Das dificuldades em miúdo à balança com que pesava os alimentos no Benfica: Luisão conta tudo

Antigo capitão do Benfica discursou na Universidade de Cabo Verde

Luisão discursou na Universidade de Cabo Verde, onde está de visita desde sexta-feira integrado na comitiva de Luís Filipe Vieira, contando algumas histórias que marcaram a sua carreira. O antigo capitão das águias tem sido dos mais requisitados pelos adeptos do Benfica.

Começo no futebol: "Ser campeão exige muito sacrifício, rigor, disciplina, responsabilidade e, acima de tudo, caráter. O meu sonho começou aos 5 anos, descalço, na minha cidade (Amparo). Um dia, na inauguração da escola de futebol do meu pai, só apareci eu e ele. Frustrado, disse-lhe: ‘pai, não apareceu ninguém por isso vamos para casa'. Ele respondeu: ‘Pai sou em casa. Aqui, sou teu treinador. Por isso, começa a correr’. Foi ali que percebi que o nosso sonho não era uma brincadeira. Tínhamos de andar 10 quilómetros para ir treinar e fazer outros tantos para voltar para casa, mas não me lembro do cansaço ou da fome que às vezes sentia. Lembro-me que quando faltavam 200 ou 300 metros para chegar à escola, as crianças corriam para abraçar o meu pai. Ele é o meu ídolo. Comecei a empenhar-me na minha carreira e acabei por ir para a Juventus, um clube pequeno da Cidade de São Paulo. Ganhava 100 euros e mandava tudo para a minha mãe. Ganhei na parte do futebol, mas perdi na vertente familiar devido à distância. Na altura economizava dinheiro para as viagens e uma vez enganei-me a comprar o bilhete. Por isso, nesse dia, fiquei sem dinheiro para passar o dia da mãe com a minha família. Na estação, vi uma senhora a passar e resolvi ir falar com ela; ela, assustada, escondeu a bolsa com medo de ser assaltada. Comecei a chorar, mas ela acabou por vir ter comigo e disse-me que acreditava na minha história. E deu-me o dinheiro que precisava para ir para casa. Este momento não reflete a importância do dinheiro em si. Em determinado momento das nossas vidas vamos precisar de ajuda… Por isso, nunca devemos ter vergonha de pedir ajuda e de ajudar."

Cruzeiro: "Quando cheguei aos juniores do Cruzeiro, havia treinos com a equipa principal. Num dos jogos com os seniores, lembro-me que tudo o que eu fazia era falta. Não podia nem sequer respirar... Cheguei ao pé do 'bandeirinha' e disse-lhe tudo. O Scolari, que na altura era o treinador do Cruzeiro, viu aquilo e chamou-me ao gabinete dele. E aí foi ele a dizer-me tudo… Fez-me ver que se pensava que ia conquistar alguma coisa assim, não ia ganhar nada. Só tive tempo de pedir desculpa ao Felipão. No dia seguinte, apresentei-me para treinar, mas já não tinha o meu equipamento no balneário. Pensei que o sonho tinha acabado… Mas na verdade era para ir treinar com a equipa principal. Conclusão: o Felipão deu-me uma aula de humildade e respeito. No final, conquistámos vários títulos e ele convocou-me para a seleção brasileira em 2001".

Benfica:  "Depois vim para um grande clube da Europa, o Benfica. Para sermos vencedores temos de saber lidar com a pressão e ter visão, estratégia e objetivos. Devo dizer que nunca competi contra ninguém: fui sempre eu contra mim mesmo. Queria ser uma pessoa melhor, um jogador melhor, um pai melhor e um capitão melhor. Coloquei o objetivo de ser o primeiro a chegar ao treino e o último a sair. Quando alguém chegava primeiro eu ia 10 minutos mais cedo. Excetuando quando era o Eliseu, que se calhar ia de mota… [risos]. Na altura, comecei a andar com uma balança, a pesar os alimentos que ingeria. Havia fila para o almoço… Tinha tudo para ser ridículo, mas os pormenores são uma coisa muito importante. E passado algum tempo, vários jogadores começaram a pesar a comida comigo".

As lesões no braço em 2016: Na altura estava muito bem, tanto tecnicamente como fisicamente, e parto o braço. As pessoas diziam que já não iria voltar a ser o mesmo. Isso mexeu connosco e um dia, ao chegar a casa, vejo a minha mulher a chorar. Resolvi tirar umas férias e levei toda a minha família. Eu ia treinar duas vezes por dia e não conseguia tirar uma coisa da cabeça: a minha mulher a chorar e as pessoas a dizer que já não voltaria a ser o mesmo. Mas o sonho só ia acabar quando eu decidisse. Tive a oportunidade de voltar, ajudei a conquistar mais títulos e hoje sou conhecido como capitão do tetra.

Por Alexandre Moita
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
SUBSCREVA A NEWSLETTER RECORD GERAL
e receba as notícias em primeira mão

Ultimas de Benfica

Notícias

Notícias Mais Vistas

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.