José Mourinho: «Vilarinho não manda nada no Benfica»

TÉCNICO CONTA TUDO SOBRE A SAÍDA DO BENFICA

José Mourinho, em longa entrevista a “Record”, rompe o silêncio depois da saída do clube da Luz. O treinador dos encarnados revela, de forma frontal e directa, os dias conturbados que viveu na Luz após a chegada da nova Direcção e conta vários episódios exemplares do clima de guerra-fria que se instalou entre a equipa técnica e os novos dirigentes até à consumação do divórcio anunciado, num dia que tão cedo os adeptos do emblema da águia não esquecerão. O ex-treinador dos encarnados refuta ainda ter feito qualquer acordo com Luís Duque para ir treinar o Sporting e sobre Manuel Vilarinho diz que há no Benfica quem tenha poder para ir além da vontade do presidente. Fala mesmo em investidores como aqueles que definem a política de contratações para o futebol dos encarnados
José Mourinho: «Vilarinho não manda nada no Benfica»

– Saiu do Benfica para ir para o Sporting?
– Não. Quem esteve atento e acompanhou com atenção e perspicácia a forma implícita e maliciosa como eu nas conferências de Imprensa, semana após semana, dava a entender que as coisas não estavam bem, pode compreender que desde o princípio se estava a caminhar a passos largos para um desenlace como este.

– Mas o Benfica acusou-o de ter saído para ir para o Sporting e falou, inclusive, de uma reunião que terá tido com Luís Duque, na terça-feira. João Malheiro foi à sala de Imprensa dizer isso...
– É mentira. A última vez que cumprimentei o dr. Luís Duque foi no banco do Sporting antes de o jogo começar. Antes disso, desde que fui para Barcelona, não tive o mínimo contacto com o dr. Luís Duque. Refuto totalmente as afirmações de João Malheiro. O que ele pode afirmar, efectivamente, é que o confrontei com uma medida de pressão: a possibilidade de sair do Benfica para outro clube. Mas refuto, totalmente, que tenha havido qualquer coisa com o Sporting.

– Tinoco de Faria afirmou que Mourinho ameaçou a Direcção encarnada que celebraria contrato com outro clube que lhe oferecia mais dinheiro que o Benfica...
– É mentira. É ridículo que se fale em dinheiro. A nossa cláusula de renovação automática do contrato especificava as mesmas condições contratuais para a temporada seguinte, sem uma única modificação a nível económico, tanto no meu caso como no caso do Mozer. Quero aqui deixar bem claro que a única razão que me levou a tomar esta posição foi pensar, mais que em mim próprio, no grupo. A equipa precisava de tranquilidade, os jogadores precisavam saber se o treinador continuava ou vinha outro. O grupo vivia sempre numa permanente angústia em relação ao futuro.

– Ainda o tema-Sporting: o Benfica diz que tem provas testemunhais de que se encontrou com Luís Duque...
– Que as apresente. Se tem provas, que as apresente. Estou totalmente à vontade para dizer que não é verdade.

– Acha que o Benfica proferiu essas declarações para se justificar perante os sócios?
– No dia da nossa saída, creio que o Benfica teve uma prova muito clara que a medida não tinha sido popular e que as pessoas estavam claramente do meu lado e do lado do Mozer. Daí as manifestações de apoio que recebemos naquele dia. E para apagarem a má imagem com que ficaram os responsáveis por este processo ter chegado ao fim da forma que chegou, decidiram denegrir a nossa imagem fazendo passar para fora uma mensagem que não tem nada a ver com a realidade. Falar-se do Sporting é ridículo, falar-se de dinheiro é ridículo também. Deveriam ter a decência e a hombridade de se centrarem naquilo que é de facto o fulcro da questão: a campanha eleitoral.

– Está a referir-se à promessa eleitoral de Manuel Vilarinho de que Toni seria o treinador dele caso ganhasse as eleições?
– Não me move absolutamente nada contra o presidente, no sentido em que um candidato a presidente tem toda a legitimidade para durante a campanha eleitoral poder utilizar todos os argumentos para tentar ganhar, tem toda a legitimidade para no período pós-eleitoral ter a preferência por este ou por aquele treinador. Mas quando o presidente disse, “o meu treinador não é Mourinho. É Toni. Não sei quando será, mas vai ser”, a partir dessa altura, estava instalado o clima de desconfiança.

