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O documento que está a agitar os bastidores das eleições no Sporting

Record teve acesso ao relatório de 30 páginas

• Foto: D.R. Record

"O futuro do Sporting começa por todos nós." A frase confunde-se com um lugar-comum dito numa roda de amigos, mas só a segunda parte da ideia está próxima da realidade. Unido "pela paixão pelo Sporting", um grupo de sportinguistas, que se cruzou enquanto tirava o curso de gestão de empresas, fez uma análise detalhada sobre a situação do clube e identificou prioridades.

A "visão estratégica", assinada por Miguel Cal e Ricardo Farinha, começou a circular e a ser divulgada em junho, mês de que está datada, e tem vindo a agitar os bastidores das eleições, apesar de ser anterior e de não haver uma relação direta. Miguel Cal, entretanto, foi convidado pela lista de Frederico Varandas, para ser administrador da SAD com o pelouro estratégico e operacional. Uma consequência, em parte, da forte impressão que o relatório deixou, ainda que não estivessem "subjacentes quaisquer intenções eleitoralistas". Record teve acesso ao documento, de 30 páginas, que reúne propostas de grande consenso e outras politicamente incorretas, como pôr termo "ao descontrolo das claques".

Cortar a direito

Uma "escalada de comportamentos inaceitáveis" terminou com o ataque à Academia, a 15 de maio. "Deveria também ficar na história que esse evento marcou o fim da Juve Leo como a conhecemos. É necessário refundar a Juve Leo e repensar toda a política das claques", defende o conjunto de sócios. As propostas nesse sentido são objetivas, embora potencialmente polémicas. "Todos os lugares no estádio reservados às claques deveriam ser colocados no mercado. Não deveria haver qualquer apoio do clube a nenhum grupo de sócios", pode ler-se no trabalho, que sublinha a necessidade de ser aplicada "a lei existente de restrição à entrada nos estádios de adeptos com passado violento". "Devemos, do mesmo modo, sancionar fortemente os clubes pelos comportamentos das claques."

Erros na formação e no mercado

Conscientes de que "o futebol do Sporting garante mais de 90 por cento das receitas" do clube, estes associados recordam que "uma época repleta de êxitos nas modalidades", como foi a última, acabou ofuscada "por um terceiro lugar sem acesso à Champions da equipa de futebol". Abordagem ao mercado de transferências e política de formação são dois temas decisivos, neste contexto. O diagnóstico é negativo em ambas. "Dez dos 14 jogadores que disputaram a final do Euro 2016 passaram pela Academia do Sporting e apenas Ricardo Quaresma foi campeão nacional connosco", recorda-se. As chamadas "contratações cirúrgicas" das últimas épocas têm sido pouco menos do que desastrosas. "Desde 2010, comprámos 28 jogadores por mais de 1 milhão de euros que depois vendemos – perdemos dinheiro em 22 casos destes", é referido. "Há 20 anos que não acertamos", acrescenta-se.

Ultrapassagem perigosa

A estratégia que Bruno de Carvalho seguiu também é criticada, por ter falado da formação como base da política desportiva. "A verdade é que nos últimos três anos contratou 42 jogadores, nos quais gastou 107 milhões de euros. No lado da formação, temos visto os resultados a deteriorarem-se. Nos últimos seis anos apenas ganhámos um título de juniores", salienta o relatório, que deixa um alerta. "Os gastos com pessoal ‘consumiram’ 84 por cento das receitas no primeiro semestre deste ano", conclui a análise. Para o futuro, a estratégia deve passar por "dois eixos fundamentais" em que "o Sporting tem sido progressivamente ultrapassado: recrutamento e desenvolvimento técnico". O que compreende todas as áreas. "A direção do Sporting despediu as quatro psicólogas que davam apoio aos jovens e substituiu-as por uma estagiária", lamenta-se, em comparação com o investimento do Benfica nessa área.

Manter a equipa B

Uma das propostas de Miguel Cal e Ricardo Farinha é o resgate da equipa B, decisiva na transição para os seniores. "Consideramos um erro estratégico acabar com a equipa B. O campeonato sub-23 não será competitivo, os jogadores talentosos das equipas pequenas jogarão nas equipas A, os nossos jogadores não serão testados convenientemente", teme-se.

Cuidado com as aparências

Na conclusão do relatório, é descrito o sentimento que predominava no Sporting, até há bem pouco tempo, de se estar "num ciclo virtuoso que ultrapassou as dificuldades". "Devemos alertar que não é bem assim", escrevem Miguel Cal e Ricardo Farinha. "Estamos perante uma aposta de curto prazo que tem estado a aumentar a parada (e o risco de perda), ano após ano. Mesmo a gestão das prioridades básicas e controláveis, tais como as estratégias de marketing ou o desenvolvimento da formação (de futebol e modalidades), estão aquém do esperado. Temos muito trabalho pela frente", avisam.

