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Belenenses-FC Porto, 1-4: Passeio muito seguro até perto da perfeição

CRÓNICA

Um FC Porto sem pressa mas muito senhor de si próprio; que sofreu golpe inesperado mal se lançou à estrada mas não perdeu o norte; que se reencontrou aos poucos, à custa de uma confiança inabalável nas suas capacidades, a caminho de um jogo que, em determinados momentos, atingiu o brilhantismo, eis, em poucas palavras, o trajecto ontem percorrido pelo campeão no Restelo.

Os campeões nacionais conheciam o itinerário e todos os obstáculos do percurso; sabiam também que o jogo do Restelo era apenas mais uma etapa do ciclo que inclui viagens a Marselha e ao Bessa. Nada pior para a sua tranquilidade que sofrer um golo aos 5' e ver o adversário ganhar confiança. O FC Porto precisou apenas de não entrar em transe; prosseguir o caminho com os sentidos bem despertos; andar sempre para a frente, mesmo que devagar, à espera que o momento da viragem acontecesse.

Ao fim de um quarto de hora, tudo voltou à normalidade (Belenenses a perder gás e golo de Derlei) e à passagem da meia hora (já com ascendente claro, Deco fez o 2-1) a excursão percebeu que podia, finalmente, seguir o seu caminho.

Três centrais

O Belenenses não abdicou do sistema mais vezes utilizado esta época. Mesmo perante uma equipa que se apresentou apenas com um ponta-de-lança (Derlei), Manuel José optou por manter o esquema de três centrais com o qual tem tido um início de campeonato com melhores resultados do que o esperado.

Porque a equipa tem crescido nessa estrutura, os azuis do Restelo não sentiram necessidade de fazer exercícios de encaixe táctico e procuraram a hegemonia do jogo assentes na vantagem numérica atrás (mais segurança), confiantes no resultado dos duelos no miolo e esperançados que a dinâmica dos dois avançados pudesse trazer benefícios do outro lado do campo.

O início do jogo foi um engano para o Belenenses e um relativo motivo de preocupação para o FC Porto. O golo de Gonçalo Brandão conduziu a análise daqueles minutos iniciais, do primeiro impacto do choque estratégico, para a sensação de que o desfasamento táctico das equipas seria benéfico para os azuis do Restelo. Chegou até a fazer sentido envolver Derlei no meio de três defesas e de jogar a pares em todo o meio campo.

O problema foi quando o FC Porto percebeu que estava a deixar-se manietar na sua linha defensiva: os dois avançados do Belenenses, posicionados com critério, seguravam os quatro defesas contrários. Quando Paulo Ferreira e Nuno Valente perceberam que tinham mesmo de subir no terreno, a estrutura defensiva belenense começou a dar sinais de insegurança.

Estranho

A principal estranheza na forma como o FC Porto operou a reviravolta, não tem a ver com o facto em si, mas com a forma como a construiu. Em primeiro lugar porque não é habitual ver Wilson cometer uma leveza em lance com o valor de um golo, depois porque a intranquilidade colectiva da equipa da casa prosseguiu com novo deslize individual de Carlos Fernandes, que permitiu a Deco finalizar nas suas costas - isto para já nem falar do desacerto do lateral-direito Sousa.

Nessa altura, quando o FC Porto se colocou na posição de vencedor, o jogo mudou definitivamente. Culpa do Belenenses que entrou em depressão total e nunca mais articulou uma jogada, mas culpa principalmente da qualidade portista, que retomou a viagem como se nada tivesse acontecido até então. Deco assinou, muito provavelmente, a melhor exibição da época; Derlei quis mostrar que tem arte e fôlego para se bater com quantos adversários lhe quiserem pôr à frente; Maniche foi crescendo até atingir um nível muito aceitável.

Golpe fatal

Para que a actuação portista se aproximasse da perfeição, muito contribuiu um momento decisivo: o terceiro golo do FC Porto, apontado por César Peixoto, dois minutos depois do intervalo. E para que nada faltasse às condições perfeitas idealizadas pelos campeões nacionais, o quarto golo surgiu logo a seguir, aos 53'.

Se a vitória estava assegurada e o domínio do jogo já era inquestionável, chegar tão cedo ao 4-1 serviu para criar condições que, noutras circunstâncias, poderiam ter conduzido a um resultado histórico. O Belenenses, em determinados momentos da partida, chegou a dar sinais de ter atirado a toalha.

José Mourinho preferiu então gerir o jogo e relativizar a importância de mais golos. O FC Porto roubou a bola, manteve a hegemonia do encontro, mas tirou o pé do acelerador. César Peixoto marcou o terceiro golo e saiu logo a seguir; Marco Ferreira fez o quarto e teve o mesmo caminho. A equipa descomprimiu, e confirmou os princípios básicos que já antes tinha sugerido: privilegiar a segurança, dominando a ansiedade; manter o prazer da competição, resistindo ao instinto de só ficar satisfeito aniquilando por completo o adversário.

Os últimos instantes estimularam também a picardia sempre desnecessária, mais ainda num jogo cuja história estava já contada. Até final, o Belenenses acentuou os pressupostos gerados imediatamente a seguir ao primeiro quarto de hora: insegurança confrangedora no sector defensivo (que é uma das referências técnicas da SuperLiga), desmotivação entre os centro-campistas e dois avançados solitários, cada vez mais desesperados pela cratera que os separava do jogo.

Árbitro

Pedro Henriques (4). Excelente actuação do juiz lisboeta, aquele que permanece como principal referência de uma determinada forma de arbitrar na SuperLiga. Manteve o critério de deixar jogar até ao limite; revelou condição física notável e ajuizou sempre bem os lances mais polémicos – que não foram muitos, diga-se de passagem.

Nos momentos mais quentes da noite, quando os jogadores se envolveram, agiu com serenidade. Pode não ter sido totalmente rigoroso, mas geriu as situações com bom senso. Num jogo que não foi de coeficiente de dificuldade máximo, defendeu a sua filosofia como juiz.
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