Record

Faltou ousadia ao Sporting para arriscar a vitória na Luz

LEÕES TIVERAM BASTANTES MAIS OPORTUNIDADES DE GOLO DO QUE O BENFICA, NUM JOGO EM QUE SCHMEICHEL NÃO FEZ UMA ÚNICA DEFESA!...

Faltou ousadia ao Sporting para arriscar a vitória na Luz
Faltou ousadia ao Sporting para arriscar a vitória na Luz

O SPORTING esteve sempre mais perto da vitória num “derby” interessante e animado que voltou a encher o Estádio da Luz e demonstrou que o futebol português não está condenado a ser uma guerra permanente, de palavras e não só. Antes de entrarmos na análise do jogo, é importante salientar esse facto: benfiquistas e sportinguistas, de jogadores a dirigentes, souberam dignificar o espectáculo e as flores oferecidas a Inácio por uma funcionária do Benfica, momentos antes do começo da partida, podem ficar como exemplo de como uma dura batalha desportiva (e este jogo foi-o, sem dúvida) não precisa de ser acompanhada de terrorismo verbal. Para consequência do tribalismo já bastam as cadeiras que a claque visitante, neste caso a do Sporting, cumpriu a tradição de não deixar de partir...

.........................................................................

O primeiro empate do consulado de Augusto Inácio (até aqui com 8 vitórias e duas derrotas) pareceu agradar ao treinador leonino. O Sporting, depois de uma primeira parte muito equilibrada, em que ambas as equipas dispensaram as balizas, poderia ter arriscado um pouco mais no decorrer da segunda. Iordanov ou até a estreia de Mbo Mpenza poderiam ter sido uma opção, mas Inácio, quem sabe se avisadamente, optou por não correr riscos.

Sair do estádio do Benfica a três pontos do FC Porto talvez não seja, realmente, nada de deitar fora - e o Sporting sabe que as chances de disputar o título passam por chegar a Março não muito longe dos pentacampeões nacionais.

O Benfica cedeu o segundo empate em casa (1-1 com o Boavista, à 8ª jornada) e começa a perder a tradição de ganhar ao Sporting em casa. Em seis anos baixou o fôlego de outrora (quatro empates e uma vitória para cada equipa), mas, curiosamente, este encontro deixou pistas para se acreditar que o Benfica pode reforçar significativamente o poderio atacante com as aquisições natalícias. Sabry é um futebolista de real capacidade criativa, que pode jogar em qualquer posição das três em que o Benfica de Heynckes divide o apoio ao ponta-de-lança; e Uribe, nos poucos minutos jogados, pareceu poder dar mais consistência físico-atlética ao miolo de um conjunto que muitas vezes já evidenciou falta de músculo. São esperanças que ficam para o futuro.

De resto, o Benfica experimentou bastantes dificuldades neste jogo. Teve de cometer mais faltas que habitualmente (30 contra uma média de 20, embora também aí o Sporting tenha subido: 24 contra 17). E, como na visita ao Estádio das Antas, quase não incomodou o guarda-redes adversário.

Schmeichel não fez uma única (!) defesa e só passou por três calafrios (Maniche, 25; João Vieira Pinto, 41 e cabeceamento de Nuno Gomes, 47... sempre ao lado). O Benfica precisa de melhorar no último terço do campo para poder disputar o título.

.........................................................................

Tacticamente o jogo não trouxe surpresas. Martin Delgado (feito treinador pela gripe de Heynckes) geriu o 4x2x3x1 do patrão germânico, com Chano ao lado de Calado e João Vieira Pinto (JVP) a jogar nas costas de Nuno Gomes, para além da estreia de Sabry no flanco esquerdo. O Sporting dispôs sobre o terreno o esquema (4x1x2x2x1 - uma variante do 4x3x3) que tem vindo a ser desenvolvido por Augusto Inácio, muito ao jeito do adoptado pelo FC Porto, ressalvadas as diferentes características dos jogadores:

Vidigal vértice recuado de um triângulo no meio-campo também integrado por Duscher (sobre a direita) e Delfim (sobre a esquerda). Depois dois homens sobre as alas (Ayew e De Franceschi) e outro (Acosta) na frente. Ainda assim, posições longe de serem rígidas. Várias vezes estes homens trocaram de posições ao longo do encontro.

Os esquemas encaixaram-se na perfeição; e daí resultaram diversos duelos particulares, alguns interessantes. Saber/Sabry, um duo de africanos, por exemplo. Mas também o de Vidigal na anulação a JVP.

A principal característica do jogo, emocionalmente poderoso, foi ser bastante musculado, pautado por muito rigor táctico de parte a parte, em especial na primeira parte.