– Saiu do Benfica mal impressionado com Manuel Vilarinho?
– Não. Saí bem impressionado com o presidente. Agora saio com a noção clara de que ele foi claramente impotente para deter um processo que teve início na campanha eleitoral. Tenho a noção, pelos poucos contactos que tive com o presidente, que ele estava contente com o nosso trabalho e que gostaria que nos tivéssemos encontrado em situações diferentes. Na nossa última conversa, o presidente reconheceu que tudo isto tinha começado na campanha eleitoral, e que em campanhas eleitorais há coisas que se fazem e dizem que depois muitas vezes são irreversíveis. Notei da parte dele uma certa tristeza pela forma como as coisas terminaram. Mas senti-o completamente impotente para mudar...

– Isso significa que alguém no Benfica tem poder para ir além da vontade do presidente?
– Em absoluto. Numa campanha eleitoral, seja ela a nível político ou desportivo, há sempre facturas a pagar, há sempre compromissos que se têm como irreversíveis. E com este fim fiquei elucidado sobre isso. Havia um compromisso com outro treinador e quaisquer que fossem os resultados os compromissos não podiam ser adiados. Não tenho dúvidas de que o presidente vive rodeado de pessoas com muito poder. Ele foi explícito comigo – e não só ele, também outras pessoas na estrutura – ao falar-me de investidores, quando a situação da nossa continuidade ainda estava em dúvida. O presidente pediu-nos tempo e paciência para que pudesse consultar outras pessoas da sua Direcção, e também os chamados investidores, aqueles que detêm o grande poder dentro do clube, não só económico mas também a nível desportivo.

– Com poder, inclusive, para escolher eventuais contratações?
– Também. Eu e o Mozer desabafávamos várias vezes um com o outro face à impotência que sentíamos ao ver a chegada ao clube de jogadores que não tínhamos indicado. Chegou-se, inclusive, ao cúmulo de jogadores serem apresentados numa sala contígua ao nosso gabinete e não termos sido informados disso. Só o sabíamos pelo ruído e pelo movimento que existia dentro das instalações. Nunca fomos informados da chegada de nenhum jogador nem tão-pouco do dia da apresentação, e muito menos da intenção de contratar. Cansados da falta de diálogo e da falta de respeito para com a figura do treinador e do seu adjunto principal decidimos entregar ao presidente e ao senhor António Simões um relatório detalhado sobre o plantel que tínhamos, e outro sobre jogadores e características de jogadores que gostaríamos de ver no plantel – por uma questão de coerência e princípio nunca indicamos nomes. Gostamos de ser independentes num processo que no futebol de hoje envolve muitas coisas – fomos de tal forma detalhistas que quando nos referíamos a um jogador referíamo-nos a características físicas, tácticas, técnicas, psicológicas.

– Houve alguma resposta?
– Nunca nos foi dada qualquer resposta. Por isso, no dia 28 de Novembro, tendo encontrado casualmente o senhor António Simões no clube, perguntei-lhe frontalmente se me ia dar o jogador que eu tinha pedido. Só tinha pedido um único jogador para este período de Dezembro.

– Para que lugar?
– Um jogador de meio-campo com características diferentes daquelas que tínhamos no plantel. Sabíamos que para aquela posição tínhamos um número muito reduzido de jogadores.

– Um trinco?
– Os ingleses chamam-lhe um "box to box player” [jogador de área a área], aquele jogador de meio-campo que tem características defensivas mas ao mesmo tempo tem andamento, ritmo, disponibilidade para subir no terreno.

– Uma espécie de Veron...
– Sim, pode-se falar dessa forma.

