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Se o espanhol fosse matador a Luz tinha sido como Barrancos

BENFICA DESPERDIÇA GOLEADA E ACABA EM DIFICULDADES

Se o espanhol fosse matador a Luz tinha sido como Barrancos
Se o espanhol fosse matador a Luz tinha sido como Barrancos

SE O cenário da tradicional carnificina animal de Barrancos tivesse sido transposto para a arena da Luz domingo à tarde, dir-se-ia que o Benfica tinha levado a sua avante, cumprindo a tradição de derrotar o Salgueiros. Até espanhóis em cabeça de cartaz já possui. Só faltou mesmo um “matador”.

Na realidade, a completa função de arrecadar os três pontos - com alguns assobios no final e sem direito a orelhas nem rabos nem volta ao redondel - foi mais facilitada por uma operação “policial” à boa maneira da GNR, cheia de buracos e pontos de fuga que penalizam a indecisão de quem tinha o poder de impor outro curso aos acontecimentos.

Neste caso, foi o treinador Dito a fazer o papel do timorato ministro Coelho, apostando numa estratégia passiva quando dispunha de potencial técnico e físico para forçar um resultado positivo - como ficou eloquentemente demonstrado na meia hora final do jogo, em que o Salgueiros nada ficou a dever ao Benfica.

Até aos 53 minutos e ao golo solitário de Nuno Gomes - um “matador” à portuguesa, garboso no seu “trajo de Luz” mas mais virado para “picar” o adversário em vez de o arrumar de uma estocada só - o esquema defensivo do Salgueiros assentou numa complexa marcação homem-a-homem que em muitas ocasiões fazia lembrar as “marcações” dos “gênêerres” barranquenhos: perseguindo por um lado e deixando a via livre por outro.

É estranho que tenha sido necessário o tal golo para ressaltar a evidência das fraquezas deste esquema, que permitiram ao Benfica fazer 17 remates até esse lance, a maioria dos quais com hipótese de êxito. Mas Dito também se deixou vencer pelo respeito da “tradição”, que manda jogar à defesa na casa dos “grandes”, e acabou por ser penalizado por não ter querido correr riscos de jogar “à espanhola” e sem complexos no campeonato lusitano.

No entanto, quando se viu a perder, fê-lo. Transformou o esquema de jogo, libertando Rui Ferreira da marcação a João Pinto e acabando com as outras perseguições individuais que nunca permitiram um fio coerente de jogo na primeira parte. Atirou-se para o ataque e veio a dispor de várias oportunidades de golo, incluindo um claro “penalty” por assinalar em derrube de Enke a João Pedro - mais um erro de arbitragem absolutamente inexplicável. O Benfica terminou a partida em grandes dificuldades físicas, traduzidas em muitas faltas e três cartões amarelos nos últimos cinco minutos, para aguentar a vantagem mínima.

BENFICA SEM “MATADOR”

Se o Salgueiros pode agora lamentar não ter alcançado o empate, não é menos verdade que o Benfica esteve relativamente perto de alcançar uma goleada durante os primeiros 45 minutos, tirando partido da fragilidade do esquema adversário.

Foram cerca de uma dezena as ocasiões desperdiçadas, incluindo um remate à trave de Nuno Gomes e duas finalizações de Poborsky cara-a-cara com o guarda-redes, além de muitos e variados remates de meia distância de Kandaurov, Chano e Luís Carlos. Mas, dentro da área, o Benfica foi quase totalmente ineficaz, ficando na lembrança um “passe” de Nuno Gomes, isoladíssimo, para as mãos de Jorge Silva (30’) e o facto de o defesa El Khalej ter sido o único a discutir e ganhar lances de cabeça, de nada servindo mais de uma dúzia de cantos a favor.

Quando chegou a Portugal, Jupp Heynckes não levou muito tempo a identificar a má finalização como principal fraqueza do plantel benfiquista, mas não terá conseguido convencer o presidente, pelo que vai ter de se contentar com Nuno Gomes - um jogador que pressente o golo, mas não consegue exprimir um instinto de matador, necessitando de um número anormal de ocasiões, além de sentir dificuldades em jogar no interior da área. E ao seu lado, na frente de ataque, actua João Pinto, que talvez só por acidente possa ser capaz de chegar aos tais 15 golos na temporada, já que à sua volta não se criam os espaços de que tanto necessita para o que melhor sabe fazer: ontem apenas duas vezes conseguiu libertar-se e aparecer a finalizar e sem perigo.

KANDAUROV E... TOTE

Graças às dificuldades do seu “polícia” Cândido, baralhado por ter, em simultâneo, de atacar pelo flanco direito e marcar um adversário que jogava pelo centro, o ucraniano Kandaurov pôde começar cedo a empurrar o Benfica para as imediações da área. Belos passes longos e triangulações vistosas pautadas com maestria e ritmo estiveram na origem da excelente primeira parte a que se assistiu no meio-campo que parecia descair no sentido da baliza do Salgueiros. No lado contrário, a bola não terá circulado mais do alguns breves segundos.

Mas também foi Kandaurov um dos primeiros a estourar fisicamente a meio do segundo tempo, por contraste com Chano, talvez por este ser muito menos exuberante nas suas acções. O veterano espanhol fez um jogo de “trás para a frente” para terminar a acorrer a todos os fogos, em particular as dobras aos laterais El Khalej e Sérgio Nunes, dois “adaptados” - outro velho problema do Benfica que o defeso parece não ter resolvido, em contraste com a sucessão de Preud’homme, a quem o jovem guarda-redes alemão já permite repousar na história.

A 20 minutos do fim, quando Poborsky saiu e Kandaurov começou a passar a bola para trás, o Benfica deixou de existir e o Estádio da Luz viveu o sobressalto de nova perda de pontos. Ainda entrou em campo o estreante Tote, muito mais parecido com Futre do que com Rushfeldt, mas se àquela hora havia algum “matador” espanhol em território nacional, era o que estava a afiar o facalhão em honra da Nossa Senhora da Conceição.

JOÃO QUERIDO MANHA

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