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Shéu: Exemplo de dedicação

representa o benfica desde 1970

Shéu entrou no Benfica em 1970 e não voltou a sair
Shéu: Exemplo de dedicação • Foto: Pedro Simões

Shéu Han chegou a Lisboa por indicação de José Augusto, em 1970, para representar a equipa de juniores do Benfica. Estreou-se aos 17 anos na equipa principal, frente ao Barreirense, fruto de uma aposta de Jimmy Hagan, que via “muito potencial” naquele jovem que estava longe de imaginar que assim iniciava uma ligação que já dura há 44 anos e ameaça prolongar-se por muitos mais.

De ascendência chinesa/moçambicana, Shéu Han teve muitas dificuldades a convencer o pai a deixá-lo ir para Lisboa jogar no Benfica. Só teve autorização para partir mediante a promessa de terminar os estudos em mecânica e desenho industrial, uma meta que alcançou. Apesar de se ter estreado na equipa principal em 1972, só alcançou o estatuto de titular indiscutível em 1975/76 com Mário Wilson no comando técnico, mantendo-o até 1988/89, na sua última época como jogador, quando foi desafiado a aceitar um novo cargo na Luz. Nestas 13 temporadas, ajudou o Benfica a conquistar 17 títulos e marcou presença em duas finais europeias: Taça UEFA (83/84) e Taça dos Campeões Europeus (87/88). Estas duas derrotas são a sua grande mágoa desportiva, principalmente a primeira, quando marcou um golo que viria a revelar-se inconsequente.

Valorização contínua

Nos estágios os seus companheiros viam sempre Shéu rodeado de livros. Em 1989, os computadores começavam a invadir os escritórios e o antigo internacional português já dominava a área, um fator que se revelou determinante para o então presidente João Santos o convidar para o cargo de secretário-técnico. Shéu aceitou e inscreveu-se num curso de inglês para desempenhar melhor a nova função. Quando Eriksson regressou à Luz, em 1989, Shéu foi o cicerone do sueco e impressionou-o com o domínio do idioma.

Os treinadores foram passando e Shéu manteve-se em funções, planeando as épocas e fazendo todo o trabalho de bastidores com o objetivo de dar as melhores condições de trabalho aos jogadores.

Espírito de missão

Em 1998/99 mantinha as suas funções quando Graeme Souness saiu em maio e deixou a equipa sem treinador nas últimas quatro jornadas. Após uma reunião com Vale e Azevedo, onde Shéu fez questão de garantir que só seria treinador até ao final da temporada para impedir desgaste da próxima equipa técnica, assumiu o comando. O Benfica cumpriu o objetivo de terminar na terceira posição e, na época seguinte, Shéu voltava às antigas funções, sendo braço-direito de Jupp Heynckes.

Após esta experiência, que não o seduziu, Shéu manteve as antigas funções. Em 2006/07 ainda acumulou o cargo de assessor de imprensa na primeira temporada de Fernando Santos na Luz, ele que no passado já havia feito a ponte entre o plantel e a comunicação social.

José Augusto: O responsável pela sua vinda

“Foi um jogador que nem estava na lista de jovens que fui avaliar, mas vi-o a jogar em Moçambique quando fui buscar uma autorização para o Nené. Vi logo ali que o Shéu tinha uma enorme margem de progressão. Não hesitei e fiz questão de trazê-lo logo comigo para Lisboa. Apesar de ainda ser júnior, já jogava nos seniores e mostrava aqueles pormenores que não enganam. Felizmente vingou, formou família em Portugal e hoje é um dos símbolos do Benfica. É um homem extraordinário.”

Toni: Deu-lhe o lugar na estreia

“Não me lembrava que me tinha substituído na sua estreia. Os jogos no Barreiro eram sempre difíceis mas ele sempre mostrou ser um jogador com uma cultura tática muito elevada. É difícil para mim falar sobre ele, pois foi meu colega de equipa e mais tarde trabalhámos juntos quando orientei o Benfica. Olho para o Shéu e vejo-o como uma âncora, aquele amigo que vou ter quando preciso de alguma coisa. Sempre foi uma pessoa elegante que fez questão de cultivar os seus valores.”

Gaspar Ramos: Desafiou-o para dirigente

“Como jogador era uma pessoa muito equilibrada e entendemos que era a pessoa certa para assumir as funções. Pelos vistos acertámos, pois continua no Benfica no mesmo cargo. Tem uma grande capacidade de diálogo e uma cultura acima de média que sempre o distinguiu. Sempre foi muito ponderado e nunca criou um problema, aliás sempre os resolveu. Também tem um enorme respeito por todas as pessoas e rege-se por uma serenidade que impõe respeito a todos aqueles que o rodeiam.”

Paulo Madeira: Técnico passou mística ao grupo

“É uma figura incontornável do Benfica. Foi meu treinador para preencher uma lacuna e conseguiu-nos transmitir o seu carisma e a sua mística. Lembro-me que fez questão de deixar claro que não tinha a ambição de ser treinador e o seu único objetivo era ajudar o Benfica. Conseguiu-nos passar esse enorme respeito que sente pelo Benfica e aceitou todas as situações que lhe surgiram pela frente. Alcançou os objetivos que lhe propuseram, sempre com o estilo “low-profile” que o caracteriza.”

CURIOSIDADES

- A eletrónica, em conjunto com o futebol, sempre foi a sua paixão. Aos oito anos desmontava os carros elétricos que lhe ofereciam, só para ver o seu funcionamento. Em Lisboa concluiu os estudos em mecânica para satisfazer o desejo do pai

- Em Moçambique, aos 10 anos, a brincar com um foguete que não havia rebentado, sofreu uma deficiência na mão direita. Não se deixou abalar com o revés e começou a escrever também com a mão esquerda

- O Benfica sentiu muitas dificuldades a trazer Shéu, ainda menor, para Portugal. O pai queria evitar que o filho jogasse futebol, pois pretendia que ele estudasse, e não se deixou convencer pelo dinheiro do Benfica. “Eu não vendo o meu filho”, afirmou na altura Low, que só se deixou comover pelos pedidos do então adolescente

- Começou como avançado mas era apanhado várias vezes em fora-de-jogo devido à ambição de marcar golos. Nos juniores o treinador não hesitou em recuá-lo para o meio-campo, uma nova posição à qual Shéu não revelou problemas em adaptar-se

- Um diferendo com o Benfica e a sua filial Sport Lisboa e Beira acabou por deixar Shéu vários meses sem jogar em Lisboa. O diferendo só foi ultrapassado em 1974, quando o Benfica foi a Moçambique disputar um particular e a receita reverteu integralmente para o clube moçambicano

- Shéu ouviu um boato sobre a sua primeira convocatória para o jogo com o Barreirense e levou a bagagem para o treino. Contudo, para evitar uma eventual brincadeira, escondeu a mala e só a apresentou quando a convocatória se tornou oficial

- No final da carreira ponderou tirar o curso de árbitro e iniciar uma nova etapa ligada ao futebol. O convite para secretário-técnico endereçado pela direção do Benfica acabou por evitar que enveredasse por esse percurso

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