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Palatsi: Vertigens de um «gato» que se pendura na baliza

GUARDIÃO DE REGRESSO A AVEIRO

EM 1895, reza a história, um clube francês procurava a sua primeira grande identificação com o fenómeno do futebol e partiu para Inglaterra à descoberta dos verdadeiros ensinamentos... “Era o Stantard, um clube parisiense, maioritariamente composto por jogadores da cidade, mas com alguns ingleses”, interrompeu Palatsi quando Record lhe propunha esta recordação com um determinado fim. Os franceses jogaram, efectivamente, em Inglaterra e perderam. Até aqui nada de estranho. Curioso é que aprenderam a sofrer e não a marcar golos: regressaram a casa com um total de 22 golos sofridos!

O guarda-redes do Vitória de Guimarães sabia desta história – foi-lhe contada no início da sua carreira – mas nem por isso os franceses, muito dados à formação de jogadores com a sua famosa academia, são hoje reconhecidos por se especializarem na “criação” de guarda-redes. Joel Bats, Lama e Barthez são seguramente os exemplos mais representativos. Palatsi defende que em França se trabalha bem os guarda-redes. “Ao contrário de outros países, e nomeadamente Portugal, há um acompanhamento mais cuidado dos técnicos e, na generalidade, acho que a França está muito bem servida de guarda-redes. Cada país tem a sua escola, mas eu gostei da aprendizagem que me dedicaram. Quando saí do Montpellier com 23 anos, o meu treinador era o mesmo de quando tinha 16”, recorda, ainda que, em certa medida, concorde com Alex Ferguson, que considera os guarda-redes italianos os mais completos da actualidade. “Gosto muito do Buffon e coloco-o ao nível do Barthez. Aliás, da minha infância guardo as exibições a que assistia pela televisão do italiano Dino Zoff. Considero-o o melhor de todos os tempos”.

Palatsi, que sofre de vertigens, silenciou o Estádio da Luz com uma exibição portentosa frente ao Benfica. Um momento alto, mais um, de um francês rendido à impossibilidade de voltar a envergar a camisola da selecção do seu país – foi internacional júnior e sub-21. “Tive como todos sonhos de menino, mas agora já não penso no dia de amanhã. Tenho 32 anos, treino com prazer e já não faço planos para o meu futuro profissional. Quando faço esse tipo de planos sai tudo ao contrário. Por isso vivo o dia a dia intensamente”, explica, sem querer recordar o infortúnio que em 1991 lhe bateu à porta quando se lesionou num ombro. Estava no cumprimento do dever à pátria e aí nasceram os problemas: mais uma lesão no ombro e um dedo partido. O Gato, como lhe chamavam, estava “arrumado” para o futebol, acusavam. Pensou terminar a carreira e aceitar o cargo de gerente comercial de um estabelecimento da família da sua esposa. Ponderou, mas decidiu voltar a calçar as luvas. Jogava na II divisão(G.do Roi) até que um convite (96/97) o trouxe para o Beira-Mar.

Em Aveiro, onde esteve cinco anos, recuperou o prazer da competição e não fácil convencê-lo a deixar o clube. “É seguro e oferece confiança”. Teve muitos convites para sair, nomeadamente do Bordéus, mas ficou. “Tal como eu fiquei a dever muito ao Malines, ele sente que foi muito ajudado no Beira-Mar e optou por ficar”, disse em Agosto de 1999 Preud’homme. Palatsi desconhecia esta afirmação de um ex-guarda-redes de “grande classe” e ficou deveras sensibilizado. “Nunca serei ingrato na minha vida. O Beira-Mar proporcionou-me grandes momentos desportivos numa fase dura e não poderia sair de qualquer maneira. O Bordéus não é propriamente um clube qualquer, mas quando se falou disso não dei grande importância”.

O francês detesta que o convidem a uma auto-análise. “Por favor, não façam isso”, suplica, convidando os críticos a fazê-lo da forma que o têm feito até à data. “A Comunicação Social portuguesa tem sido justa comigo e não sou daqueles que não compra os jornais”. Mas a custo lá deixou passar alguma coisa mais pessoal. “Tenho defeitos, mas procuro ser um guarda-redes completo. Não me revejo em ninguém, nem procuro imitar gestos técnicos deste ou daquele. Frangos todos sofrem e sempre na sequência de lances muito fáceis. Nas grandes penalidades, se for bem marcada, não há defesa possível. Portanto, temos de estar concentrados. A concentração é o mais importante para um guarda-redes. Enke diz que é o mais difícil? Concordo.”

Paixão familiar por Aveiro

Palatsi não tenciona voltar tão cedo para França. As suas ambições desportivas estão limitadas, segundo reconhece, por força dos seus 32 anos, daí que o final da sua carreira deva ser assinalado no nosso país. Resta saber que clube vai escolher para pendurar as botas e entregar as luvas. “Considero que é cedo para pensar nesse tipo de questões mais de âmbito pessoal, mas tudo leva a crer que termine a minha carreira em Portugal. Jogar num grande? Real Madrid? É possível? Talvez o meu amigo Zidane meta uma cunha.... [A sério e sem risos]. Não estou preocupado. Só quero continuar a treinar com boa disposição e ter prazer de jogar. Quando isso acabar, dou por encerrada a minha missão”.

Aveiro é um caso de uma paixão familiar e será a cidade escolhida para habitar. “Aveiro marcou-me desportivamente pelo Beira-Mar, mas a cidade está no meu coração. Ninguém pode levar a mal. Aprecio a forma de viver dos aveirenses e é verdade que tenciono morar lá quando acabar a carreira. A minha esposa também adora a cidade e existe, de facto, uma identificação muito forte entre nós e a cidade. Independentemente das vitórias e das derrotas, fui excepcionalmente bem tratado e nada tenho a apontar-lhes”, tributa.

Guimarães e o Vitória podem tornar-se noutros casos de apreço para Palatsi. O francês trocou, ao fim de cinco anos, Aveiro e o Beira-Mar pela vivência vitoriana. Mas não foi nada fácil a troca. O Vitória de Guimarães teve de pagar cerca de setenta mil contos, valor estipulado pela cláusula indemnizatória, e Palatsi tornou-se assim no jogador mais caro da história do clube vitoriano.

“O mais caro? Será mesmo? Já me tinham dito, mas desconfiava. Se é assim, e até mesmo que não fosse, só quero provar a razão das pessoas que confiaram nas minhas capacidades. Estou satisfeito com as primeiras impressões e posso ser feliz. Sou bem tratado pelo clube e a cidade, com pessoas muito acolhedoras, é maravilhosa e proporciona boas condições de vida”, reconheceu.
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