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Michel Preud''homme: «O meu fantasma não vai pairar»

BELGA QUERIA TER GANHO O CAMPEONATO PELO BENFICA

APESAR da retirada, Michel Preud'homme é um homem feliz. O belga admite ter arrumado as luvas na altura certa, quando ainda se encontrava praticamente na plenitude das suas faculdades.

Agora, na hora de se despedir formalmente dos adeptos, o que acontecerá terça-feira à noite, frente ao Bayern de Munique, o ex-guardião garante que o Benfica não terá problemas para encontrar um sucessor. Embora escusando-se a analisar ao pormenor os três novos reforços para a baliza dos encarnados, o belga mostra-se bem impressionado com o que deles já observou. Na sua opinião, os encarnados vão conseguir manter na baliza um padrão de qualidade muito semelhante ao das últimas cinco temporadas.

Mesmo sem as sensações fortes que a carreira de 22 anos proporcionou, Preud'homme encara com indisfarçável optimismo as novas funções de consultor para os assuntos internacionais. O belga mantém-se vinculado ao Benfica pelo contrato, assinado como jogador, que expira no final da temporada prestes a iniciar-se. Em Julho de 2000, será, então, tempo para analisar o trabalho desenvolvido e saber se valerá a pena continuar.

Para já, prefere não falar em detalhe sobre o que já fez e de todo o projecto a colocar em prática. Com receio que os "outros clubes copiem" algumas das ideias, o ex-guarda-redes avisa mesmo que só voltará a abordar temas relacionados com o novo cargo quando o Benfica assim o determinar.

-- Qual é a sensação de abandonar o futebol, 22 anos depois de ter iniciado a carreira?

-- É ainda um pouco cedo para começar a sentir algo. Tive uma carreira muito longa e nos últimos tempos preparei-me para deixar o futebol, logo que o Benfica assim o decidisse.

-- Terá sido demasiado cedo? Afinal, fez uma boa temporada e realizou mesmo um dos melhores jogos em Portugal, frente ao FC Porto, no final do Campeonato Nacional...

-- Era preferível acabar ao meu melhor nível. Foi a altura adequada. O Benfica iniciou uma nova era. Mudou de treinador e, consequentemente, de métodos de funcionamento. Era o "timming" adequado. Concordo totalmente com isso.

-- Estava, sinceramente, à espera?

-- Sempre disse que me encontrava ao dispor do Benfica e das necessidades do clube. A minha linha de conduta foi sempre essa. Se quisessem que continuasse como jogador, eu permaneceria no plantel, mas também mostrei disponibilidade para assumir outras funções.

-- Sentia-se capaz de realizar mais uma temporada?

-- Todos concordam que sim. Aliás, o próprio presidente disse-me que eu estava em condições de continuar. Por outro lado, é preciso ter atenção que, à medida que a idade vai avançando, é preciso um sacrifício cada vez maior para tentar manter o mesmo nível. De qualquer forma, acima de tudo isto está a necessidade do clube.

-- De que vai ter mais saudades? Já pensou nisso?

-- De fazer deporto. Estou completamente parado há dois meses!... Nós temos sensações únicas em campo. Daquelas que não se encontram noutro emprego qualquer. Passamos, num ápice, do fundo para o topo e vice-versa. Tudo depende das vitórias e das derrotas. Por exemplo, fazer uma defesa difícil nunca é comparável com a conquista de um título, em que se dá uma forte explosão depois de todo um período de intenso nervosismo. Na vida normal, se assim quisermos chamar, não surgem esse tipo de sensações. Eu não sei se vou ter saudades. Sei, isso sim, que vivi muitos dos momentos descritos ao longo destes 22 anos de carreira. Sou feliz por ter feito tudo isso.

-- Julga que o Benfica manterá os mesmo padrões de qualidade na baliza, após a sua saída?

-- Julgo que sim. Não quero estar a alargar-me neste tema, mas tenho uma ideia positiva em relação aos guarda-redes que compõem o plantel. O Nuno Santos é o que conheço melhor. Viu-o jogar três anos em Portugal, ao serviço do V. Setúbal, e esteve sempre bem. Os outros dois são oriundos de países com escola. Enke é internacional sub-21 da Alemanha e Bossio já jogou na equipa principal argentina. Todos eles possuem capacidade para jogar no Benfica. Não vai haver problema.

-- Não há possibilidade de algum deles, nomeadamente o titular, acusar a pressão de suceder àquele que chegou a ser considerado o melhor guarda-redes do Mundo? Por exemplo, quando Vítor Baía se transferiu para o Barcelona, o FC Porto debateu-se com problema desse tipo...

-- Quem joga no Benfica sofre sempre uma natural pressão. Na baliza ou em qualquer outro lugar, este é um fenómeno que faz parte da vida de um futebolista.

