Médico recorda pedra que Varandas carregou na academia militar e que agora "deixou cair com estrondo"

Nuno Oliveira louva perseverança do amigo e diz que o título do Sporting é "uma lição de coragem que emociona"

• Foto: Vítor Chi

Médico do Sporting e antigo companheiro de Frederico Varandas nas forças armadas, Nuno Oliveira partilhou um extenso texto no Facebook, em que louva o feito do amigo na presidência do Sporting, recordando um episódio quando ambos frequentavam a academia militar. 

Nuno Oliveira lembra um dia em que "o cadete Varandas", que "tinha aquele aspeto de surfista, 'betinho' da Praça de Londres", foi obrigado a carregar uma pedra e como no final a deixou cair aos pés do oficial.  

O médico diz que a ouviu novamente a cair "com estrondo aos pés de muita gente" depois de o Sporting se sagrar campeão.

Leia a publicação na íntegra:

"Varandas e a pedra.

Durante o primeiro ano da Academia Militar os cadetes são submetidos a inúmeras provas físicas. Um 'clássico' é a 'marcha da sexta-feira à tarde'. Era o derradeiro obstáculo. Como se no final duma semana de enorme exigência física e psicológica ainda tivéssemos que batalhar pela concessão da 'licença de fim de semana'. Equipados com arma, capacete, mochila e demais material de combate formávamos em duas colunas e lá íamos nós, enquadrados pelos Oficiais. Sem objetivo definido, sem tempo marcado, 'até esquecer…'

Essas marchas eram precedidas duma revista de material. As mochilas da tropa são uma espécie de mala de senhora, em versão 'Rambo'. Tem que lá caber o mundo! Botas e farda sobressalentes, impermeabilizadas por sacos de plástico eram difíceis de esquecer. A coisa complicava-se com uma lista de minudências tais como: moeda de 50 escudos, lanterna com pilhas de substituição e difusor, lápis de carvão, fósforos impermeabilizados com cera, fio e agulha de costura.... Honestamente nunca consegui tê-las todas, ao mesmo tempo na mochila. O objetivo da revista era de forma 'pedagógica' detetar as faltas e corrigi-las com várias 'completas'. As faltas de cada um eram pagas por todos, de tal maneira que no final de trinta minutos, o objetivo dos Oficiais estava claramente cumprido: Todos começávamos a marcha com os músculos a latejar.

Numa dessas tardes calhou-nos na rifa um Oficial que tinha uma antipatia especial pela novidade que eram os 'Cadetes de Medicina' e pelo Varandas em particular. O Cadete Varandas tinha aquele aspeto de surfista, 'betinho' da Praça de Londres e o Oficial, um tipo básico e mal-encarado, não lhe reconhecia a boçalidade no trato que segundo ele devia marcar a personalidade dum cadete. Concluído o aquecimento à base de 'flexões', 'polichinelos' e 'pulos de galo' vira-se para o Varandas e dispara: 'Sr. Cadete está a ver aquela pedra? No final da marcha, apresente-me aquela pedra!'

Ainda hoje acho que seria capaz de reconhecer aquela pedra. Era um bloco triangular de mármore, com arestas vivas e em que uma das faces tinha um grande naco de cimento agarrado.

Começa a marcha. O Varandas com o equipamento todo e a pedra nos braços. Aquilo era difícil de transportar e impossível de tolerar durante o tempo que prevíamos que ia durar a marcha. Dois ou três fomo-nos deixando ficar para trás e começámos a oferecer ajuda. Fomos partilhando 'o fardo'. A tática era simples, carregar a pedra durante o tempo possível, até aos braços ficarem dormentes e passá-la ao outro. O Oficial apercebeu-se da nossa estratégia e passou à guerra psicológica. Sempre que o Varandas tinha a pedra ia para junto dele e gritava-lhe ao ouvido: 'O que é que está aqui a fazer? Entregue-me a pedra e desista! O que é que anda aqui a fazer? A sua namorada está agora na praia com outro! Entregue-me a arma e vá para casa! Você não serve para isto…'. Horas. O Varandas nem lhe dirigia o olhar. Caminhava em silêncio.

Chegámos ao final de rastos. Além das pernas, tínhamos sobretudo os antebraços em pedra e as mãos em ferida. Formatura da Primeira Companhia. Apercebo-me que alguém está a abandonar a sua posição e de repente vejo o Varandas lá na frente, a dirigir-se ao Oficial, olhos nos olhos: 'Meu Tenente dá licença?' e ato continuo, em frente de toda a Primeira Companhia, deixa-lhe cair a pedra muito perto dos pés. Lembro-me bem do estrondo! O Comandante de Companhia que era um Oficial educado e inteligente apercebeu-se do que estava a acontecer e seguiu a cena com o olhar, sem intervir. Ninguém reagiu. Silêncio. Respeito. Orgulho.

Ao longo dos últimos três anos tenho recordado muito esta história.
Ontem, quando o árbitro apitou no final do jogo, tenho a certeza de que ouvi novamente a pedra a cair… com estrondo… aos pés de muita gente. Daqueles que o insultaram, que o ameaçaram, que o menosprezaram e que o tentaram humilhar. Gosto de pensar que tiveram a decência de guardar uns momentos de silêncio, em respeito pela enormidade do que foi alcançado… antes de celebrarem.

O que aconteceu ao longo desta época é uma vitória épica dum grupo de jogadores, do seu brilhante treinador e de todo o Staff que os acompanha. Foi possível graças ao trabalho de pessoas de valor e com valores que carregaram muitas pedras, ao longo duma marcha que sendo nobre no propósito, em muitos momentos parecia impossível.

O que foi alcançado, no contexto em que foi alcançado, é um feito desportivo ímpar. A forma como foi conseguido, vai muito além do desporto. É uma lição de coragem que emociona. É a vitória do Bem sobre o Mal."

Varandas e a pedra. Durante o primeiro ano da Academia Militar os cadetes são submetidos a inúmeras provas físicas. Um...

Publicado por Nuno Oliveira em Terça-feira, 11 de maio de 2021

Por Record
43
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Subscreva a newsletter

e receba as noticias em primeira mão

ver exemplo

Ultimas de Sporting

Notícias

Notícias Mais Vistas

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.