)
Jogos: 22
Golos: 5
NOTA: 3

1990/91

Nome: WILLIAM (21/12/1967)
Posição: defesa
Épocas: 5 (90/95)
Jogos: 97
Golos: 11
NOTA: 3

Nome: ISAÍAS (18/10/1963)
Posição: médio/avançado
Épocas: 5 (90/95)
Jogos: 125
Golos: 53
NOTA: 5

1993/94

Nome: AILTON (1/9/1968)
Posição: avançado
Épocas: 2 (93/94 e 95/96)
Jogos: 32
Golos: 11
NOTA: 3

1994/95

Nome: EDILSON (17/9/1971)
Posição: médio/avançado
Épocas: 1 (94/95)
Jogos: 23
Golos: 9
NOTA: 3

Nome: PAULO PEREIRA (27/8/1965)
Posição: defesa
Épocas: 2 (94/96)
Jogos: 20
Golos: 2
NOTA: 2

Nome: PAULÃO (24/3/1968)
Posição: defesa
Épocas: 1 (94/95)
Jogos: 4
Golos: 0
NOTA: 1

Nome: CLÓVIS (25/7/1970)
Posição: avançado
Épocas: 1 (94/95)
Jogos: 1
Golos: 1
NOTA: 1

1995/96

Nome: PAREDÃO (30/3/1972)
Posição: defesa
Épocas: 1 (95/96)
Jogos: 8
Golos: 1
NOTA: 1

Nome: LUIZ GUSTAVO (23/2/1972)
Posição: avançado
Épocas: 1 (95/96)
Jogos: 14
Golos: 0
NOTA: 1

1996/97

Nome: JAMIR (13/5/1973)
Posição: médio
Épocas: 1 (96/97)
Jogos: 12
Golos: 1
NOTA: 2

Nome: DONIZETE (24/10/1968)
Posição: avançado
Épocas: 1 (96/97)
Jogos: 16
Golos: 7
NOTA: 3

Nome: GUSTAVO (8/9/1968)
Posição: defesa/médio-esquerdo
Épocas: 1
Jogos: 10
Golos: 2
NOTA: 2

Nome: AMARAL (28/2/1972)
Posição: médio
Épocas: 2 (96/98)
Jogos: 24
Golos: 0
NOTA: 3

Nome: VALDIR (15/3/1972)
Posição: avançado
Épocas: 1 (96/97)
Jogos: 10
Golos: 4
NOTA: 3

Nome: RONALDO (18/2/1974)
Posição: defesa
Épocas: 4 (96/00)
Jogos: 87
Golos: 3
NOTA: 4

Nome: LÚCIO WAGNER
Posição: defesa
Épocas: 1 (96/97)
Jogos: 2
Golos: 0
NOTA: 1

1997/98

Nome: LEÓNIDAS (23/2/1975)
Posição: médio
Épocas: 1 (97/98)
Jogos: 4
Golos: 0
NOTA: 1

Nome: PAULO NUNES (30/11/1971)
Posição: avançado
Épocas: 1 (97/98)
Jogos: 5
Golos: 2
NOTA: 1

Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Subscreva a newsletter

e receba as noticias em primeira mão

ver exemplo

Ultimas de Benfica

Notícias

Notícias Mais Vistas

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.