– O que lhe respondeu António Simões?
– Disse-me frontalmente: “Não, não lhe vou dar o jogador que você me pediu.” Perguntei-lhe porquê e foi-me respondido que quem detinha o poder nas contratações no Benfica eram os investidores. Que o Benfica vivia uma situação totalmente dependente de investidores, que quem detinha o poder económico é quem detinha o poder desportivo. E que essas pessoas queriam investir em jogadores que lhes pudessem dar frutos no futuro. Alguns dias mais tarde, o presidente reiterou-nos exactamente a mesma noção de funcionamento do clube. Já com o contrato rescindido, fiquei espantado quando o senhor António Simões se dirigiu a mim e disse-me, “agora que eu estava preparado para lhe dar o jogador que me pediu é que se vai embora”. Não sei que conclusão é que podemos tirar disto.

– Mas quem são esses investidores?
– Não faço a mínima ideia nem estou interessado em sabê-lo.

– Ficou com a ideia de que o presidente não detém o poder no Benfica?
– Foi o presidente que me transmitiu isso de uma forma muito explícita. Para resolver o problema do contrato tem de falar com os investidores e a Direcção, para resolver o problema das contratações, tem de falar com os investidores. Manuel Vilarinho não manda nada no Benfica.

– Não equacionaram a hipótese de apresentar o pedido de demissão logo que o novo presidente foi eleito?
– Quisemo-lo fazer no primeiro dia e o presidente recusou. Obviamente, todos sabemos por que recusou.

– E por que é que Manuel Vilarinho recusou?
– Porque naquele momento a equipa do Benfica não era uma equipa. Era um grupo de jogadores à procura de identidade, um grupo de jogadores muito longe de formarem uma equipa competitiva e com condições para ganhar. Aceitámos treinar aquela equipa porque tínhamos a confiança da anterior Direcção e sabíamos que íamos ter tempo para a sua construção sem qualquer tipo de pressão. Dia após dia, estávamos a ganhar confiança no trabalho que fazíamos e tivemos sempre, quiçá de uma forma inocente, uma réstia de esperança de que os resultados desportivos obrigassem as pessoas a modificarem a sua opinião.

– A ideia que passou para o exterior foi a de uma guerrilha permanente entre treinadores e Direcção...
– É um facto. Eu creio que eles ficaram um bocadinho surpreendidos connosco. E utilizando uma expressão que é do Carlos e de muitos brasileiros, eles pensavam que iam encontrar em nós duas vaquinhas de presépio: cada um no seu lugar, dali não se mexiam, de uma forma automática iam acenando com a cabeça, e sendo permissivos. Eles pensavam que estaríamos ali, faríamos o nosso trabalho o melhor possível, e ganhariam tempo até chegar Dezembro para reformular a equipa técnica. Ganhariam tempo para irmos perdendo a credibilidade que estávamos a ganhar junto dos sócios do Benfica. No fundo, para eles, era uma questão de tempo e de resultados. Enganaram-se. Encontraram pela frente pessoas com carácter e frontalidade suficientes para nos tornarmos incómodos. E tenho a certeza absoluta de que isso também foi uma das razões que levou a forçar esta situação. Estivemos quatro semanas seguidas a ganhar e a ver pessoas tristes. Estivemos quatro semanas seguidas a ganhar e a ver pessoas frustradas. Estivemos quatro semanas seguidas a ganhar e a sentir pessoas decepcionadas.

– Por pessoas, leia-se...
– A Direcção. Sentíamos que havia frustração por não poderem acelerar um processo que se via como inevitável. Senti desde o princípio que não era o treinador desta Direcção. Em nenhum momento senti o desejo de contrariar todo um ambiente que se criou à nossa volta, todo um ambiente de dúvida, em que creio que os únicos dois inocentes deste país que tiveram uma réstia de esperança de que no próximo ano poderiam continuar a ser os treinadores do Benfica, esses dois inocentes, sonhadores ou anjinhos, como queiram chamar, chamam-se José Mourinho e Carlos Mozer. Qualquer pessoa ligada ao futebol em Portugal e que tenha acompanhado a campanha eleitoral, as minhas conferências de Imprensa, a forma como o Benfica contratava, todas as conexões que existiam entre diferentes forças dentro do futebol benfiquista, via que nenhuma das situações foi inocente. Repito: os únicos anjinhos que sonharam que fosse possível alterar o rumo dos acontecimentos fui eu e o Mozer.

