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Mística do Benfica nasceu há 40 anos

PRIMEIRA VITÓRIA NA TAÇA DOS CAMPEÕES

O Benfica rodeou a deslocação à Suíça com os máximos cuidados. O Belenenses prontificou-se a adiar o jogo marcado para o dia 28, o que permitiu à comitiva partir para Berna no dia 24, ou seja, com sete dias de antecedência. O Barcelona só chegou à Suíça no dia 29, por estar a disputar a "Taça Generalíssimo", em que acabou por ser eliminado pelo Español.

Na véspera da partida, o Benfica realizou um festival de despedida (e apresentação de Eusébio), cujo apoio dos adeptos serviu para encher de confiança e optimismo a bagagem dos jogadores. O quartel-general foi montado em Spiez, no Hotel Eden, onde, em 1954, se hospedara a selecção alemã que se sagraria campeã mundial.

Junto ao lago de Thone, sempre com céu limpo e temperatura amena, viveram-se dias tranquilos na pacatez daquela pequena vila. Só as camas incomodaram alguns jogadores, pois eram demasiado fofas. Houve quem dormisse no chão.

José Águas recebeu um telegrama dos filhos Rui e Cristina. Dizia apenas: "Papá, meta muitos golos". Mas o programa oficial posto à venda no dia da final não partilhava daquele optimismo. "O Sport Lisboa e Benfica encontra-se colocado, e dizemo-lo sem querer desconsiderar de nenhum modo o titular do campeonato português, um pouco na sombra do seu grande adversário".

Ganhou o Benfica! Os adeptos, eufóricos, invadiram o campo, "engolindo" a banda que se preparava para tocar o hino. Ebbe Schwartz, presidente da UEFA, atirou precipitadamente a taça para as mãos de José Águas e a organização, à falta do hino, colocou na aparelhagem uma música chamada "Abril em Portugal". No relvado, os garrafões de vinho, pasteis de bacalhau, frango assado e outras iguarias proporcionavam um quadro que deixou os suíços espantados. Era uma festa à portuguesa.

O presidente dos encarnados, Maurício Vieira de Brito, desfaleceu quando segurava a taça e só se recompôs uma hora depois. A festa continuou em Lisboa, com uma recepção nunca vista em Portugal. Salazar condecorou os jogadores e, quando passou por Águas, rematou: "Aquilo esteve difícil! Especialmente no fim do jogo, não é verdade?".

Onde estava Eusébio?

Chegou a Lisboa pouco antes do Natal de 1960, mas, em Maio de 1961, ainda não era jogador do Benfica. A dura e longa batalha pela aquisição da "pérola negra" terminou com um acordo de 400 contos entre os encarnados e o Sporting de Lourenço Marques. O outro Sporting, o de Lisboa, perdeu a corrida. No dia 23 de Maio, estreou-se num particular ante o Atlético e marcou três golos na vitória por 4-2. O jogo também serviu para os adeptos incentivarem os jogadores que, no dia seguinte, viajaram rumo à final de Berna. Eusébio havia perdido a época e a oportunidade de se sagrar também campeão europeu. Duas semanas após a conquista, no Torneio de Paris, marcou um golo ao Anderlecht (3-2) e três ao Santos de Pelé (3-6) e provou que merecia ter participado na conquista da Taça dos Campeões 60/61.

Escreveu o jornal «Marca»

"O dever impõe-nos, por vezes, trabalhos muito ingratos, como o de escrever esta crónica. Termos de ver como uma equipa representante espanhola foi eliminada na final da 'Taça da Europa', por um resultado absolutamente injusto e ao invés do que se demonstrou no terreno de jogo, dá vontade de não escrever, mas apenas de apagar da memória a realidade (...) Mas não devemos regatear-lhe [ao Benfica] o mérito do seu jogo, o entusiasmo e a vontade com que conseguiu esse resultado" [António Valência, jornalista]

COSTA PEREIRA

Guarda-redes. Nasceu a 23 de Dezembro de 1929, em Nacala (Moçambique). Jogou no Sporting e no Ferroviário de Lourenço Marques, antes de ingressar no Benfica, onde, para além de futebol, chegou, também, a jogar basquetebol. "Keeper" de excelente reflexos, foi internacional e totalista no Benfica campeão europeu. Já faleceu.

ÂNGELO MARTINS

Defesa ou médio. Natural do Porto, onde nasceu a 19 de Abril de 1930, representou o Académico da Cidade Invicta, antes do Benfica. Personificando de uma forma muito "sui generis" a tão proclamada mística benfiquista, fez gala disso mesmo em todos os jogos onde actuava. Durante largos anos, foi o grande responsável técnico do futebol jovem do clube. Aposentado.

MANUEL SERRA

Médio e defesa. Nasceu a 6 de Novembro de 1935, em Lisboa, tendo jogado no Atlético do Cacém e no Oriental, para além do Benfica. No decurso da Taça dos Campeões Europeus, foi chamado três vezes por Bela Guttmann, com a sua forma versátil de actuar a agradar de sobremaneira ao exigente técnico húngaro. Já faleceu.

ARTUR SANTOS

Defesa-central e lateral. Natural de Paço de Arcos, onde nasceu a 27 de Março de 1931, foi um dos campeões europeus oriundos da "cantera" do Benfica. Dotado de um excelente porte atlético e exibindo uma grande dedicação à camisola dos águias, a sua forma vigorosa de jogar tornou-se deveras importante. Estabelecido com um supermercado, em Paço de Arcos.

