Mais tempo útil de jogo em Portugal passa por coragem, relvados e multas pesadas

Oradores do Webinar da Liga Portugal dão exemplo do futebol inglês e apontam aos ‘pecados’ nacionais

A Liga Portugal quer internacionalizar o futebol profissional nacional enquanto produto televisivo, consumando a venda dos direitos noutros mercados e começando a encher os cofres dos clubes portugueses. E está encontrado o caminho: melhorar o tempo útil de jogo. De acordo com os dados ontem apresentados por Tiago Madureira, diretor executivo do organismo, durante o webinar que visou precisamente esta questão, a Liga NOS está uns furos abaixo das cinco melhores ligas europeias e os oradores deram vários pontos de vista para se poder evoluir no sentido certo.

Para se ter uma ideia, há, em média, 110 paragens por jogo, sem incluir substituições, assistência médica ou intervenção do VAR. As cinco melhores Ligas nem chegam às 100 paragens. Para Marco Silva, treinador que começou no futebol português, passou pela Grécia e Premier League (Inglaterra), o problema é cultural. "Tem muito a ver com respeito, forma de apitar e jogar. Coragem de quem está a liderar o processo, os treinadores, e de quem regula o jogo, os árbitros. Mas para haver coragem tem de haver condições e protecção. Aqui refiro-me aos árbitros", afirmou o ex-técnico do Sporting, revelando que em Inglaterra os regulamentos defendem mais o produto: "Quando abordamos um árbitro no fim do jogo, ele diz: ‘Vem ao meu balneário e falamos’. Houve um jogo em que decidi que tinha de falar ali. Levei uma multa muito elevada. Respondi a um inquérito, não levei um jogo de castigo, mas sim uma multa muito elevada. Se me vão multar em 20 ou 25 mil libras (23 ou 28 mil euros), nem é tanto pelo valor, tem a ver com a opinião pública, estou a pagar uma multa por algo que posso fazer dentro do balneário".

Marco Silva lembrou-se ainda de outra história relacionada com a mão pesada dos responsáveis ingleses. Remonta ao tempo em que treinava o Hull City: "Um dia cheguei e tinha recebido uma carta. Num jogo, os meus jogadores foram protestar junto do árbitro. Eram mais de três. Na carta dizia que só era possível o capitão e mais 2 jogadores. Mais do que isso daria direito a multa ao clube."

Daniel Podence, avançado do Wolverhampton, também abordou a questão cultural, em particular na Grécia, onde esteve ao serviço do Olympiacos. "Não é por acaso que os árbitros lá são internacionais quando há jogos grandes. Os árbitros nacionais têm medo de ser apedrejados no dia a seguir ao jogo. Acontecia muito. Em Inglaterra os adeptos não ligam às arbitragens", começou por dizer, partilhando depois a experiência inicial na Premier League: "Senti rapidamente que era um tipo de jogo mais físico. Se for preciso, os adversários nem querem saber da bola. Querem fazer falta e muitas vezes os árbitros não marcam. Antes caía duas vezes e agora só caio uma. Também é preciso coragem dos jogadores para não se atirarem para o chão. Temos de ser viris e continuar." A situação está, porém, a mudar com a pandemia, segundo Podence "muitos jogadores aproveitam o facto de não haver público e gritam desalmadamente, o que faz os árbitros marcar falta por pensarem que será algo perigoso."

Já Duarte Gomes, ex-árbitro, destacou a fraca qualidade do atual quadro de árbitros nacionais: "As equipas passam por ciclos de renovação, acontece o mesmo com os árbitros". Mas não considera os antigos colegas os únicos culpados por em Portugal haver mais de 30 faltas em 67% dos jogos disputados – na Premier League o número desce para 8% de acordo com os dados apresentados por Tiago Madureira. Se antes os juízes eram permeáveis às bancadas, agora são aos… bancos. "O ruído é muito mais localizado, apesar de ser menor em decibéis. Há uma tendência de arbitragem muito defensiva entremuros", afirmou, referindo-se aos números de faltas assinaladas pelos árbitros portugueses nas provas europeias ser inferior à exceção de Fábio Veríssimo. "Os árbitros sabem que em Portugal os erros são dramáticos na opinião pública e podem afetar a vida familiar. De forma inconsciente, isso faz com que travem mais o jogo." Ainda sobre os bancos de suplentes, Gomes criticou: "Em Portugal vemos autênticos folclores nos bancos, São 10 ou 12 pessoas levantadas. O número de pessoas no banco técnico e suplementar é elevado e já se percebeu que serve para gerar ruído. Na UEFA já perceberam."

O tema das sanções voltou à baila com Costinha: "Se os jogadores e treinadores levam multas fáceis de pagar, isso também acaba por ser um incentivo." O treinador mostrou-se compreensivo com o facto de haver equipas a utilizar o desperdício de tempo como estratégia, embora não concorde. "A disponibilidade e condições que o treinador tem para desempenhar o seu trabalho são fundamentais. Muitas equipas são obrigadas a trabalhar para o ponto, pois se calhar na semana seguinte o treinador já não está", disse o ex-jogador do FC Porto e internacional português, que salientou ainda a fraca qualidade de alguns relvados nacionais: "São as tais pedrinhas que vamos juntando…" Ainda neste tema, Marco Silva revelou que a condição do tapete verde do Estádio António Coimbra da Mota foi motivo para constantes guerras com a administração do Estoril.

Em relação às propostas finais dos vários participantes, Duarte Gomes destacou-se dos demais, deixando no ar as seguintes ideias: cronometragem real do tempo perdido, substituições volantes como no futsal, assistência médica com o jogo a decorrer como no râguebi, lançamentos laterais com o pé ou o guarda-redes proibido de agarrar a bola em qualquer atraso. O ex-árbitro deixou ainda um apelo aos vários agentes desportivos: "menos arbitragens defensivas, menos simulações, fitas, propensão para conflito e protesto fácil, saber estar nos bancos e respeitar, mesmo que a discordar".

Depois de ter aberto a segunda sessão do dia no webinar, Tiago Madureira também teve a responsabilidade de encerrar. "Este é um tema que vamos continuar a trabalhar. É necessário ouvir outros agentes. Vai haver uma reunião com treinadores no próximo dia 23, porque eles também têm responsabilidade", disse o diretor executivo da Liga Portugal, revelando que se "frisaram alguns pontos que vão ter impacto em termos regulamentares, como os relvados". "Têm impacto no jogo e na imagem externa. É impossível falar de internacionalização e depois ligamos a televisão e vemos 110 paragens por jogo, não incluindo substituições, assistência médica e VAR. É difícil fazer essa promoção", disse, explicando que os treinadores "têm de ser ouvidos". "Ao analisar os dados, nos tops de mais e menos tempo útil, entende-se que há um padrão, uma componente estratégica relevante", disse Madureira, referindo-se a Farense e Nacional, que surgem, respetivamente, em quatro e três jogos, nos 10 desafios com menor aproveitamento de tempo útil até à data na presente temporada (abaixo dos 47%). Mas não só: Rio Ave e V. Guimarães estão no plano oposto, pois ambos clubes marcam presença, cada, em 3 partidas nas 10 jornadas com melhor tempo útil.

A rematar, Tiago Madureira partilhou uma história: "Em relação a mudar a cultura, gostava de dar um exemplo que dou muitas vezes da Premier League. Há 2 anos fui ver o Everton-Liverpool e alertaram-me para um facto. Em Inglaterra, na Premier League, só há uma bola no jogo. É sempre a mesma bola que sai, entra e volta. É demonstrativo."

Por Luís Mota
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