– Isso quer dizer que viram a Direcção mais satisfeita depois da derrota com o Marítimo do que após a vitória em Guimarães?
– Vou dar um exemplo: antes de um determinado jogo, um director do Benfica, que não quero identificar, porque senão teria de identificar o director de outro clube, disse claramente a um dirigente adversário: “A ver se nos ganham que é hoje que eles vão.” Houve várias situações que foram muito claras em relação à não empatia que não existia com a equipa técnica.

– Por que razão escolheu o pós-derby para pressionar a Direcção a activar a cláusula de renovação do contrato?
– Pela mesma razão que os dirigentes fecham as portas aos treinadores após as derrotas. Não consigo perceber onde está a diferença de um treinador pressionar a sua direcção após um ciclo de bons resultados, e uma direcção que aproveitando um ciclo de maus resultados despede os seus treinadores. Quando me dirijo à Direcção a pedir a activação da cláusula de contrato como condição para continuarmos é evidente que o faço consciente que muitas pessoas, injustamente, acusar-me-iam de estar a utilizar um bom momento. Mas o que fazem as direcções? Não utilizam os maus momentos para atingirem os seus objectivos? Se continuássemos a ser os treinadores do Benfica alguém tem dúvida que um ciclo de maus resultados nos levaria ao despedimento? Quando fiz aquilo que fiz não foi a pensar na minha situação pessoal, mas no grupo.

– Estava mesmo à espera que accionassem o contrato?
– Não estava à espera, mas tinha uma secreta esperança que estes resultados e a onda de empatia que existia entre o grupo e os sócios podia conduzir a essa situação. Mas no fundo era a secreta esperança das pessoas que trabalham e que esperam que o seu trabalho seja reconhecido. Isto serviu para confirmar tudo aquilo que toda a gente sentia que existia. Não quero estar a enumerar ponto por ponto todas as situações que nos empurraram, mas...

– O “caso Sabry” foi o primeiro. Numa entrevista teceu críticas duras ao treinador Mourinho.
– É uma situação que interpreto como uma acção deliberada. Uma tentativa conjunta para fazerem com que perdêssemos o controlo disciplinar dentro do balneário. Sabry é um jogador inocente, que não tem um bom conhecimento nem da língua portuguesa nem de qualquer língua europeia. Um jogador que foi acompanhado a essa mesma entrevista pelo seu empresário, por sinal um empresário que não entrava no Benfica antes das eleições e que começou a deter poder dentro do clube pela sua participação na campanha eleitoral. Daí a nossa reacção de uma forma tão frontal, tão directa e, se quiser, agressiva – eu até aceito algumas críticas que me foram feitas nesse sentido. Mas aquilo que eu disse foi muito pensado da nossa parte. Sabíamos os objectivos que queríamos atingir, sabíamos que as críticas iriam surgir, mas o grande objectivo era na hora em que queriam que perdêssemos a força dentro do balneário nós iríamos duplicá-la. Foi uma aposta muito forte nesse sentido.

– Qual foi a reacção da Direcção ao “caso Sabry”?
– Desde a entrevista do Sabry passando pela nossa reacção, nunca houve um único comentário da Direcção a essa situação. Nem houve a protecção do grupo e a consequente acção disciplinar perante um jogador que, induzido ou não, teve uma atitude não compatível com as funções de jogador profissional. A Direcção ficou de fora, à espera do desgaste do treinador e, eventualmente, dos resultados desportivos para automaticamente terem alguma manobra para agir. Só que ganhámos ao Farense. Mas na semana seguinte surge o problema Dani. É, então, pela primeira vez, após o “caso Sabry”, que nos encontramos com o presidente. Tivemos uma reunião muito demorada, toda ela a debater o “caso Dani”, e uma vez nem uma única palavra referente ao “caso Sabry”.

