Contracrónica: Não o comeram de cebolada

Opinião de Alexandre Pais

• Foto: Miguel Barreira

Fui leitor e telespectador atento das dezenas de previsões que ao longo da semana se fizeram sobre o dérbi e antes do jogo tinha uma certeza: Rui Vitória estava tramado. Tudo indicava, acreditando nas teses dos cientistas, que lhe ia acontecer aquilo que mais teme na vida – ser comido de cebolada. Aliás, o treinador do Benfica vai ter ainda muito que sofrer até lhe reconhecerem os méritos sem més nem meios més, pois mal o apanharam com duas derrotas consecutivas logo o crivaram de balas.

Desastre. O principal problema que teria de resolver residia nos centrais: Luisão porque estaria velho e Lindelöf porque já não era o mesmo que os grandes da Europa disputavam. Os conselhos a Rui Vitória iam da imediata titularidade de Jardel para atuar ao lado do sueco, até à possibilidade de o brasileiro fazer dupla com Lisandro. Até eu, que quanto mais futebol vejo menos o entendo, sabia que tivessem jogado ontem Jardel e Lisandro, sem ritmo e sem rotinas, e seria o desastre.

Derrota. Outra questão que mudaria o nome de Vitória para Rui Derrota era o banho de bola que Gelson Martins iria dar a André Almeida, caso o técnico escalasse para o onze um homem que não é lateral-direito quanto mais esquerdo. E havia também reservas quanto a Salvio e Gonçalo Guedes, que estariam fora de forma, e a Pizzi e Fejsa, que não poderiam opor-se com êxito à classe do meio-campo leonino – e que bem jogaram, de facto, Adrien e William Carvalho!

Ederson. Como tantas vezes sucede, a realidade encarregou-se de desmentir a ciência futebolística. Rui Vitória manteve a defesa caída em desgraça e saiu-se bem. Não me lembro de um lance de um contra um que Gelson tenha ganho a Almeida, e Luisão e Lindelöf safaram-se porque quando não se sabia deles – como no lance em que Bas Dost reduziu a diferença – e William chutava para o golo no coração da área, Ederson resolvia os apertos com defesas monumentais. Quanto a Gonçalo Guedes, a velocidade da transição e a perfeita abertura ‘in extremis’ para Rafa centrar para o 1-0, foram esclarecedoras da sua baixa de forma, tal como a de Salvio, que abriu o marcador, com superior qualidade de execução, após bater ao sprint um dos piores laterais da Europa e arredores.

Amigos. Claro que Rui Vitória teve bons amigos para não ser comido de cebolada. Primeiro, Jorge de Sousa, que viu a bola bater nas mãos de Pizzi e Nélson Semedo e achou que não havia justificação para a marcação de penáltis. Depois, o poste, que substituiu Ederson e evitou o golo do empate, imediatamente antes do 2-0, mudando desse modo a sorte do jogo. E finalmente os centrais do Sporting, que se desposicionaram na jogada do segundo golo, deixando, na que seria a sua zona de ação, o baixinho a disputar a bola de cabeça a Jiménez.

Estrela. Assim se conclui que o Sporting não merecia ter perdido e que tem motivos de queixa do árbitro? Sem dúvida, mas o importante no futebol não é ter razão, é encontrar, na escuridão do céu, a estrela da vitória.

Por Alexandre Pais
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