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Erros de «casting» na TV-Benfica e «Canal Sporting» directo ao golo

LEÕES ELIMINAM ÁGUIAS DA TAÇA DE PORTUGAL PELA PRIMEIRA VEZ EM 16 ANOS

Erros de «casting» na TV-Benfica e «Canal Sporting» directo ao golo
Erros de «casting» na TV-Benfica e «Canal Sporting» directo ao golo

PELA primeira vez desde os oitavos-de-final da longínqua época de 1983-84, o Sporting ganhou uma eliminatória da Taça de Portugal ao Benfica, saindo triunfalmente do estádio onde três semanas antes falhara por pouco a sentença de morte à temporada benfiquista.

Quarta-feira, o jogo teve características completamente diferentes, a começar por um número generoso de golos e de intervenções dos guarda-redes e foi marcado pela influência dos jogadores de ataque e pelo apagamento dos centro-campistas dos quais tanto dependera o “derby” de 9 de Janeiro. A essa perda de influência de Delfim (e do ausente Duscher) e de Calado não é aliás estranha a redução de 54 para apenas 40 faltas, com o consequente aumento do tempo de jogo efectivo.

Com quase um mês de adaptação a Portugal, talvez pela facilidade linguística, os reforços de Inverno do Sporting foram preponderantes pela positiva, enquanto o Benfica não pôde desta vez beneficiar do efeito surpresa provocado então pela estreia de Sabry e ainda viu o grego Machairidis sucumbir numa situação de pressão, não conseguindo mais disfarçar que a sua colocação no eixo defensivo não passa de um mal remendado erro de “casting” do treinador Jupp Heynckes. Entre vários.

O Sporting ganhou por 3-1, graças a uma actividade de grande dinâmica e incisão dos seus dianteiros, em particular o argentino Acosta, que prossegue em estado de graça e marcou ontem os seus primeiros dois golos na Taça - uma prova em que o Sporting obtivera apenas duas vitórias tangenciais por 1-0 frente ao Canelas e à União de Leiria.

“CANAL SPORTING”

Com muitas atenções ainda viradas para a possibilidade de uma “transmissão pirata” pela SIC a culminar uma semana de luta feroz pelos direitos de transmissão do jogo, foi o “Canal Sporting”, apesar da falta do carro de exteriores da Olivedesportos, que primeiro ligou as antenas e assestou as miras técnicas nas balizas. Os telejornais e as audiências reclamavam um “derby” com golos e isso só seria possível se o jogo se aproximasse o mais possível das grandes áreas: astuto e seguro, Augusto Inácio correspondeu a esse desafio melhor do que o cauteloso e confuso Jupp Heynckes.

De um lado, o defensivo, sempre preponderante, um Peter Schmeichel assustador para os frágeis avançados do Benfica e escorado numa defensiva personalizada e forte. Do outro, um rodízio de soluções ofensivas bem interessantes, com extremos à moda antiga - De Franceschi na esquerda, Barbosa com Prates na direita -, arrancando a espaços e períodos bem definidos as solicitações de desequilíbrio a que a briga permanente de Acosta, no centro do ataque, dá sequência, ora finalizando, ora contabilizando faltas e desgaste na defensiva contrária.

Com o Benfica a situação era exactamente a oposta. O treinador prossegue a sua incessante e improfícua busca de uma solução para as alas: longe dos tempos da esperança em Luís Carlos e Porfírio, atirados Poborsky e Maniche para um regime de entra-e-sai difícil de entender, é agora o tempo do velho Chano ser chamado a um trabalho de carreador de jogo, formando um “tandem” insólito com Andrade. Uma jogada houve mesmo aos 21 minutos em que o ataque do Benfica, na entrada da área contrária e em superioridade numérica, a hipótese de fazer um golo ficou nos pés desses dois dos mais modestos membros do plantel encarnado! Além disso, ainda foi preciso adaptar Uribe a uma função de cobertura de flanco que não é da sua vocação, provocando o seu apagamento num jogo que só se salvou pela beleza do golo que obteve.

