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Bossio: «Treinar e não jogar é difícil mas quero ficar no Benfica»

GUARDA-REDES QUEBRA O SILÊNCIO E DEIXA BEM CLARO QUE ESTA "NOVELA" NÃO LHE PERTENCE

Bossio: «Treinar e não jogar é difícil mas quero ficar no Benfica»
Bossio: «Treinar e não jogar é difícil mas quero ficar no Benfica»

O treino findara. Mais um para Carlos Bossio. No fundo, os únicos momentos de trabalho, de entrega total, pois jogos a sério, com pontos em disputa, é coisinha que ainda não pode sentir, já que a burocracia -- ou se quiserem o dinheiro para satisfazer essa burocracia -- não chegou ao destino, que o mesmo será dizer, aos cofres do Estudiantes La Plata, clube que detém os direitos sobre o jogador e, por isso, a autoridade suprema para poder mandar emitir o passe internacional, documento sem o qual Carlos Bossio não poderá ser inscrito, não poderá sentir o peso da camisola da águia ao peito.

Uma novela que se arrasta nervosamente. E Bossio, actor principal do enredo, protagonista involuntário que não regateia um autógrafo ou vinte, que não deixa de sorrir aos muitos adeptos que lhe dão palmadinhas nas costas e lhe dizem "tens de ficar!", pára por momentos, coordena ideias e, depois, em jeito claro de ter encontrado as palavras certas para expressar o que lhe vai na alma, deixa escapar: "O que quero mesmo é ficar no Benfica. Já disse isso muitas vezes. Espero que todos me ouçam."

Pronto: o mote da conversa já estava sobre a mesa. Todo. Bossio quer ficar mas falta o dinheiro para permitir que se ponha o "preto no branco" nos gabinetes dos organismos que têm por missão dar luz verde -- ou não -- para que a inscrição se faça. E neste compasso de espera longo, longo, os dirigentes do Estudiantes já ameaçam com o regresso imediato à Argentina. Ir ou ficar? Deixar que o sonho "morra na praia" ou enfrentar a incerteza sempre com a esperança de que "amanhã será outro dia"? Em que ficamos?

"Tenho tido, através do meu representante, várias conversações com os dirigentes do Estudiantes e sei que eles, possivelmente, irão pressionar para que regresse à Argentina. Mas tudo isso, ainda, a verificar-se, irá levar o seu tempo. Há um montão de coisas que terão de acontecer para que possa regressar. É evidente que sou profissional e não poderei ficar aqui contra a vontade dos dirigentes do clube que detém o meu passe mas o meu coração está aqui, o meu sonho é ficar no Benfica! Tudo isso é claríssimo, tudo isso eles sabem desde a primeira hora, porque tive convites de outros clubes -- de Inglaterra, de Espanha -- e não os aceitei e, quando surgiu o Benfica, não olhei para trás, não hesitei.

Espero que eles entendam a minha vontade de jogar num grande clube, muito embora, pela minha parte, também compreenda que precisam de algum dinheiro para saldar contas e pagar a alguns jogadores que têm no plantel. No entanto, julgo que ainda há espaço para dialogar e se encontrar uma plataforma de acordo que satisfaça todas as partes.

Por mim, repito, a minha aposta europeia passa pelo Benfica."

-- Acordos tem havido mas, depois, o tempo passa sem que o acordado se cumpra...

-- As dificuldades não são exclusivas do Benfica. O importante é que as partes dialoguem e se entendam.

-- Porquê esse desejo pelo Benfica?

-- Porque o Benfica era a equipa com maior prestígio, a mais conhecida na Argentina, com maior cartel europeu e, naturalmente, a que mais rapidamente me poderia projectar no futebol europeu, o patamar sempre desejado por qualquer jogador sul-americano.

-- Mas, depois...

-- Depois, o quê? Estou aqui muito contente e a minha vontade é continuar aqui, poder jogar e poder brindar às pessoas o que estas realmente esperam do Bossio. Indiscutivelmente. Não é preciso estar a repetir isso, porque se assim não fosse já teria feito as malas e ido embora. Se não o fiz, se estou a fazer força para continuar, é porque me sinto bem onde estou.

-- Só que as ordens dos dirigentes do Estudiantes podem não deixar margem para outras soluções...