-- O seu “fantasma” não vai pairar?

-- Não vai pairar. Os guarda-redes que o Benfica possui são pessoas equilibradas. Por outro lado, dois deles nem sequer estiveram em Portugal durante estes anos. Em termos exteriores à equipa, essa é um questão que não pode ser equacionada. Vai comentar-se. Mas, qualquer jogador profissional dá o melhor de si próprio. Estou certo que não vai haver problema

-- É-lhe possível fazer uma análise técnica sobre os três novos guarda-redes do plantel?

-- Não. É muito cedo...

AS NOVAS FUNÇÕES

-- Está satisfeito com as funções que lhe foram atribuídas?

-- Vou realizar outro trabalho, que vai ser importante. A minha retirada nada tem de complicado. Não vou cair num buraco. Estarei ocupado, o que é muito bom para mim.

-- Importa-se de explicar as áreas em que irá incidir o seu trabalho?

-- É um trabalho de relações internacionais. Abrange variadíssimos aspectos. Não quero, por razões óbvias, entrar em detalhes. São assuntos do foro interno do clube.

-- Mas pode, pelo menos, dar um exemplo?

-- Era para me deslocar à Alemanha, para assistir ao Benfica-Borrussia de Dortmund. Se tivesse ido, iria encontrar-me com o director desportivo do clube germânico. Não vou dizer para quê, mas terei de estar sempre atento a tudo o que se passa no mundo do futebol. Neste caso, a minha acção abrangerá apenas o plano externo, nunca o interno.

-- Sabe-se que vai estar presente nos sorteios da UEFA, manter-se-á atento ao mercado futebolístico, à duração dos contratos dos jogadores europeus, e privilegiará, também, os contacto com empresas internacionais. Mas vai observar potenciais reforços do Benfica?

-- Não sei. Se for desejo do clube... As minhas funções não assim tão específicas. Não é um trabalho de A a Z.

-- E neste diferendo com o Rosenborg, a propósito da transferência de Rushfeldt? Teve alguma intervenção?

-- Não respondo...

-- Está a trabalhar desde o dia 7 de Julho. O que já fez, desde então?

-- Nas primeiras semanas elaborei um plano de organização do meu trabalho, que tive ocasião de o colocar à disposição do presidente do Benfica. Depois disso, realizei uma viagem ao estrangeiro para tratar de assuntos relacionados com o clube. Não vale a pena perguntar quais... Aliás, as minhas relações com a Imprensa vão ser nulas, a não ser que o clube diga o contrário. Não vamos falar muito, até porque não pretendemos que os outros clubes copiem as nossas ideias.

"ESTAREI EM CAMPO UM OU DOIS MINUTOS"

Michel Preud'homme não quer prejudicar a preparação do Benfica nesta pré-temporada. Mesmo elegendo o momento da despedida da sua despedida do público como o ponto alto do jogo desta noite, o belga vai permanecer muito pouco tempo em campo, pois, segundo admite, não se sente em condições de alinhar durante 15 ou 20 minutos, o período inicialmente previsto.

-- Quantos minutos vai jogar com o Bayern de Munique?

-- Inicialmente, o presidente pediu-me para que actuasse 15 ou 20 minutos. Mas trata-se de um jogo muito importante para o Benfica, especialmente por ser o primeiro no Estádio da Luz. Só deverei estar em campo um ou dois minutos...

-- O próprio Jupp Heynckes disse, durante o estágio de pré-temporada, que o Preud'homme poderia estar em campo o tempo que desejasse. Porquê só um ou dois minutos?

-- A ideia é despedir-me do público, só isso. Não quero estar a influenciar a preparação da equipa. Para que pudesse jogar os tais 15 ou 20 minutos inicialmente previstos, era necessário que tivesse realizado todo o trabalho de pré-temporada, o que não aconteceu. Aliás, já todos chegámos a um consenso nesta matéria. Estarei um ou dois minutos em campo, logo no início da partida, chuto a bola para fora e, de seguida, vou agradecer aos adeptos todo o carinho por eles dispensado nestes cinco anos.

"SAÍDA DE OVCHINNIKOV SUEPREENDEU MUITA GENTE"

Preud'homme preferiu não tecer comentários alargados sobre a saída de Ovchinnikov, aquele que foi apontado, nos últimos anos, como o sucessor do belga. O novo consultor limitou-se a assinalar a surpresa que a venda do russo constituiu, sem emitir, contudo, quaisquer juízos de valor.

-- Como encarou a saída de Ovchinnikov do Benfica?

-- Não conheço a vida dele. Mas foi uma surpresa para muita gente.

-- Para si também?

-- Soube pelos jornais, como todas as outras pessoas...