– Nessa reunião com Manuel Vilarinho, veio a público que o presidente teria dado uma reprimenda a José Mourinho...
– Não corresponde à verdade. Mais: na sequência disso, aí sim, pode-se falar de um ultimato, disse ao senhor presidente: “Ou desmente o cartão amarelo ou já não vou treinar.” Temos 28 testemunhas: os jogadores. O treino ia iniciar-se às 11 horas da manhã, e estávamos vestidos de uma forma não desportiva na frente de todos os jogadores, no balneário. E dissemos-lhes: “Não vamos treinar, nem vamos a Guimarães enquanto não houver um desmentido.” Não demorou nem dez minutos a que cedessem a essa pressão, a esse ultimato. João Malheiro foi à conferência de Imprensa desmentir tudo. Portanto, quando se diz agora que a razão pela qual não foi aceite o nosso pedido de activação da cláusula contratual foi porque apresentámos um ultimato à Direcção, a verdade é que apresentámos um ultimato, mas foi antes.

– Consta que na viagem para Guimarães também houve problemas, a nível logístico.
– Na deslocação para Braga, onde ficávamos a estagiar, nenhum elemento da Direcção acompanhou a equipa, o que não é normal. Qual é o nosso espanto quando chegamos a Braga e deparamo-nos com a situação de não haver lugar para todos. Alguns tinham de ficar num complexo próximo, pertencente à mesma unidade hoteleira. Quando a recepcionista nos mostrou a listagem de quartos foi com espanto que elementos do departamento médico, que são fulcrais, e alguns jogadores ficavam separados, enquanto no nosso complexo ficaria todo o “staff” directivo que não tinha viajado com a equipa. Tomei uma posição de força no hotel e a recepcionista foi obrigada a fazer modificações na distribuição dos quartos de modo a ficarmos todos juntos.

– Sentiu que em Guimarães tinha o lugar em perigo?
– Fiquei com a ideia clara que depois do que tinha acontecido durante a semana, depois do ultimato a que eles cederam, se perdêssemos em Guimarães íamos embora. Mas a equipa teve uma reacção fantástica e ganhou da forma que ganhou. Vi um grupo de jovens jogadores eufóricos e a sentir, quiçá, que aquele tinha sido um jogo de uma viragem importante na dinâmica da equipa. Mas vi muita gente à nossa volta frustrada.

– Apesar dessa vitória e do triunfo em Campo Maior, no estágio para o jogo com o Sporting, ao que parece, voltaram a surgir problemas logísticos.
– Quando estagiávamos em Lisboa, costumávamos ficar no Meridien. No caminho Luz-Hotel, nunca passávamos pelo Marquês de Pombal. Mas naquele dia fizemos o trajecto descendente em direcção ao Marquês. Eu pensava que tinha sido uma situação casual e íamos terminar no mesmo sítio. Qual foi o nosso espanto quando parámos em frente ao Hotel Altis. Confesso que tive uma pausa de alguns segundos, mas que me pareceram uma eternidade, em que pensei seriamente mandar toda a gente para casa, em que pensei dizer aos jogadores para nos encontrarmos no estádio antes do jogo com o Sporting. Só que tive a pressão de se ir jogar um “derby” importante e mediático e não quis, por uma posição de força minha, mexer com o equilíbrio da equipa e depois correr o risco de a equipa perder concentração e tudo aquilo pelo qual tínhamos lutado durante a semana. E a prova que não estou a mentir é que induzi em erro o jornalista da RTP. Pediu-me autorização para ir fazer uma filmagem ao nosso tradicional passeio. Informei-o de que iriam estar em estágio no Meridien e que o passeio seria no Parque Eduardo VII às 11.30. Fiquei bastante triste quando no dia seguinte, à porta do hotel, estava a SIC e a RTP não estava, tendo sido eu responsável, indirectamente, por essa falha.

– Recebeu alguma justificação por parte de algum elemento da Direcção?
– No dia seguinte, o senhor João Salgado, que não sei se hei-de chamar o braço direito do presidente ou mais do que isso, chegou ao hotel e perguntou se estávamos a gostar da mudança. Eu respondi-lhe: “Desde que não seja para uma pensão ou residencial de mau nível, para mim não é um problema mudar. Não sou supersticioso, não ligo a essas coisas de que temos de estar sempre no mesmo sítio para ganhar. O que é ridículo e vergonhoso é o treinador não saber. A resposta foi evasiva. Ainda voltei a perguntar se sendo este o hotel onde o FC Porto faz estágio quando joga em Lisboa, se isso significava que quando o FC Porto jogar em Lisboa é o Benfica que, na sua casa, na sua cidade, vai ser obrigado a mudar de hotel. Respondeu-me que sim e que se o V. Guimarães vier para este hotel o Benfica também terá de mudar.

