As mil e uma histórias de Mourinho no FC Porto

De Baía, a Jorge Costa, passando por Sevilha e por Gelsenkirchen

• Foto: Arquivo/Manuel Araújo

Numa entrevista ao Porto Canal de praticamente 3 horas, José Mourinho abordou inúmeros momentos da sua segunda passagem pelo FC Porto. Histórias não faltaram e Record deixa-lhe aqui o resumo de algumas delas.

Braçadeira de capitão em 2002/03
"Ali era a casa do Jorge Costa [que regressou após empréstimo ao Charlton] e sabíamos que era importante numa equipa tão jovem, em que a maioria deles nunca tinha jogado um jogo de Taça UEFA, um clássico, um dérbi, nunca tinha ganho um título… Era importante ter dois ou três jogadores com determinado peso, personalidade e cultura de clube. E depois não existem guerras de egos entre amigos e o Jorge Costa e o Vítor Baía são amigos. Acabaram com aquilo de uma maneira espectacular. Se sou eu naquele a momento a decidir quem é o capitão, se sou eu assumir aquilo… Foram eles que assumiram, que me ilibaram de uma situação difícil. Foi o início de muita coisa."

Música 'Filhos do Dragão'
"Fomos nós que a fizemos no autocarro, no estágio de 2002/03. Fomos começando a cantá-la e fazendo a letra no dia a dia. Chegamos ao fim da pré-época e cantámo-la no balneário pela primeira vez. No jogo que fechou o estágio, fomos a penáltis, com o PSG. A determinada altura, vamos para decidir o jogo já após a sequência de cinco penáltis... O Maniche vira-se para mim e diz que marca. 'Marcas como? Já foste substituído.' E diz ele: 'Não faz mal, o árbitro não nota.' Ele tira o fato-de-treino, marca e ganhámos."

Conflito com Vítor Baía
"O meu grande amigo Vítor. O Vítor para mim não era só jogador, era meu amigo. Fomos para Barcelona ao mesmo tempo, as nossas filhas e as nossas mulheres eram amigas, frequentámos a casa um do outro… Dávamo-nos muito um ao outro por estarmos ambos pela primeira vez fora. Depois reencontrámo-nos no FC Porto e houve ali um espaço de tempo em que tivemos de nos adaptar, em que eramos amigos mas um era treinador e outro jogador. Só saímos reforçados desse problema, também porque o presidente soube-se posicionar da forma mais positiva para o grupo e nós soubemos ultrapassá-lo no momento certo e da maneira certa. E nem foi preciso conversar."

Expulsão premeditada
"As Antas era apaixonante. Nas Antas os adeptos jogavam comigo, porque a equipa era à sua semelhança. Por exemplo, jogar com o Benfica com um jogador a menos. O treinador faz mais falta nesse período ou ganha mais por criar emotividade e reação? Em determinados momentos a equipa jogava melhor se eu estivesse fora. E havia dois ou três árbitros que bastava eu espirrar para me expulsarem. Era tão fácil criar uma reação que o estádio interpretasse sempre como uma afronta… Foi um jogador a menos, mas 50 mil a mais."

Jorge Costa no Restelo [FC Porto a perder 1-0 ao intervalo, em 2002/03]
"O Jorge sabia que eu estava cego. O túnel do Belém é grande… Eu ia a bufar e ele diz-me: 'Dá-me 3 minutos.' Ele entra antes de mim e eu fico fora. Depois percebi que quando entro, em vez de entrar para rebentar, entro para educar, melhorar e transformar. O trabalho a nível mental, que tinha a ver com a ambição, estava feito. Ele fez o trabalho por mim e quando entro só falo de futebol."

"Em condições normais vamos ser campeões e em anormais... também"
"Era uma convicção absoluta. Um treinador, um presidente e até um capitão, quando tem determinadas declarações, arrisca-se ao ridículo se o que está a ‘prometer’ não tem possibilidades de vir a acontecer. Para não o fazer de uma forma teatral tens de estar convicto e eu estava convicto do que disse. Nós eramos mesmo muito melhores do que os outros."

2.ª mão da meia-final da Taça UEFA com a Lazio
"Se tivesse de escolher um jogo em que, na preparação do mesmo, tenha feito tanto trabalho, teria que escolher esse. Porque em princípio não poderia comunicar [tinha sido expulso] e porque tínhamos ganho por um resultado que não deixava perceber o que o adversário faria. Então preparei-me a mim próprio para essa imprevisibilidade e à minha equipa também. Preparámos tudo! De tal maneira que, apesar de estar a ver o jogo lá em cima e eles terem falhado um penálti, a sensação era de que podíamos estar ali dois dias e eles nunca nos iriam marcar um golo."