-- O Benfica fez bem em vender aquele que era apontado como o seu sucessor?

-- Não sei. Não sou eu que faço a gestão do plantel. Não conheço o processo, pelo que não vou estar a julgá-lo.

-- A propósito da saída do Ovchinnikov, foi voz corrente, durante o estágio de pré-temporada, que o plantel principal do Benfica só deveria possuir três guarda-redes. Heynckes admitiu-o, Enke, por seu turno, defendeu abertamente a tese, referindo mesmo que qualquer equipa trabalha melhor desta forma. Que opinião tem sobre este assunto?

-- Três é o número habitual. Em alguns clubes belgas, por vezes, são apenas dois os guarda-redes, o que se torna aborrecido nos treinos de conjunto, no caso de um deles se lesionar.

-- Mas julga que o ideal são três ou quatro guarda-redes?

-- Depende da organização de todo o trabalho. Mas um técnico de guarda-redes treina habitualmente três elementos.

"GRANDE LACUNA DA MINHA CARREIRA FOI NÃO CONSEGUIR O TÍTULO NO BENFICA"

Na hora do adeus, Michel Preud'homme só lamenta o facto de não ter conseguido um título nacional ao serviço do Benfica. O belga não esconde a frustração, embora sublinhe que a passagem pelos encarnados esteve longe de constituir um fracasso em termos desportivos.

A dimensão do clube e forma como os adeptos portugueses vibram com o futebol, fazem com que Preud'homme acabe por eleger o Benfica como um marco inigualável na sua carreira.

-- Ao longo de 22 anos de carreira, representou apenas três clubes. Em todos eles manteve uma relação muito intensa com os adeptos. Onde gostou mais de jogar? No Benfica?

-- O Standard de Liège era o meu clube de criança. Eu assistia aos jogos na tribuna ainda antes de iniciar a carreira. Depois disso transferi-me para o Malines. No princípio, limitei-me a tentar ser um bom profissional, mas, como o tempo, comecei a ganhar um outro tipo de sentimento. A relação evoluiu. No Benfica, isso também se passou. A ligação foi-se desenvolvendo e tornou-se muito grande. Após três anos e meio, findo os quais se colocou a possibilidade de sair, eu optei por ficar. Tomei, aliás, a decisão de viver aqui, no vosso país. O Benfica é, sem dúvida, o maior dos três clubes que representei. Tem uma dimensão impressionante e mexe com as pessoas de uma forma que não acontece na Bélgica. Merecerá sempre a minha preferência.

-- Durante o período em que foi jogador do Benfica, recebeu uma tentadora oferta do Real Madrid. Lamenta que a transferência não se tenha consumado?

-- Sempre que existiram propostas para mim, eu apresentei-as sempre ao clube. Foi assim com o Real Madrid e com o Fluminense. Aos 37 ou 38 anos, seria interessante a transferência para Espanha, mas eu também não sabia quais as ideias das pessoas em relação ao meu futuro. Senti-me satisfeito pelo facto de Fabio Capello pretender o meu contributo, mas não lamento que a transferência não se tivesse consumado.

-- Que balanço faz destes cinco anos ao serviço do Benfica?

-- Há uma grande lacuna. Não fui campeão. Ganhei uma Taça de Portugal e, em termos individuais, dei sempre o máximo, atingindo sempre o limite de mim mesmo. Aliás, o facto de me terem atribuído este novo cargo está também relacionado com a forma como desenvolvi o meu trabalho. Sinto-me orgulhoso por isso, até porque sou estrangeiro e pude continuar ao serviço do clube.

-- Pode dizer-se que a sua passagem pelo Benfica foi boa em termos sociais e mau em termos desportivos?

-- Esperava ser campeão, naturalmente. Mas o desporto não é só feito de títulos, embora eles sejam muito importantes para um clube como o Benfica. Teria sido mau, isso sim, se não fosse titular ou se realizasse exibições menos conseguidas nos jogos em que actuei.

-- Consegue explicar as razões de o Benfica não ter sido campeão uma única vez nos últimos cinco anos?

-- Isso implicaria uma análise muito profunda e ninguém conseguiria tirar todas as conclusões.

-- É capaz de eleger, então, a melhor e a pior fase do Benfica durante este período?

-- Houve, curiosamente, fases boas e más em todos os anos. Existiram sempre altos e baixos em todas. Posso citar os exemplos da primeira e da última época. No ano da minha estreia, começámos bem o Campeonato. Vencemos os três primeiros jogos e qualificámo-nos para a fase seguinte da Liga dos Campeões. Na última temporada, também estivemos sempre muito perto do primeiro lugar. Noutras ocasiões, começámos mal e terminámos bem, como foi o caso do ano da vitória na Taça de Portugal, com Mário Wilson.