– O director-geral não é um elemento próximo da equipa?
– Por diferentes razões, o senhor António Simões não foi um elemento próximo da equipa. Tivemos um almoço com ele, logo à sua chegada, em que lhe foi entregue o tal documento onde analisámos o plantel e especificámos as necessidades. A partir daí, foram sempre encontros esporádicos.

– Perante tudo isso, com que espírito encarou o jogo com o Sporting?
– Fui para o jogo com o Sporting a pensar naquilo que sempre penso: no jogo em si. Felizmente tenho ao meu lado uma pessoa que pensa como eu, o Carlos Mozer, independentemente das condições. O futebol fez-se para jogar para ganhar e para viver os noventa minutos que é o mais bonito que existe na nossa profissão.

– No final do jogo não foi à conferência de Imprensa. Nem o Mourinho nem o Mozer. Qual a razão?
– No final do jogo houve um acumular de situações. Cansaço e rouquidão. Sim, houve quem brincasse com isso, mas houve cansaço e rouquidão. Depois, se eu gosto que os meus colaboradores sejam actuantes, responsáveis, se sintam culpados das vitórias e das derrotas, por que razão não serem eles meus legítimos representantes nas conferências de Imprensa? Se eu como adjunto de Bobby Robson e Louis Van Gaal fui “ene” vezes a conferências de Imprensa, onde está o crime de um adjunto meu ser por mim indicado para ir falar. Houve quem ficasse histérico com a situação.

– É verdade ou não que lhe pediram para ir à conferência de Imprensa agradecer à Direcção ter pago os ordenados?
– Pediram-me para ir à conferência de Imprensa para ir elogiar a Direcção pelo facto de, sob o ponto de vista económico, todas as situações estarem resolvidas, assim como dedicar parte da vitória à Direcção. Assim como também é verdade que eu tinha a minha família fora de Portugal há uma semana e que quando o jogo acabou lhes telefonei – peço desculpa, mas por todo o respeito que a comunicação social e os sócios do Benfica me merecem, é muito mais importante falar com a minha mulher e os meus filhos que já não via há uma semana, e logo depois de uma vitória daquelas. As pessoas que ficaram em histeria por eu não ir à conferencia de Imprensa estiveram dentro do meu gabinete e viram-me repimpado na minha poltrona com os pés em cima da mesa a falar com a minha mulher e os meus filhos. Tudo isso é verdade e não vejo onde está o drama de não ter ido à conferência de Imprensa.

– Quando é que informou o presidente da proposta para accionar a cláusula da renovação?
– Na segunda-feira, apresentei-lhe a proposta por telefone. O presidente disse-me que tinha de falar com algumas pessoas, principalmente com os investidores. Eu disse-lhe: “Mas o senhor hoje à noite tem reunião de Direcção”, ao que ele respondeu: “Quero que isto seja sigiloso. Tenho de falar com os investidores.” No dia seguinte, quando entrámos no gabinete do presidente, já com toda a gente a perceber mais ou menos o desenlace final – ouvíamos toda a algazarra e as reacções que estavam a acontecer por parte do público –, dissemos ao presidente: “Toda a gente, lá em baixo, está à espera de uma conferência de Imprensa para confirmar a nossa saída, toda gente está exaltada e triste, você tem a possibilidade de alterar tudo isto. Accione a cláusula e vamos à conferência de Imprensa, anunciar a nossa renovação. É uma injecção de moral nas pessoas. De tranquilidade no grupo.” Isto às 19.30 horas, 20 horas. E ele disse-nos: “Não posso fazê-lo.” Antes disto acontecer, já o meu telefone tinha tocado e já me tinham informado de que o António Veloso tinha falado a confirmar a ida pare o Benfica. Quisemos ter a certeza do futuro e tivemo-la de uma forma tão espontânea. Aceitaram a situação como um facto consumado. É por isso que prefiro ser acusado, como alguns eventualmente me acusam, de me ter utilizado de um bom momento, de não ter sido humilde, de ter sido prepotente na forma como abordei a questão, do que ser acusado de coitadinho. Terem muita pena do coitadinho do Mourinho, que perdeu em Alverca e empatou com o Gil Vicente, hipoteticamente, e levou um pontapé no rabo. Prefiro ser visto por algumas pessoas como prepotente, antipático, arrogante, o homem que utilizou um bom resultado para fazer um determinado tipo de pressão, do que ser visto como o coitadinho que foi enganado, que ficou no Benfica a sonhar que poderia cair do céu, aos trambolhões, uma estrela que o encaminhasse para mais um ano de contrato.