Contra as transmissões na BTV

No capítulo do desenvolvimento do futebol, o relatório sustenta que "o Sporting tem feito um excelente trabalho neste campo". Miguel Cal e Ricardo Farinha contestam o novo "sistema de atribuição de prémios da UEFA", que aprofunda o "desequilíbrio entre os clubes mais ricos e pobres", e partilham propostas como a antecipação do fecho da janela de transferências de verão, uma entidade autónoma para gerir a arbitragem, a divulgação de áudios entre árbitro e VAR ou o fim da transmissão de jogos em direto no canal do próprio clube, numa clara alusão ao Benfica e à BTV. "Esta situação só acontece em Portugal, é contrária à verdade desportiva", sublinham.

Por detrás das manchetes

O sucesso das modalidades não deve, no entender de Miguel Cal e Ricardo Farinha, impedir os sportinguistas de ver para "além das manchetes e das notícias". "A performance atual foi ‘comprada, isto é, foi baseada numa estratégia agressiva de mercado – 52 dos 61 atletas das principais modalidades foram adquiridos. O mesmo se verifica com os Jogos Olímpicos [de 2014, no Rio de Janeiro], onde apenas sete dos 32 atletas foram formados no Sporting", é apontado. "Esta estratégia não responde ao ecletismo histórico do nosso clube. Temos de ponderar qual o ponto de equilíbrio entre vitórias a todo o custo e a contribuição para o desenvolvimento do desporto nacional", apelam.

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Cédric e os outros

"Consideramos existir uma grande oportunidade de criação de valor através da otimização da nossa estratégia de comunicação e marketing." A convicção assenta na força da marca e de como a mesma pode afetar, desde logo, a cotação de um jogador no mercado de transferências. "O valor de mercado dos jogadores depende do seu rendimento desportivo, a que se soma um elemento intangível de imagem. O Sporting parece ter um problema nesta dimensão", observam Miguel Cal e Ricardo Farinha, dando o exemplo de Cédric Soares, transferido por 7 milhões de euros para o Southampton, por comparação com Nélson Semedo, que o Benfica negociou com o Barcelona por 30,6 milhões, e com o brasileiro Danilo, que trocou o FC Porto pelo Real Madrid por 31,5 milhões.

"Cédric foi o único destes laterais que depois da transferência valorizou no mercado, aliás para mais do dobro", argumenta-se. O exemplo de Ricardo Quaresma é, também, paradigmático. Saiu "por apenas 6 milhões de euros" no ano em que o Sporting foi campeão "e subsequentemente o FC Porto vendeu-o por 25 milhões de euros". "Temos de ser próximos da comunicação social. Não faz sentido o Sporting estar de relações cortadas com agentes importantes como Jorge Mendes", defende-se no relatório.

Na área dos sócios, há muito espaço por explorar. "Se o Sporting conseguisse o mesmo rendimento por sócio que o Benfica, teria um acréscimo de receitas superior a 16 milhões de euros. Se conseguisse o mesmo que o FC Porto, teria um acréscimo superior a 9 milhões de euros", calcula-se. "O ruído que existe por todo o lado, promovido inúmeras vezes pela liderança do clube, prejudica a marca e afeta o valor que poderemos obter dela", avisam Cal e Farinha. O trabalho dos Golden State Warriors nas redes sociais, onde têm 14 milhões de seguidores, deveria ser referência. "Não há queixas de arbitragem no seu Facebook ou Instagram."

O exemplo dos Patriots e o presidente-adepto

Guimarães em 2014 e Madrid em 2018, como Chaves um ano antes, são exemplos de como Bruno de Carvalho usava a pressão como "elemento de persuasão" para que a equipa de futebol conseguisse os seus objetivos. Estratégias como o "envio de mensagens a jogadores", perguntam os autores do relatório, serão uma "forma eficiente" de obter o "comportamento desejado?" As estatísticas dizem que não. " A nível das organizações é pouco eficiente" e "frequentemente resulta na resistência" dos colaboradores.

A "pressão como modelo de sucesso desportivo" pode ser encontrada nos New England Patriots, da NFL. "Uma pressão controlada, realizada pela equipa técnica", mas mesmo neste caso "são necessárias condições muito específicas" que estes sócios não acreditam que existam "no Sporting nem em Portugal". Nos Patriots, cinco vezes vencedores do Super Bowl nos últimos 17 anos, tem sido uma fórmula de sucesso. "Os jogadores têm um dia para decorar os relatórios" dos adversários e, quando falham, são humilhados pelo treinador, Bill Belichick. "Os jogadores dos Patriots não se divertem como os outros, têm medo do treinador, entram em pânico quando estão atrasados para os treinos" e, no entanto, "muitos aceitam receber menos salário para jogar ali".

No Sporting, Jorge Jesus não era o único, nem o mais contundente, nas exigências. "A pressão descontrolada, com manifestações públicas de desagrado do presidente do Sporting (Bruno de Carvalho), contribuiu, na nossa opinião, para uma amplificação do descontentamento dos adeptos radicais do clube. O modelo ‘presidente-adepto’ só poderia resultar se este fosse um adepto otimista, que inspirasse e mobilizasse os adeptos, que apoiasse a equipa, e não um ultra que tanto aplaude e chora como assobia e insulta", sustentam os autores.

Por Bernardo Ribeiro e Vítor Almeida Gonçalves
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