MÁRIO JOÃO

Defesa lateral e médio. Nasceu no Barreiro, a 6 de Junho de 1935. Antes de ingressar no Benfica, alinhou pelo Desportivo da CUF, quando os "cufistas" se encontravam entre a elite do nosso futebol. Dotado de uma enorme generosidade, colocava em jogo uma raça que contagiava toda a equipa. Foi o defesa-direito da final de Berna. Aposentado da CUF.

FERNANDO CRUZ

Defesa e médio. Natural de Lisboa, onde nasceu a 12 de Outubro de 1940, foi outro dos jovens do futebol benfiquista a concretizar a tão desejada promoção, com Bela Guttmann a apostar (e bem) na sua forma viril de actuar, o que lhe valeu a titularidade no jogo com o Barcelona. Radicado, desde há largos anos, nos Estados Unidos da América.

GERMANO FIGUEIREDO

Defesa-central. Lisboeta de Alcântara, nasceu a 13 de Dezembro de 1932, tendo iniciado a sua carreira no Atlético, onde integrou excelentes equipas. Depois da hipótese Sporting, acabou por ingressar no Benfica, onde se cotou como o grande baluarte da defensiva dos campeões europeus. Aposentado das Selecções Reader Digest.

ANTÓNIO SARAIVA

Médio e defesa. Natural de Peso da Régua, nasceu a 13 de Julho de 1934. Antes do Benfica, jogou no Régua, Salgueiros, Palmense e Caldas. Excelente jogador de equipa, agradava por isso mesmo a Bela Guttmann, e o técnico magiar a aproveitava bem as suas faculdades. Radicado em Portimão, jogou, ainda na Torralta. Aposentado.

JOSÉ NETO

Médio. Nasceu no Montijo, onde nasceu a 5 de Outubro de 1935. Iniciou a sua carreira no clube da sua terra, até Manuel da Luz Afonso o recomendar ao Benfica. Dotado de uma invulgar capacidade de luta, foi um dos totalistas do Benfica campeão europeu. Depois da Luz, jogaria, ainda, no Sporting de Braga, estabelecendo-se, a seguir, com um lugar de peixe, no Montijo. Já faleceu.

DOMICIANO CAVÉM

Extremo, defesa e médio. Natural de Vila Real de Santo António, onde nasceu a 21 de Dezembro de 1932, jogou no Lusitano da sua terra e no Sporting de Covilhã, antes de ingressar no Benfica. Na Luz, a sua velocidade foi excelentemente aproveitada pelos mais diversos treinadores, a começar por Guttmann. Reside desde há anos em Alcobaça, onde colabora com a edilidade local.

JOAQUIM SANTANA

Interior-direito. Angolano de Catumbela, nasceu a 22 de Março de 1936, tendo-se destacado pela sua excelente capacidade técnica. Ingressou muito jovem no Benfica, depois de alinhar no Sport da Catumbela. Super-efectivo, antes da chegada de Eusébio, tornar-se-ia menos assíduo com a chegada do "king". Um dos totalistas do Benfica campeão europeu. Jogou, depois, no Salgueiros. Já faleceu.

JOSÉ AUGUSTO

Extremo-direito. Natural do Barreiro, onde nasceu a 13 de Abril de 1937, jogou no Barreirense antes de se decidir pelo Benfica, com o FC Porto a perder o seu concurso. Classificado pelo francês Gabriel Hanot como o melhor ponta-direita da Europa, viria a tornar-se deveras importante no êxito europeu dos encarnados. Foi seleccionador nacional e treinador do Benfica, sendo actualmente empresário ligado à construção civil.

MÁRIO COLUNA

Interior e médio-esquerdo. Nasceu na antiga capital de Moçambique, Lourenço Marques, a 6 de Agosto de 1935. Antes do Benfica, jogou no João Albasini e no Desportivo de Lourenço Marques, ao mesmo tempo que praticava atletismo. Dotado de uma invulgar espírito de luta, empolgava os companheiros. Desde há anos, regressou a Moçambique, presidindo à Federação de Futebol do seu país.

JOSÉ ÁGUAS

Avançado-centro. Natural de Angola, (Lobito) onde nasceu a 9 de Setembro de 1930, jogou no Lusitano de Lobito, até ingressar no Benfica. Excelente no jogo aéreo, o que lhe valeu a denominação de "cabecinha de ouro", tornou-se o capitão natural do Benfica europeu, graças aos seus golos e à sua forte personalidade. Depois do futebol, esteve ligado ao ramo automóvel. Faleceu em Dezembro último.

BELA GUTTMANN

O treinador que, depois do êxito do Benfica, em Berna, voltaria a comandar os encarnados, na vitória, em Amsterdão, esta frente ao Real Madrid, a dar às águias um "bis" na conquista da Taça dos Campeões Europeus. Natural de Budapeste, onde nasceu em Setembro de 1905, foi internacional pela Hungria, tendo jogado no Vasas da capital magiar, no MTK, no Áustria e no futebol norte-americano, e actuado no Gians, Hakoak e Ali Stars, de Nova Iorque. Unanimemente considerado como um "expert" em psicologia, em Portugal, treinou o FC Porto, onde foi campeão nacional, antes de ingressar no Benfica. Depois disso rumou para Viena, onde faleceu, estando sepultado, juntamente com sua mulher, no cemitério da capital austríaca.
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