– O que disse aos jogadores nesse dia?
– Disse-lhes a verdade. Falei com eles antes da reunião com o presidente. Disse-lhes que se o presidente accionasse a cláusula continuaria no Benfica e poderíamos vir a ter um futuro bastante melhor do que aquele que as pessoas pensavam há cerca de dois meses. Alguns jogadores reagiram, e chegaram mesmo a dizer que vinham comigo à Direcção. Disse-lhes que não, que não queria apoio. E fomos treinar. Não foi uma despedida porque eu não sabia se a Direcção iria aceitar ou não. O que pedimos aos jogadores foi que no caso de irmos embora que eles não perdessem aquilo que ganharam durante este período: uma nova atitude, uma nova filosofia do que é ser jogador de futebol.

– Está arrependido de ter ido para o Benfica?
– Não estou arrependido de ter ido para o Benfica porque fui com a plena consciência de que as pessoas que nos escolheram confiaram totalmente em nós. Aliás, o dr.Vale e Azevedo e o senhor Álvaro Braga Júnior já nos tinham contactado, antes de começarmos na onda de vitórias, no sentido de renovarmos o contrato. Iam dar-nos tempo para acabarmos o que começámos: a construção desta equipa.

– Está arrependido de ter ficado no Benfica depois do acto eleitoral?
– Também não estou. Estes dois meses que passei no Benfica dão-me uma bagagem a nível psicológico ainda maior. Julgo ser impensável que ao longo da minha carreira possa vir a encontrar uma situação tão dramaticamente difícil como esta que vivemos no Benfica. E também não estou arrependido porque consegui, com um grupo de gente boa, jogadores bons, departamento médico bom, rouparia boa, ajudar o grupo a sair de uma situação complicada, em que toda a gente duvidava desta equipa. Dei um pequeno contributo para que o futuro deles possa ser melhor.

– Era isto que idealizava para arranque de uma carreira a solo?
– Quando estava no Barcelona e os convites iam surgindo, ano após ano, sempre disse que queria começar com os pés bem assentes no chão num projecto onde houvesse tempo para impor uma forma diferente de estar no futebol, de ver o futebol, de treinar uma equipa. Tinha a noção clara que pela minha forma de ser, de estar e trabalhar, não sou o treinador tradicional, do “monte”. Não estou a dizer que sou melhor ou pior que os outros, sou diferente. Quando me surge o Benfica, surge-me de uma forma muito forte. Surge-me um presidente que me diz: “A medida eleitoralista é contratar Toni. Estou-me borrifando para as medidas eleitoralistas. Eu quero aquilo que penso ser o melhor para o Benfica. E eu aposto em Mourinho e Mozer.”

– E o futuro?
– Agora, são férias forçadas. Vamos ter de esperar. Tenho a noção que a forma que temos de treinar e liderar pode gerar paixão e anticorpos. Pode gerar pessoas que queiram o nosso regresso rápido, mas também há quem que se pudesse adiar o nosso regresso ou dar uma ajuda para irmos para fora de Portugal, também o faria.

– Prefere a curto prazo trabalhar em Portugal ou no estrangeiro?
– Prefiro continuar em Portugal por uma única razão: a mulher e os filhos. Nada mais. O futebol é igual em todo o mundo. O que quero é um clube com condições de trabalho, ambições definidas. Quando for convidado quero também ter a convicção de que somos os desejados.