'Morto' em Sevilha
"A final da Taça UEFA continua a ser o jogo de maior tensão da minha carreira. É um jogo disputado num clima desértico, um calor impressionante, e depois o decorrer do marcador... Foi um jogo de 120 minutos jogado ao segundo. Acabámos 9 contra 10… Foi um sofrimento até ao fim. Não foi a maior vitória da minha carreira, não foi a maior alegria, mas em termos de intensidade, de dizer que ‘Acabou, estou morto’... Acabei e estava morto. (…) E depois de ganhar, quando nos disseram o que estava à nossa espera nas Antas, acabou o cansaço."

Exemplo Derlei
"O Derlei rompeu o ligamento a jogar à Derlei. Talvez continue a ser até hoje o meu avançado com melhor transição defensiva. Ou seja, quando a equipa perde a bola, continua a ser o meu atacante mais forte. Era um jogador fundamental na nossa agressividade. Foi uma perda enorme [na segunda metade da época 2003/04]. Se em algum momento houve alguma descrença, foi quando o perdermos. (...) O meu Ninja. E o curioso desse rapaz é que jogava para mim no FC Porto da mesma maneira que jogada no U. Leiria. Jogava não só pelo orgulho, pelo seu brio profissional. É um daqueles jogadores que tu sentes que joga verdadeiramente para ti. No U. Leiria disse-lhe quando eu for tu vais e crescemos juntos nessa direção. A recuperação dele só é possível num jogador com aquela mentalidade. E grande trabalho do staff médico."

Sérgio Conceição e Maciel reforços de janeiro
"Chegam porque o presidente pensa que é possível fazer alguma coisa na Champions. É o tipo de situação que tu não fazes se não pensas que o podes. Queres é fazê-lo sem hipotecar o campeonato. Quando vêm dois jogadores que não podem jogar na Champions, mas podem no campeonato, é precisamente para te libertar da acumulação de fadiga para o ataque à Champions."

Lembrar o risco de exclusão aos jogadores do Deportivo
"O jogo da 1.ª mão é um jogo que queres ganhar, mas não queres sofrer golos. Eles e o Monaco marcavam muitos golos, muitas goleadas. O Corunha meteu 4 ou 5 no Milan. Nós sabíamos que não poderíamos perder o jogo em casa e era fundamental tentar não sofrer golos. Pensámos que seria mais fácil para nós controlar o jogo do que desequilibrá-los. Eram muito fortes. Tinham equilíbrio, força, experiência… Deu 0-0 e não poderia ter dado outra coisa. Foi importante o 0-0, foi importante o Mauro Silva ter sido castigado… Eles na 2.ª mão tinham 7 dos 11 em risco de exclusão para a final e os nossos jogadores passaram os primeiros 10 minutos a relembrar-lhes disso. ‘Tu se apanhares amarelo não jogas a final…" Teve ou não efeito? Não sei, mas reduziu aquilo que se chamava a 'Furia do Depor'. Eles eram campeões de Espanha."

Confiança para Gelsenkirchen
"No aeroporto, antes de irmos para a Alemanha, estavam adeptos VIP do FC Porto perto de nós. Tiro da minha mala a análise do jogo, toda a preparação, assino, cumprimento a pessoa e ofereço o documento. Sabíamos ao que íamos. A experiêmncia da UEFA do ano anterior foi boa. Acho que todo aquele circo da chegada a uma final com tudo o que agora é normal, todo aquele aparato, o facto de termos tido a experiência anterior deixou a equipa relaxada. E a equipa era forte, mental e fisicamente estávamos bem. Fomos perfeitamente convencidos que íamos ser campeões."

A obra mais perfeita
"O simbolismo da Champions de 2003/04 é maior do que todos os outros. Se me falares do sentimento que criaste no povo do Inter, por terem ganho uma Champions 50 anos depois, ou do simbolismo de ter ganho a Champions no meu país, é claro que significa mais por muito que ame as pessoas do Inter. O facto de ter sido a última ganha por Portugal prova exatamente isso mesmo. Obra-prima? A perfeição vê-se na diferença entre o meu primeiro onze, com o Marítimo, em 2001/02, e a equipa do meu último jogo, a final de Gerlsenkirchen. A nossa obra-prima é essa. Fomos tantos que a fizemos, não gosto de dizer ‘ a minha’. Na minha carreira é talvez o momento mais bonito, mas gosto de o dizer que é nosso, todos juntos."

Por André Monteiro
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