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Um egípcio divino que acaricia a bola como um objecto sagrado

BENFICA “DE SABRY” REGRESSA ÀS VITÓRIAS COM JOÃO PINTO E POBORSKY NA EQUIPA INICIAL

A VITÓRIA do Benfica sobre o Gil Vicente atingiu uma proporção que não corresponde inteiramente à diferença das equipas sobre o terreno, mas distingue a qualidade de alguns jogadores encarnados em contraste com a boa vontade mal concretizada dos minhotos. Três golos de diferença são ditados por futebolistas de qualidade superior, como Sabry, João Pinto, Poborsky e Nuno Gomes, que ontem puderam ser contemplados em alguns períodos a tratar a bola como um objecto de culto, dir-se-ia “sagrado”, tendo por objectivo o espectáculo e o jogo positivo.

Ao contrário do que sonhava e ameaçava o treinador Álvaro Magalhães, o Gil Vicente não teve tempo de “atrapalhar o Benfiquinha”, porque a equipa de Heynckes entrou em campo muito motivada e disposta a alcançar rapidamente um triunfo que apagasse a má imagem do último jogo na Amadora e a relançasse para o difícil teste que se segue, no Bessa.

João Pinto e Poborsky, de regresso ao onze titular em detrimento de Maniche e Machairidis, Sabry, com espaço e bom apoio de Bruno Basto, e Nuno Gomes, no seu período de melhor forma e confiança da temporada - foram os mestres do cerimonial futebolístico montado em torno do “altar” gilista. E desta vez, ao contrário do que vem sendo uma característica negativa do Benfica esta época, as “cerimónias” foram poupadas na zona de finalização, com os dois primeiros golos a surgirem em menos de 20 minutos. O primeiro uma maravilha de concepção e finalização, o segundo uma infelicidade do defesa Carlos.

DOIS EXTREMOS

Apesar da disposição táctica, marcando os centro-campistas do Benfica, tapando as faixas laterais e tentando pressionar longe da sua área, o Gil Vicente não suportou a amplitude do jogo adversário, assente num esquema com dois extremos o mais possível “abertos” sobre as laterais. Dir-se-á que é à moda antiga, mas a verdade é que o talento de Sabry - que traz à lembrança a “mitológica” extrema-esquerda benfiquista - e de Poborsky para jogarem dessa forma pode ser das raras mais-valias do Benfica sobre os seus adversários mais directos.

O egípcio com as suas “sabrinas” curtas e o checo com os seus “piques” longos massacram as resistências e conseguem provocar o desequilíbrio. Depois é preciso alguém para fazer “render” o seu trabalho: a má concretização tem sido o drama da época benfiquista, com João Pinto a concluir uma volta inteira (17 jogos) desde que marcou o seu último golo, frente ao Boavista, a maior “branca” da sua carreira!

Mas, pelo contrário, o que aconteceu ontem foi um aproveitamento extraordinário de três belos passes de Sabry, para João Pinto, Bruno Basto e Nuno Gomes, em cada um dos golos. Não tardará que seja tratado pelos benfiquistas como “divindade” este egípcio que trata a bola de forma carinhosa, afagando-a com o seu excepcional pé esquerdo ou beijando-a antes da execução de cada livre ou pontapé de canto. É um futebolista da velha escola do futebol tecnicista que marca a tradição do clube, que tem de mais “sagrado” o jogo de qualidade e positivo.

BOSSIO REDIMIDO

O Gil Vicente teve uma boa atitude, entrou como o sentido em repetir a proeza de duas semanas antes em Alvalade, mas só conseguiu impor a sua superioridade numérica a meio campo no segundo quarto de hora, com uma desvantagem já problemática no marcador. Mas até ao intervalo, particularmente depois da troca do médio Nascimento pelo ponta-de-lança Guga, foi a equipa que dominou e que mais rematou à baliza, proporcionando a Bossio um punhado de intervenções que fizeram diminuir, paulatinamente, a desconfiança com que ainda é olhado pelo Terceiro Anel. Em todo o caso, do excomungado estilo musculado do Benfica “fora de casa” manteve-se a deficiente cobertura do meio-campo, com Calado “submerso” em trabalho e Kandaurov sem resistência física, que não deixaria de causar sérios prejuízos perante adversários mais oportunistas.

Nos primeiros 13 minutos do segundo tempo, com João Pinto já liberto da marcação de Petit, o Benfica regressou ao controlo da situação, beneficiou de uma série de cantos e convenceu-se do triunfo. Isso deu origem ao pior período da partida, muito faltosa e desinteressante, com o Gil Vicente a acercar-se da baliza em livres e numa ou outra jogada de Petit ou Casquilha, tentando suprir o “desaparecimento” de Carlitos, que perdeu o fulgor da primeira parte. O 1-2 parecia mais possível do que o 3-0, mas o ritmo do jogo era controlado pelos encarnados.

Com o público resignado, o Sol a desaparecer e a temperatura a arrefecer, surgiu o “divino” terceiro golo que, para lá da precisa finalização de Nuno Gomes, vale sobretudo pelo passe de Sabry - uma marca de autor. Para os minhotos foi um exagero de punição, para os adversários que aí vêm constituiu um aviso sério. Resta ver se Heynckes vai preferir o “sagrado” da técnica ou o “sacrilégio” do músculo quando voltar a escalar a equipa.

JOÃO QUERIDO MANHA

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