-- O que não correu bem o ano passado? Souness foi o principal culpado de tudo o que aconteceu?

-- Não vou entrar por aí. A minha maneira de fazer as coisas não é essa. Não vale a pena estarmos cá fora a apontar os nossos erros. Seja de uns ou de outros. A equipa é sempre a principal prejudicada nestes casos. Foi assim que actuei como jogador e essa será também a minha conduta no futuro. Aliás, falar “a posteriori” é ainda pior.

O MELHOR E O PIOR

-- Falemos, então, da sua carreira e voltemos a falar dos pontos altos e baixos. Qual a maior alegria que sentiu enquanto jogador?

-- A conquista da Taça das Taças, ao serviço do Malines, frente ao Ajax. Foi muito importante.

-- Mais importante que ter sido eleito o melhor guarda-redes do Mundo?

-- Claro. Foi um título colectivo, a festa de um clube, de uma cidade, de um país. Quando regressámos, eram quatro horas da madrugada e estava um mar de gente no aeroporto à nossa espera. Mais tarde, no estádio, tivemos outra recepção espectacular. Para vocês, portugueses, tudo isto é normal. Para nós, não.

-- E o pior?

-- Cito dois factos. Não ter sido campeão ao serviço do Benfica e a eliminação no Mundial 90, frente à Inglaterra. Eram os oitavos-de-final. Dispusemos das melhores oportunidades e sofremos o golo no último minuto. Se nos qualificássemos, defrontaríamos, de seguida, os Camarões, uma equipa já cansada pelo esforço desenvolvido. Depois disso, numa meia-final, tudo podia acontecer...

-- O caso do Watershei marcou-o? Ao fim de todos estes anos, precisamente 17, como descreve o que aconteceu?

-- Jogávamos num sábado com eles e precisávamos de um ponto para sermos campeões. Quatro dias mais tarde, disputávamos, por seu turno, a final da Taça das Taças, frente ao Barcelona, precisamente em Camp Nou. Na altura não soube de nada, só mais tarde me inteirei do que se passou. Elementos do nosso clube ouviram dizer que o Watershei tinha um prémio de uma equipa adversária, caso nos derrotasse. Corria a ideia que eles iam jogar muito duro e nós não queríamos ir para Espanha com três ou quatro lesionados, até porque não tínhamos muitas soluções. Fez-se, então, um acordo. Eles jogavam normalmente sem nos magoarem e nós davamo-lhes o prémio de jogo. A maior parte de nós, só se apercebeu disso, quando esse valor nos foi retirado da folha de ordenado... Bom, como resultado, dois anos depois, apuraram-se os factos e consideraram que tinha sido corrupção. A maior parte dos jogadores, eu incluído, foi punida com nove meses de suspensão, à excepção do Gerets que apanhou 15.

-- ...

-- Tudo correu mal nesse dia. Mesmo no fim do jogo, bati com a mão na cabeça do ponta-de-lança do Watershei. Fizemos a festa e viajámos para Espanha. Eu sentia dores e queixei-me. Mas, como tinha 22 ou 23 anos, os meus companheiros de equipa diziam, em tom de brincadeira, que eu era um miúdo e estava com medo de jogar em Camp Nou, com 120 mil pessoas a apoiar o Barcelona. Perdemos 2-1, um resultado natural. Quando cheguei, submeti-me a uma radiografia... Chegou-se à conclusão que eu tinha disputado a final com uma mão fracturada...

22 ANOS DE GLÓRIA

Ao longo de 22 anos de carreira não faltaram títulos e distinções a Michel Preud'homme. Aquele que chegou a ser considerado o melhor guarda-redes do Mundo pendura agora as luvas depois ter conquistado quase tudo a que um futebolista profissional pode aspirar.

Clubes onde actuou :

Standard de Liège (1977-1986)

Malines (86-94)

Benfica (94-99)

Jogos realizados:

504 no campeonato belga

131 no campeonato português

105 para as competições europeias de clubes

Internacionalizações:

58, pela Bélgica

Títulos:

1 Taça das Taças (1988)

1 Supertaça Europeia (88)

3 campeonatos belgas (82, 83 e 89)

2 Taças da Bélgica (81 e 87)

1 Taça de Portugal (95).

Vice-campeão europeu de selecções (80)

Distinções:

Melhor guarda-redes do Mundo (1994)

Melhor guarda-redes do Mundial dos Estados Unidos (94)

Segundo melhor guarda-redes do Mundo (89 e 90)

Soulier d'0r, para o melhor jogador belga (87 e 89)

Troféu Mérito Desportivo da Bélgica (89)

Troféu Fair Play (90).

LUÍS PEDRO SOUSA

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