-- Até lá...Tenho lido e ouvido essas coisas, mas até agora nada me foi comunicado sobre essa situação.

-- E quando isso acontecer?

-- Certamente que o meu representante tratará das coisas. Não será coisa fácil, porque tenho um contrato com o Benfica e não devo voltar assim as costas ao clube a que estou vinculado.

-- Só que não poderá jogar...

-- É verdade. Infelizmente. Por isso, tenho esperanças que o espaço para dialogar que ainda existe possa ser aproveitado de forma a ver satisfeitos os meus desejos que o mesmo será dizer, continuar no Benfica, cumprir o contrato que assinei. A minha vontade é que tudo se resolva rapidamente, fazer tudo bem, embora, para isso, vou repetir-me, haja que esperar mais algum tempo. O meu representante está a tratar das coisas, está a trabalhar nesses assuntos e o que ele me disser será aquilo que farei.

-- E se ele disser para regressar?

-- Vamos esperar. Ele sabe muito bem o que eu quero.

VIDA DIFÍCIL

Para um profissional de futebol que quer escancarar as portas da Europa, treinar, apenas, não pode ser "modo de vida". Bossio sorri quando lhe colocamos tal argumentação. Compreende-a, mas rapidamente encontra meios de a contornar.

"Claro que não posso jogar. É muito difícil viver uma situação dessas, realmente. Uma vida difícil, sim senhor. No entanto, sei muito bem o que quero, sei que terei de percorrer esta etapa complicada para poder chegar ao meu objectivo e, por isso, não há que olhar para trás. Tenho "ganas" de trabalhar mais e mais, de não me deixar abater por esta contrariedade.

Posso acrescentar que os meus colegas me têm apoiado de uma forma excelente, que me têm dado o moral necessário para não "cair". A mesmíssima coisa tenho recebido dos dirigentes e de todo o corpo técnico. Ora, isto é muito bom. Não deixa que o moral desça e quando subo ao relvado para treinar, levo a mesma vontade, o mesmo empenho como se estivesse a discutir o lugar para o próximo jogo. Só que, realmente, sei que não posso jogar..."

-- Que diz Jupp Heynckes?

-- Não tenho falado muito com ele mas tenho lido o que tem dito nos jornais. Claro que temos trocado algumas palavras, mas não muitas. Ele sabe como me sinto e, para mim, é muito importante ter o apoio do técnico. É claro que a situação que o Bossio vive hoje, amanhã poderá viver outro qualquer.

-- E Vale e Azevedo que lhe tem dito?

-- Falou comigo na passada sexta-feira e voltou a dizer-me para estar tranquilo que tudo estava prestes a solucionar-se. Também são palavras importantes que mais vontade me dão para trabalhar e me aumentam o desejo de querer continuar aqui.

-- Porquê tanto desejo de ficar no Benfica?

-- Não sei se foi amor à primeira vista, mas sei que logo que aqui cheguei confirmei com os meus olhos a ideia que fazia deste grande clube. Foi isso. Depois, a forma carinhosa como fui recebido, a maneira simpática como as pessoas me tratam, apesar -- e isso é importante -- de não poder jogar, de não poder ajudar o clube, de não poder suar a camisola pelo clube. Os sócios, nos finais de treino ou quando me encontram na rua, vêm ter comigo e dizem para ter calma, que não me vá embora e que tudo se irá resolver. Na Argentina isto não aconteceria, seguramente! Creio que qualquer jogador gostaria muito de jogar no Benfica, de estar aqui. E o Bossio não é excepção. Agora só me resta poder corresponder, depois de tudo solucionado, em absoluto, a tudo o que a massa associativa espera de Bossio. É a minha maior vontade

-- Surpreendido com a grandeza do clube?

-- Muito. Na Argentina diziam-me que era um dos grandes clubes portugueses, mas devo confessar que não pensava fosse como é. Superou as minhas expectativas. No fundo, são todas estas coisas juntas que me fazem pensar como penso.

-- Três meses de inactividade competitiva. Muito tempo...

