Os editores de Record analisam a crise no Sporting (artigos publicados na edição impressa de Record desta quarta-feira)

Falta de noção total e completa
Alexandre Carvalho

Depois de um dia negro na história do Sporting – certamente um dos mais tristes nos quase 112 anos de vida do clube –, o discurso de Bruno de Carvalho chegou tarde e a más horas e aparentou uma falta de noção gritante em relação a tudo o que aconteceu em Alcochete. A tentativa frustrada de minimizar os danos foi inoportuna, os ataques ao secretário de Estado, ao IPDJ e à comunicação social descabidos e todo o discurso presidencial foi vazio de razão, conteúdo e pertinência. Ontem, e mais do que em todas as assembleias gerais inflamadas por declarações contra tudo e contra todos, exigia-se uma explicação cabal por parte de Bruno de Carvalho. Infelizmente, isto não aconteceu. Ontem não chegava repudiar, não chegava contestar, não eram precisas promessas. Ontem bastava que BdC deixasse cair a máscara de ditador e vestisse a de presidente.


A solução de Florentino

Vítor Pinto

Cerca de sete horas depois do ‘Assalto a Alcochete’, nenhuma das quatro claques do Sporting se tinha demarcado, nas suas páginas de Facebook, das agressões perpetradas a técnicos, jogadores e funcionários do clube. O silêncio oficial de Juventude Leonina, Diretivo Ultras XXI, Torcida Verde e Brigada Ultras Sporting tornou-se ensurdecedor para qualquer observador, mesmo para os próprios adeptos leoninos, indignados, que se iam pronunciando nas caixas de comentários. Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, resolveu facilmente aquilo que todos diziam ser impossível: fechar as portas do Santiago Bernabéu aos radicais dos Ultra Sur. Bloqueou o acesso ao seu sector , cancelou a cedência de bilhetes e criou um grupo de apoio não violento. Simples. Assim abdiquem outros presidentes da sua guarda pretoriana.


O fim da impunidade
Nuno Martins

Em 25 anos ligado ao jornalismo especializado em desporto já vi muita coisa. Estive na final do ‘very-light’, testemunhei confrontos entre adeptos e entres estes e forças da ordem... Mas, confesso, nunca pensei ver um grupo de vândalos invadir o local de treinos do clube de que se diz apoiante para agredir jogadores e treinador e destruir instalações. Apesar de todo o histórico, ontem houve cenas dignas de um bom filme de Hollywood. Perante isto, está na hora de todos, do Governo à FPF, passando pelos clubes, deixarem os processos de intenções de lado e partirem para ações. A impunidade tem de ter um fim. PS – Percebo que os jogadores do Sporting não tenham motivação para disputar a final da Taça de Portugal. Mas isso é castigar a esmagadora maioria dos que estão sempre ao lado da equipa e premiar uma minoria que está no futebol para fazer mal.


Uma vergonha inimaginável
Nuno Miguel Ferreira

O dia 15 de maio de 2018 ficará gravado em tons de negro na memória de quem realmente gosta de futebol em Portugal. O discurso de guerrilha constante dos dirigentes e outros agentes ligados ao fenómeno desportivo, sempre impunes devido às brechas de regulamentos demasiado permissivos, ameaçava alastrar o ódio e gerar uma violência incontrolável. Agora, o sucedido em Alcochete ultrapassou todos os limites do que era imaginável. Nunca pensei ver no meu país um grupo de 50 indivíduos armados a invadirem o centro de estágio da equipa que dizem apoiar, agredindo de forma selvagem jogadores, o treinador e quem lhes surgiu pela frente. A imagem de Bas Dost (autor de 70 golos nas duas épocas de leão ao peito) ferido envergonha o país e o futebol português. Temo que já seja tarde para o salvar...


Pôr a mão na consciência
Aurélio de Macedo

A imagem de Bas Dost ferido corre Mundo e, mais do que manchar a imagem do Sporting, deve envergonhar-nos a todos. O holandês tornou-se a vítima de um clima de terrorismo verbal instalado há algum tempo, mas que tomou proporções muito perigosas esta época. Os atos criminosos em Alcochete são, lamentavelmente, uma consequência desse discurso de ódio, do insulto fácil a que assistimos diariamente e que não se circunscreve ao espectro mediático. É altura de colocarmos a mão na consciência, assumirmos as nossas responsabilidades e atuar; não basta falar em "respostas corajosas" e ao mesmo tempo resguardar-se em regulamentos dúbios e daí lavar as mãos. O que aconteceu no Sporting não é apenas um caso de polícia, não pode ser só "chato", deve servir de exemplo para a mudança.


Uma vergonha para a história
Diogo Jesus

Ao longo dos anos, o Sporting tem tido a extraordinária capacidade de surpreender pelos piores motivos. Quando os adeptos pensam que a estabilidade chega finalmente a Alvalade, eis que surge algo inesperado que volta a atirar o clube para a estaca zero. Ontem assistiu-se a um dos episódios mais negros da história centenária do Sporting. Muito mais do que a insatisfação com o desempenho desportivo, foram ultrapassados todos os limites. Alcochete transformou-se num cenário de guerra, onde foram cometidos crimes (cobardes) que mancham uma instituição que se orgulha dos seus nobres valores. Não basta só condenar estes atos selvagens. É necessário que haja consequências fortes e que sancionem estes indivíduos que não podem ser apelidados de adeptos. E o Sporting, esse, voltará a reerguer-se...


Imagens de guerra
Sérgio Krithinas

Sem legendas, a imagem daquele grupo de adeptos, de cara tapada, a correr em direção aos portões da Academia de Alcochete, poderia ser retirada de um documentário de guerra. Um exército – era disso que se tratava – disposto a desafiar a Justiça e as leis basilares de vida em sociedade para agredir um grupo de pessoas – e aqui não interessa se são jogadores, treinadores ou roupeiros.

Há poucas palavras para definir tudo o que aconteceu ontem à tarde. Há, no entanto, um significado simbólico na invasão ao balneário. É um espaço sagrado para os jogadores, um templo exclusivo para o plantel, de onde nada deve sair e onde ninguém deve entrar, pelo menos sem bater à porta. Com aquela invasão, aquele exército quis dizer que é dono do clube, desde a bancada ao balneário. Aquele exército quis dizer que é maior do que o clube.

Estes são os exércitos que os clubes – e isto não é um exclusivo do Sporting – criaram e alimentaram nos últimos anos. Obviamente que aquela invasão não resultou de uma concentração espontânea ou de um impulso pelos maus resultados recentes. Foi algo pensado, planeado, possivelmente como parte de um plano maior.

Bruno de Carvalho quis fazer disto um caso de polícia, equiparando-o a situações do dia-a-dia, como se nada tivesse ocorrido bem dentro no coração do clube. O presidente tem a sua realidade, ou pelo menos parece querer convencer o mundo de uma realidade alternativa. Fazia-lhe bem um banho de realidade real. Ou tudo pode piorar para o Sporting.