Já aí, nesse período, o Sporting desfrutou da melhor oportunidade de golo, num cabeceamento de Ayew (17). Antes tinha acontecido o lance que ficará com certeza como caso do jogo: fora-de-jogo assinalado ao mesmo Ayew momentos antes de um remate em que Acosta fez chegar a bola ao fundo da baliza de Enke. Lucílio Baptista, a indicação do auxiliar, parou o jogo antes do remate do argentino - o que na altura, com sinceridade, nos pareceu correcto. Depois a televisão, com o frio rigor da imagem, mostraria que, afinal, Ayew estava em linha... Um erro difícil de avaliar na altura certa e por isso a arbitragem terá um dia de incorporar o vídeo em tempo real (mas isso é tema para outra altura).

O Benfica, naquele período, teve como principal lance criativo uma jogada corrida, de Nuno Gomes pela direita, em que JVP optou mal por um passe para o lado (para Sabry, que não acompanhara de perto), quando poderia ter optado por um remate com francas hipóteses de êxito.

.........................................................................

Depois do intervalo, logo a abrir, o Sporting conseguiu conquistar o primeiro canto (e nessa perspectiva o jogo foi “estranho”: um para o Benfica na primeira parte, dois para o Sporting na segunda). E partiu aí para momentos de superioridade sobre o Benfica, apenas cortados pelo cabeceamento de Nuno Gomes (47), a centro de JVP da direita, a que Schmeichel concedeu emotividade ao hesitar na protecção do poste (a bola saiu ao lado).

Foi esse o período em que se sentiu que o Sporting poderia aspirar a mais. O flanco esquerdo apareceu a trabalhar mais perto da área encarnada e até arrancou algumas faltas perigosas. Na sequência de uma delas, Enke tornou-se na figura do jogo ao negar por duas vezes o golo a André Cruz, a disparar na pequena área. Curiosamente, no segundo desses remates a transmissão da SIC mostraria um milimétrico fora-de-jogo que passou despercebido na altura...

De primeira para a segunda parte o jogo tornou-se mais veloz, mais aberto e ganhou profundidade.

E, como o Sporting apesar de tudo não arriscou demasiado, foi o banco do Benfica que mudou o jogo. Saiu o apagado Maniche, entrou Uribe. O egípcio Sabry mudou de flanco, JVP descaiu inicialmente sobre a esquerda e Uribe tapou-lhe as costas. Consequência disso, pelo menos aparentemente, o Benfica subiu no terreno - e o Sporting aceitou explicitamente a toada de contra-ataque, que prefere, ao trocar De Franceschi por Toñito.

Assim como o estreante Sabry esteve em foco do lado do Benfica, a experiência e o remate de André Cruz apareceram a ajudar o Sporting na parte final. Foi do ex-internacional brasileiro, aliás, que surgiu a solicitação para a derradeira oportunidade de golo: em toque de cabeça de Duscher, de costas para a baliza, em que Enke voltou a brilhar.

A estreia de Machairidis, a central, pareceu dever-se a um problema físico de Paulo Madeira.

Em resumo, o Sporting não quis correr riscos; o Benfica sai do “derby” a seis pontos do FC Porto mas pode ter agora uma equipa melhor do que há quinze dias - é aguardar por Kandaurov e Poborsky (e também Sumudica?) a juntar pelo menos a Sabry.

No Sporting é estranho ver ficar de fora jogadores como Pedro Barbosa e Edmilson, mas hoje em dia o trabalho físico e a capacidade atlética não se compadecem com a habilidade a espaços. Será isto? André Cruz pode ter vindo para ficar. Quanto ao menos conceituado dos Mpenza, que joga habitualmente no flanco direito -- como César Prates (na defesa) --, ficou por se estrear num jogo em que ele ou Iordanov poderiam ter sido opções.

.........................................................................

Pese os (dois) lances já analisados, e em que a televisão mostrou erros milimétricos em lances importantes, não podemos deixar de considerar como boa a arbitragem de Lucílio Baptista. Foi coerente e imparcial. Poderia ter mostrado o segundo cartão amarelo a André Cruz (71)? Talvez... mas também Paulo Madeira o justificou antes na persistência de diversas entradas sobre Acosta, e só o viu aos 69. De resto, pareceu-nos haver “qualquer coisa” num lance entre Beto e João Vieira Pinto, na área do Sporting (46), mas o árbitro estava “em cima” e mandou seguir com convicção. Boa arbitragem. repete-se.

JOÃO MARCELINO

Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
SUBSCREVA A NEWSLETTER RECORD GERAL
e receba as notícias em primeira mão

Ultimas de Sporting

Notícias

Notícias Mais Vistas

M