-- Já só faltam dois. Mas é como disse: tenho vontade de ficar aqui, de continuar no Benfica e, por isso, não serão esses dois meses que irão anular a minha vontade. Estou preparado para tudo, mentalizado para ultrapassar essas fases todas e, na altura própria, poder respirar melhor. Sei que, em termos práticos, é muito tempo sem competição e no futebol, quando se está tanto tempo sem o ritmo competitivo, depois, as coisas demoram mais tempo a chegar. Por isso mesmo é que procuro trabalhar como se o meu lugar estivesse em jogo, treinar bem para, em Dezembro, poder responder às exigências da equipa.

"NÃO RECEBI NENHUM TELEGRAMA"

Verdade ou não, o que é certo é que correm rumores que da Argentina já terá sido enviado um telegrama com teor perfeitamente claro: "Regresso imediato à Argentina." A ser assim...

"O que lhe poderei dizer sobre isso? Já afirmei que não tive quaisquer directrizes nesse sentido. Não, não recebi nenhum telegrama. Porém, acredito que o venha a receber, que isso possa acontecer, mas até este momento, não é verdade."

-- Quando o receber, que vai fazer?

-- Assim que o receber irei entregá-lo ao meu representante. Ele é que saberá o que fazer. Por isso é meu representante e para isso estudou. Eu não estudei nada, a única coisa que sei fazer é jogar futebol. A mim compete-me treinar bem e jogar e, a ele, terá de tratar dos assuntos que têm a ver com o Estudiantes e com o Benfica. Naturalmente que não me posso alhear das coisas, quero estar informado do que se passa, mas preciso, acima de tudo, de ter a cabeça no sítio para poder trabalhar o melhor possível. Se não conseguisse criar, minimamente, essas condições, pior seria mais tarde, quando tudo estiver resolvido.

-- Que impressão do futebol português?

-- Muito diferente do argentino. Aqui trabalha-se mais e, em minha opinião, melhor. Falo pelo que vejo fazer no Benfica, não sei se nos outros clubes se trabalha de igual modo. O técnico do Benfica é muito exigente, trabalha sempre no duro. É a escola alemã e, por isso mesmo, exigente e recto.

-- Quando Jupp Heynckes o viu, na Argentina, que lhe disse?

-- Foi uma conversa simples. Perguntou-me se estava interessado em vir para o Benfica, se tinha vontade e nada mais.

-- Há mais argentinos no futebol português e nomeadamente em Lisboa...

-- Sim, o Rojas, o Quiroga, o Duscher, Acosta. E pelo que sei estão todos muito bem. Isto é a prova de que os jogadores sul-americanos gostam de vir para a Europa. É outro futebol e onde se ganha mais dinheiro.

-- Tem havido algum convívio entre vocês?

-- Por enquanto, não.

ANSIEDADE EM JOGAR

Passam os dias, as semanas e os meses. Os treinos não chegam, as ilusões aumentam. Na hora da verdade -- se o acordo se fizer e Bossio suba ao relvado com a camisola 1 vestida -- não sentirá sobre o seus ombros um peso maior do que aquele que sentiria se nada desta "espera" tivesse acontecido?

"Não, julgo que não será uma questão de mais ou menos responsabilidade, de maior ou menor peso da camisola. O que acontece, volto a frisá-lo, é que poderei não ter o ritmo que deveria ter e isso demore um ou dois jogos a ambientar-me à equipa "em jogo". Não é a mesma coisa treinar com a equipa e jogar. Parece, mas não é."

-- Um risco?

-- Esperemos que não haja risco nenhum. Só espero que quando tiver a oportunidade de jogar as coisas me saiam bem.

-- Uma tónica mantém: só fala de jogar no Benfica.

-- Pois só. Se é aqui que quero continuar, porque haveria de falar noutro clube?

-- Estas são as reacções do jogador Bossio. E o homem? Depois dos treinos, no ambiente caseiro, o que vai por essa cabeça? Tranquilidade? Serenidade? As mesmas convicções que aqui deixou expressas?

"Claro que é impossível não pensar. Não posso -- como já aprendi em Portugal -- meter a cabeça na areia e deixar que tudo passe à minha volta sem eu ver. É impossível. Certamente que ninguém gostaria de viver os momentos que vivo. É uma situação que dói um pouco e, felizmente que tenho a minha esposa comigo, os meus pais na Argentina mas com os quais falo constantemente por telefone, tenho o meu representante, tenho amigos, tenho os meus companheiros de equipa, do Benfica e todos me dão uma força extraordinária para encarar a situação, para dominar a ansiedade em saber se é hoje ou amanhã que as coisas se resolvem."

