Manuel José, herói apanhado nas armadilhas

João Rocha foi buscá-lo mas uma época volvida terá feito tudo para o ver fora de Alvalade...

Manuel José, herói apanhado nas armadilhas
Manuel José, herói apanhado nas armadilhas • Foto: Manuel Azevedo
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Após quatro temporadas a ver o título fugir, João Rocha apostou em Manuel José para fazer do Sporting campeão. O treinador, então com 39 anos, tinha acabado de levar o Portimonense, pela primeira vez na sua história, a uma prova europeia, e nem hesitou. Em Alvalade terá encontrado um “plantel desequilibrado”, com jovens prestes a explodir como Litos e Fernando Mendes e veteranos de qualidade inigualável como Damas ou Manuel Fernandes. Mas eram Sousa e Pacheco os grandes equilíbrios da equipa. “Perdemos o título a seis jornadas do fim, frente ao FC Porto. Tinham uma equipa incrível que viria a ganhar a Taça dos Campeões Europeus”, recorda o treinador, antes de falar do grande jogo da época: “O Benfica estava em 1.º e fomos à Luz, onde o Sporting não ganhava há 23 anos. Vencemos por 2-1 e o estádio parecia um autêntico velório”. A essa mesma hora, os azuis e brancos somavam mais um triunfo, saltaram para a liderança e encomendaram as faixas.

“O presidente João Rocha foi de fato e gravata para o duche onde os jogadores festejavam como se fôssemos nós os campeões. Até o prémio de jogo foi aumentado! Demorámos duas horas a fazer os 3 km até Alvalade. Nem insultados fomos… Se fosse hoje, se calhar tinha morrido alguém”, acrescenta Manuel José.

Mudança brusca

A temporada de 1985/86 terminava com um amargo de boca e o treinador estava longe de imaginar o que viria a seguir. “O João Rocha montou-me uma armadilha. Deixou sair de propósito o Sousa e o Pacheco para o FC Porto, tentou interferir nas minhas decisões e começou a contratar jogadores. Até um de futebol de salão me apareceu…”, recorda, com mágoa. Os dispensados – entre os quais Carlos Xavier e Jordão – apareceram no primeiro treino da equipa, por ordem do presidente e para espanto de Manuel José. E os reforços pedidos pela equipa técnica apenas chegariam em janeiro, casos de Marlon e Peter Houtman. Mesmo assim, o Sporting não largava os lugares cimeiros e espantaria o país ao golear por 7-1 o Benfica.“Sabíamos que a defesa do Benfica era lenta e apostámos no contra-ataque”, revela o treinador, que viria a ser convidado a renovar poucas horas depois: “Recusei, claro. O João Rocha já não era presidente, mas a fação dele ia acabar por me despedir”. Manuel José tinha mesmo razão. Só aguentou mais quatro jogos…

Em 1989 voltaria, a pedido de Jorge Gonçalves. Encontrou salários em atraso e um plantel remendado. Saiu antes do Natal.

A visita de Rijkaard e o relatório forjado

O verão de 1986 foi mesmo quente por Alvalade. João Rocha estaria “farto” de Manuel José e até brincou com um dos pedidos do treinador. “Eu queria o Frank Rijkaard. Custava 50 mil contos e ele chegou a estar três dias em Lisboa. Andou por Cascais para o show-off. Nunca tiveram intenção de o contratar”, assume, quem o viu, três anos depois, assinar mesmo pelos leões por... 9 vezes mais.

A relação estava azeda com o presidente e o treinador temia ser despedido, ao ponto de ter pedido para inventarem um relatório do adversário europeu:“Omeu adjunto foi à Islândia ver o Akranes e escreveu que eles eram fracos. Pedi-lhe para rasgar tudo e fazer outro a elogiá-los. Opresidente ficou convencido e aumentou em 150 contos o prémio, que já era de 200. Ganhámos por 9-0 na 1.ªmão e o presidente não escondeu a cara feia.”

Gracinha na Taça foi no... sorteio

Pode o Sp. Espinho derrotar o Sporting no jogo de amanhã à noite em Santa Maria da Feira?Manuel José não acredita. “Não vai haver uma gracinha. Essa já houve no sorteio. Se houvesse, seria o despedimento do Marco Silva”, responde o treinador, triste com a situação atual do clube que aprendeu a gostar:“Recuso-me a entrar naquele estádio. Jogar em Santa Maria da Feira é a prova do declínio do clube. OSp. Espinho é o último classificado na sua série do CNS. Como foi possível ter um presidente durante 14 anos e sempre a descer degraus?”

Leões longe dos títulos

O Sporting até pode seguir em frente na Taça, mas, para Manuel José, não tem hipótese de lutar com FCPorto e Benfica.“Não têm um plantel com qualidade para isso. Têm um bom treinador, que costuma ser sereno, mas tem andado nervoso porque lhe elevaram demasiado a fasquia”, afirma, questionando os reforços:“Contrataram 14 jogadores e apenas o Sarr e o Paulo Oliveira têm jogado. Um dos que chegou custou mais de 2 milhões de euros, tem metro e meio de altura e só joga na equipa B [Ryan Gauld]. Como é que ninguém contesta isto? A equipa é praticamente a da época passada e mesmo o Nani caiu dos céus aos trambolhões.”

