Simão e a dor no título de 2004/05: «A partir de janeiro joguei só com a perna direita»

Extremo levou cinco meses agastado com uma hérnia

• Foto: Luís Vieira

Simão Saorosa cumpriu 49 jogos oficiais pelo Benfica em 2004/05 e mostrou-se determinante na obtenção do título nacional dessa época. Contudo, o então extremo da águia explicou que durante cerca de cinco meses jogou lesionado, mas que o final desse esforço compensou.

"Esse título tem muitas estórias curiosas, foi um título bastante suado até final. Houve várias situações que ultrapassámos, de derrotas a lesionados. Onde não podíamos falhar, frente ao Sporting em casa, com o golo do Luisão, passámos a depender de nós mesmos. Chegámos ao Bessa e conseguimos o ponto necessário para sermos campeões nacionais. Era o nosso objetivo e o meu também desde que cheguei ao Benfica, juntamente com os meus companheiros. Queríamos colocar o Benfica na rota dos títulos, um clube que estava habituado a eles e a que história nos levava a que o Benfica conseguisse conquistar títulos. Ainda me emociono, parece que foi ontem. Foi muito difícil a nível coletivo e pessoal. Em janeiro, num jogo para a Taça de Portugal com o Sporting que acabámos por ganhar nos penáltis, comecei a sentir dores. Tive uma hérnia enguinal. A partir de janeiro passei a jogar praticamente só com a perna direita e fui praticamente totalista em todos os jogos. Sem poder utilizar a perna esquerda, a direita era a mais forte mas não podia tocar com o pé esquerdo na bola", começou por vincar em declarações à BTV.

Críticas

"Foram quatro a cinco meses de muito sacrifício e muitas críticas, as pessoas também não sabiam o que é que eu tinha. Só mais tarde foi divulgado. Vale a pena o sacrifício quando no final tudo corre bem. Valeu a pena sofrer e chorar, sentir essas picadas. Mais tarde essa situação começou a afetar-me o adutor esquerdo também. De facto, os meus treinos eram manutenção, testar se havia dor e chegar ao fim-de-semana e saber se podia jogar. Quando marquei aquele penálti no Bessa senti um alívio enorme. Parece que me saiu um peso das costas. O título não estava atribuído, faltavam muitos minutos, mas estava mais próximo. Foram momentos complicados que passei e vários companheiros também, mas o título foi muito saboroso. Foi posto à prova tudo o que conseguia fazer, consegui ajudar a conquistar os três pontos jogo a jogo."

Operação já após a Seleção

"Era não saber como ia estar no dia a seguir. Queria preparar-me e sentir bem nos jogos. O trabalho era feito para que no jogo me sentisse o mais confortável possível. Só podia ajudar com o pé direito. Tinha de o usar para tudo, consegui vencer a dor e aguentar tudo. Só já na Seleção, após um cruzamento em que só poderia fazer de pé esquerdo, sentia uma dor enorme e optámos pela operação. Aquelas indecisões, pensando durante a noite o porquê... Foram momentos bastante difíceis, até a lidar com a crítica. Ninguém gosta de ser criticado mas doía ainda mais nesse momento pelo facto de estar limitado. Só mais tarde é que partilhei isso. O próprio clube faz para que eu esteja protegido mas chega a uma altura em que não dá para esconder mais. Depois, o clube tem de confirmar. A partir daí as pessoas já não queriam saber, só queriam que eu jogasse e fossemos campeões. A partir de janeiro, por baixo da camisola do Benfica tinha uma camisola de proteção que me dava mais força e energia para acabar os jogos. Com o Trapattoni fiz os jogos todos. Num jogo da Taça de Portugal ante o E. Amadora, ele diz-me que vou ser convocado e que iria ficar no banco. ‘Se você me vai convocar para descansar, eu vou estar concentrado e em estágio, eu prefiro jogar. Não consigo estar no banco sem conseguir jogar. Quero jogar sempre’. E fiz esse jogo todo."

Relação com Trapattoni

"Ele era um pai para os jogadores, tinha muita experiência, já tinha treinado muitos jogadores, sabia as manhas e como chegar aos jogadores. Sabia fazer os jogadores baixar a guarda, fazia os aquecimentos connosco. Tinha uma relação muito boa com todos. Ríamos muito com ele. Ele no treino misturava as línguas todas, tentava falar aquele meio espanhol-português. Ouviamo-lo com admiração e tínhamos de nos deixar levar por ele. É um grande treinador. Havia o presidente Vieira e o José Viega, que era uma pessoa com grande experiência empresarial. O presidente era alguém com muita experiência mesmo estando há pouco tempo como presidente. Já sabia qual o caminho a seguir. O Trapattoni foi a contratação certa e conseguimos ser campeões. Recordo-me quando estávamos numa fase vencedora e os jogadores pediram-me na qualidade de capitão para pedir mais um dia de folga. Fui falar com o Trapattoni e diz-me: ‘Vai tu mais dois dias para Milão ou Roma’. E eu respondo: ‘Não, míster. Eu estou a pedir para a equipa toda’. Ele dizia que não, para eu ir sozinho. Eu disse que não, ou era para todos ou estava cá para treinar. Não sou mais do que ninguém e lá garantiu um dia de folga para todos. Ele era fácil, qualquer jogador tinha a porta aberta para conversar."

Por Flávio Miguel Silva
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