-- Difícil...

-- Difícil é pouco! É muito difícil. Mais: os únicos momentos de tranquilidade total são aqueles que passo nos treinos, porque nunca poderia deixar de render e de trabalhar como os meus colegas e o corpo técnico quer, eles que tanta força têm mostrado para que eu continue aqui. Depois, no regresso a casa, não posso ignorar a realidade. Até nas coisas que tenho de comprar para a casa penso duas vezes: se vale a pena ou se será para vender daí por uns tempos.

-- Esperar até Dezembro? É o que diz ao seu representante?

-- Não lhe faço essas perguntas. Manifesto-lhe a minha vontade e essa é, por agora, ficar aqui.

-- Mais um dia que passa...

-- É isso. Mais um dia em Portugal. Agora há que pensar dessa maneira e acreditar que, nalgum dia, receberei a notícia de que tudo está bem e que os homens se entenderam.

PORTUGAL MERECE O EUROPEU

Bossio é argentino mas viveu como todos os colegas -- e todos os portugueses, naturalmente -- a vitória de Aachen. Uma vitória com várias vertentes mas com reflexos imediatos no espírito de jogadores, treinadores, dirigentes...

"É verdade que sou argentino mas, agora, estou em Portugal e este triunfo foi uma coisa muito importante. Concordo muito com aquilo que o Vítor Baía disse: se o Europeu fosse para Espanha, nada mudaria; vindo para Portugal, será muito importante para todos, não só pelas infra-estruturas que vai obrigar a criar como, principalmente, pelas melhorias que se irão produzir a todos os níveis. Certamente que todos os portugueses, mesmo aqueles que possam não gostar de futebol, irão unir-se para demonstrar que Portugal tem capacidade para poder pôr de pé uma grande prova e dar uma imagem que permita ver todas as suas belezas."

-- Também se sentiu feliz pela escolha portuguesa?

-- Sim, sem dúvida. Mesmo sendo argentino, vivo em Portugal e conto cá estar alguns anos. Os meus companheiros são portugueses, a maioria das pessoas que conheço e com quem convivo é portuguesa e sabia que estavam esperando esta decisão com muita ansiedade e, ao mesmo tempo, com muita confiança. Se eles ficaram contentes eu, de forma normal, comunguei com essa alegria."

ROJAS É UM GRANDE JOGADOR

Vieram do mesmo clube mas a sorte foi diferente: um joga e o outro só treina.

Que pensará Bossio do colega Rojas?

"Que é um excelente companheiro, um excelente jogador que irá provar no Benfica todo o seu valor. Naturalmente que tenho o desejo de continuar a jogar com ele. Não se esqueça que somos colegas há cinco anos e, entre nós, cimentou-se uma amizade muito sólida, muito grande. Tem-me dado muito apoio, dizendo-me que tudo se irá solucionar e para não pensar muito nas coisas. Aliás, neste sentido estou muito feliz, já que não há ninguém que não me anime, que não me transmita palavras de incitamento. E o que isso ajuda!"

PORTUGAL É MARAVILHOSO

E Portugal? O sol, o calor humano que sempre o rodeia -- ou não fosse ele jogador de futebol --, condimentos importantes para uma adaptação tão rápida quanto possível. Factores que podem ajudar a matar as saudades da "sua" Argentina...

"É um país encantador que me impressionou muito. É um povo prestável, que gosta sempre de ajudar, de apoiar. Lisboa -- que vou conhecendo pouco a pouco -- e o seu clima, também ajudaram a que me sentisse bem e não queira ir embora.

Poderá parecer que estou a ser simpático mas não. Não creio que não haja nada que não se goste. Tem todas as condições para se viver tranquilamente."

-- E quando à alimentação?

-- Na Argentina também se come muito bem, há muito boa carne, embora não haja muito peixe. Mas em Portugal há peixe muito bom.

-- Peixe?

-- Sim. Gosto muito do bacalhau -- e de quantas maneiras se pode comer! -- até ao robalo. Mas sou uma pessoa que gosta de quase todos os pratos, embora, naturalmente, tenha preferência por alguns.

-- Quais?

-- Gosto muito de robalo grelhado, polvo -- que delícia! -- e das sopas.

COSTA SANTOS

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