DESASTRE DEFENSIVO

Depois de Schmeichel ter anulado a primeira tentativa de Nuno Gomes, logo aos dois minutos, o Sporting arrancou paulatinamente para o domínio da situação, passando um bocado por cima do entre-jogo a meio-campo e buscando uma situação de golo que não tardou a surgir. O filão argentino continua em veia e Acosta não perdoou o primeiro dos inúmeros falhanços defensivos do Benfica.

Terão sido mais de 30 as bolas perdidas em situação de controlo de jogo pelos defesas encarnados ao longo de toda a partida, a ilustrar uma insegurança que - depois de mais esta humilhante eliminação sobre a hecatombe de Vigo e a perda de pontos na Liga - só tenderá a agravar-se. Mais tarde, o que sucedera a Andrade nesse primeiro lance fatídico veio a repetir-se com Machairidis, obrigado a provocar uma grande penalidade e a deixar a equipa derrotada e com menos uma unidade - sem esquecer as culpas colectivas (Enke incluído) no segundo golo. Para uma defesa que ainda não tinha sofrido golos no ano 2000, o comportamento do sector recuado dos benfiquistas foi confrangedor.

A fase decisiva do jogo decorreu entre os 33 e os 35 minutos e, curiosamente, coincidiu com o pior de ambos os guarda-redes. Primeiro, o dinamarquês viu-se sobrevoado (pela quarta vez e segunda consecutiva) num livre directo, sem dúvida a sua fraqueza indisfarçável. Logo a seguir, o alemão teve um erro de cálculo e não atacou a bola, deixando-se trair pela manha de André Cruz, à frente da baliza.

De repente, o Benfica tinha empatado o jogo e conseguido superar um clima de descrença que se sentia nas bancadas desde a abertura do activo, mas ainda o Terceiro Anel molhava a garganta e compunha o cachecol e já o marcador voltava a acusar desvantagem. Desconfiava-se que esta equipa de Jupp Heynckes, sem vocação ofensiva e com uma média de eficácia pouco superior a um golo por jogo, dificilmente poderia dar a volta ao jogo de novo.

E não deu. Apesar de ter lutado e feito tudo o que estava ao seu alcance perante a organização leonina - sempre impecável apesar da substituição forçada de Cruz por Quiroga ao intervalo. Desta vez o Benfica realizou 13 remates - quase o dobro do que conseguira no jogo de campeonato - e obrigou Schmeichel a sete intervenções de qualidade, porventura o seu jogo mais trabalhoso desde que chegou a Portugal.

ACOSTA NA LENDA

O que fez a diferença, portanto, foi mais a eficácia dos avançados leoninos. De Franceschi foi o que os benfiquistas gostavam que Sabry tivesse sido na primeira partida, com um punhado de cruzamentos mortíferos, incluindo o do primeiro golo com o pé... direito! Mpenza desequilibrou toda a defesa encarnada devido à sua extrema mobilidade e ainda veio a fazer mais um golo de cabeça, talvez mal invalidado por um auxiliar de Vítor Pereira. E Acosta é, claramente, mais poderoso, experiente e letal que Nuno Gomes, tendo ficado a “meio golo” de um “hat trick” para a lenda do grande “derby” da capital.

Havia uma grande expectativa no rendimento de Pedro Barbosa e Mpenza depois do belo ensaio de sábado frente ao Santa Clara e os primeiros 20 minutos corresponderam em pleno. Mas a pouco e pouco ambos foram perdendo fulgor, justificando a substituição inapelável do “capitão” ainda no primeiro quarto de hora do segundo tempo. Toñito veio repor a pressão sobre o flanco esquerdo e permitiu um maior descanso a Mpenza.

Inácio apostou tudo na exploração quase obsessiva da falta de qualidade dos laterais do Benfica e fez gala da sua “sagèsse” de forma castigadora ao permitir a estreia absoluta do jovem moçambicano Fumo frente a frente com o incompreensível Rojas, a quem voltou a caber a função de suprir o estoiro de Andrade. Se Heynckes anda a tentar mostrar a alguém que o Benfica não tem defesas laterais de qualidade é estranho que sejam precisas tantas “mensagens”...

JOÃO QUERIDO MANHA

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