«Não aceito críticas de um sócio de um empresário»

– Fez um discurso muito duro em relação ao jogador Sabry....
– Aceito algumas críticas [ no “caso Sabry”] que me foram feitas de boa fé, com a legitimidade que têm para criticar. A única que não aceito foram as críticas feitas por um sócio de um empresário que está escondido para o grande público com o fato de comentador televisivo. Essas críticas estão anexadas a corrupção moral.

– Está-se a referir a quem?
– Estou-me a referir a um canal televisivo que por sinal somos todos nós que pagamos.

– A RTP?
– Sim. E de um programa muito bom, com um jornalista muito bom a liderá-lo e com outras duas pessoas que me merecem muito respeito, que tendo a sua filiação claramente declarada a outros dois grandes clubes portugueses, tiveram ao longo deste tempo posições a meu favor e contra.

– Está a falar do programa Jogo Falado?
– Sim.

– E as outras duas pessoas com filiação a outros dois grandes clubes portugueses são Pôncio Monteiro (FC Porto) e Santana Lopes (Sporting)?
– Sim.

– Então, depreendo que o sócio de um empresário só pode ser Fernando Seara, que representa o Benfica no programa?
– Exactamente.

«Os aspectos financeiros sobrepõem-se às amizades»

– Conheço o João Malheiro desde o tempo em que estive em Vila do Conde, tinha 18 anos. Uma relação de quase 20 anos que, afinal, para algumas pessoas não é o suficiente para criar uma relação de amizade e respeito. Porque parece que os aspectos financeiros se sobrepõem, para alguns, às amizades. Para mim não.

«Com a anterior Direcção íamos fazer um grande trabalho»

– Na anterior Direcção trabalhei com uma grande equipa. Tinha o Álvaro Braga Júnior, Eládio Paramés, Michel Preud’homme, José Teixeira, Romeu, cada um na sua área, mas que me faziam tornar mais forte. Eram pessoas do tipo eu dizia “mata”, eles diziam “esfola”. Eu dizia “um beijinho”, eles diziam “dois beijinhos”. Íamos fazer um grande trabalho. O problema é que entrou o período eleitoral e as pessoas que tinham apostado em nós perderam e os que ganharam não apostavam em nós.

«Não vou falar do Benfica pós-Mourinho»

– Viu o jogo em Alverca?
– Só vi a primeira parte. Mas não vou falar do Benfica pós-Mourinho. Serei um espectador atento, interessado em jogadores que tenho esperança que possam continuar a seguir o seu caminho em direcção ao sucesso. E pouco mais do que isso.

«Por muito frio que seja não me consegui alhear»

– Como se sentiu ao verificar que o seu nome era falado no mesmo dia quer no Benfica quer no Sporting, numa noite histórica na vida dos dois grandes rivais, com o despedimento dos dois treinadores?
– Relativamente a Alvalade alheei-me porque era uma mera coincidência o meu nome estar a ser falado. Na Luz não consegui fazê-lo porque vivi “in loco” toda a situação. Estarmos na conferência de Imprensa com as pessoas a pedirem-nos para não sairmos; estarmos no carro do Mozer completamente bloqueados pelas pessoas que não nos queriam deixar ir embora. Confesso que por muito frio que seja no aspecto profissional não consegui alhear-me daquela situação.

«A cláusula nunca teria de ser paga»

– É verdade que o Benfica lhe tenha perdoado 25 mil contos pela rescisão do contrato?
– Perdoar? Não é verdade. O presidente disponibilizou-se imediatamente para rescindir de comum acordo, o que anula imediatamente essa cláusula. Mas no caso hipotético de o presidente não me ter proposto a rescisão de contrato por comum acordo, eu rescindiria unilateralmente mas com justa causa. Portanto, essa cláusula nunca seria paga.

«Fico contente por terem renovado com Toni»

– Toni renovou o contrato até 2003...
– Fico contente por nos terem recusado a execução da cláusula que nos daria contrato até Junho de 2002, mas agora deram a Toni um contrato até 2003. Finalmente, os jogadores do Benfica, o departamento médico, os roupeiros, toda a gente que vivia naquela angústia de não saber qual seria o futuro, finalmente vão ter a estabilidade necessária para trabalhar. Os jogadores já tem a tranquilidade necessária para publicamente apoiarem o seu novo treinador.

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