Mas para o experiente treinador, o que não se entende mesmo é a contratação de Shikabala:“OInácio e o Virgílio podiam ter dito ao presidente para me ligar. Nunca o contrataria! Tem um talento inato, mas não cumpre ordens.”

ESTEVE NOS DOIS LADOS

Nas três épocas como treinador do Sp. Espinho, Manuel José fez 90 jogos, obtendo mais derrotas (37) que vitórias (27), somando 26 empates; durante 1979 e 1982, o score de golos foi de 89-119. Nos Tigres, o carismático treinador teve a oportunidade de defrontar os leões por seis ocasiões, sendo que em apenas uma delas saiu vencedor. Na época 1980/81, no Estádio Manuel Violas, a equipa do Sp. Espinho – onde jogava, por exemplo, Vítor Oliveira, atual treinador do U. Madeira – derrotou o Sporting, na altura por 3-2, com golos de Reis, Carvalho e João Carlos. Lito e Manuel Fernandes marcaram para o clube de Alvalade. O outro registo que se pode considerar positivo data da época 1981/82, quando o Sp. Espinho empatou em Alvalade (1-1). Ruben marcou para os nortenhos, e Manuel Fernandes fê-lo para o Sporting. O inglês Malcolm Allison era nessa altura o técnico da formação lisboeta.

Nas quatro passagens de Manuel José pelo Sporting, só em 1985/86 é que o treinador esteve no banco durante toda a época. Nas outras temporadas (1986/87, 1988/89 e 1989/90) não foi isso que aconteceu, daí os 67 jogos pelos leões em contraponto com os 90 pelos espinhenses, durante 3 anos. Em Alvalade, Manuel José defrontou o Sp. Espinho por apenas uma vez (1988/89), alcançando uma vitória por 2-0 no agora velhinho Manuel Violas. Carlos Manuel, antigo internacional e agora treinador do Sanat Naft (Irão), fez um golo, tal como o brasileiro Silas. Na formação lisboeta, o técnico obteve um registo de 41 vitórias, 12 empates e 14 derrotas, o que foi insuficiente para ganhar qualquer título. Em 1985/86, a época em que Manuel José ficou a tempo inteiro em Alvalade, a sua equipa classificou-se no 3.º lugar, a um ponto do Benfica (47) e a dois do FC Porto, que se sagrou campeão nacional.

Capacidade de liderar atirou-o para o banco

Podia ter sido um caso de sucesso nos relvados portugueses, mas as oportunidades foram desperdiçadas ao ritmo das fintas e dos golos que marcava. Até o Benfica lhe abriu as portas, mas fechou-as, quase por completo, quando passou para os seniores. Mesmo assim, Manuel José esteve 14 anos na então denominada 1.º Divisão. “Fui eu que estraguei a minha carreira. Só nos últimos anos a levei a sério, mas cheguei a ter propostas do Sporting e do FC Porto”, confessa, quem assinou pelo Sp. Espinho aos 31 anos e por conselho do amigo e guarda-redes Jesus.

À chegada ao novo clube, em 1977, o choque foi tremendo, a descida de divisão ainda agravou a situação e só um convite o iria demover de sair: “Nunca quis ser treinador e nem me via com características para tal. Apenas tinha capacidade de liderança, mas aceitei ser treinador-jogador. Demarquei o meu território e tratei das dispensas e contratações.”

A época começou mal e pior podia ter ficado se Móia não tivesse saído do banco ao intervalo e empatasse um jogo com o Leixões, que chegou a estar 0-3. Passados uns dias, o Aliados de Lordelo, onde atuava Jaime Pacheco, media forças com o Sp. Espinho. Faltavam menos de 10 minutos para o fim da partida e o nulo mantinha-se. Manuel José estava em campo e chegou a dizer que se ia despedir do cargo de treinador, mas um livre à gaveta, marcado pelo próprio, relançou a equipa para uma série de 17 jogos sem perder e a subida consumou-se mesmo.

Era hora de estabilizar o clube na Liga e Manuel José fê-lo de forma heroica “Ficámos em 7.º lugar e na última jornada, contra o Benfica, até saí em ombros”, conta, antecipando dias mais amargos para o clube: “Pela primeira vez, conseguimos estar três anos sem descer, mas, apesar de ser o risco que me motivava, eu estava destinado ao fracasso. Na 3.ª época começámos com apenas oito jogadores. As dificuldades foram muitas”. O Sp. Espinho safou-se, mas o treinador saiu mesmo, para substituir José Maria Pedroto no V.Guimarães.

Investimento

Para trás ficaram horas e horas de estudo. Como em Portugal não havia livros especializados em futebol, Manuel José viajava até Madrid para enriquecer a sua biblioteca pessoal. “Eram aos 30 ou 40 contos de cada vez, cerca de dois ordenados. Lia tudo e mais alguma coisa e depois fazia as adaptações ao futebol português”, conta, quem tinha um prazer especial na hora de contratar jogadores:“Sempre soube escolher jogadores e montar equipas. Naquela altura, havia um lote maior de escolha. Pelos jogos que via e pelos adversários que defrontava, fazia uma lista de cinco ou seis soluções para cada posição. Em qualquer equipa pequena havia dois ou três com valor para jogar num grande. Agora é tudo diferente. Os clubes querem um jogador e, se o perdem, sabem que a segunda opção é duvidosa.”

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