Fernando Pimenta garante: «Dar visibilidade às modalidades é essencial para incentivar os mais jovens a praticarem atividade física»
Olímpico foi um dos oradores do painel 'A Internacionalização do Desporto Português'
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Com um currículo ímpar na canoagem mundial e no desporto português, o recém bicampeão mundial de K1 1000 e K1 5000 metros foi um dos oradores esta sexta-feira no Portugal Football Summit, integrando o painel 'A Internacionalização do Desporto Português'
Fernando Pimenta, de 37 anos, defende uma maior participação de atletas, treinadores e dirigentes na definição dos investimentos desportivos no nosso país, abordando ainda a falta de visibilidade das modalidades fora do futebol, do impacto que isso tem na cultura desportiva nacional e do novo sistema de qualificação olímpica na canoagem.
Depois da sua intervenção, falou os jornalistas.
Tem alertado para alguns problemas de investimento estrutural no desporto. O que tem de mudar na forma como estas decisões são tomadas?
Fernando Pimenta - Acho que deviam ser criadas comissões ou grupos de trabalho para que, sempre que exista a possibilidade de construir novas instalações, as pessoas sejam ouvidas primeiro. Falo dos presidentes das federações, dos treinadores e dos atletas, porque todos eles têm uma palavra importante a dizer. É fundamental perceber aquilo que realmente é necessário. Muitas vezes construímos instalações novas, sejam piscinas, pistas de corrida ou até centros de alto rendimento, sem ouvir quem conhece a realidade da modalidade. O Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho, por exemplo, poderia ter outras valências e estar estruturado de forma diferente para potenciar ainda mais o seu impacto nacional e internacional. Temos de ouvir quem tem experiência internacional e conhece outras realidades e outros equipamentos desportivos. Quando se fazem investimentos, não pode ser apenas alguém que está numa secretária e nunca praticou a modalidade a decidir o que é melhor.
Em Portugal, o futebol continua a dominar quase todo o espaço mediático. Como é possível mudar esta mentalidade?
Fernando Pimenta - É preciso levar as pessoas a experimentar as modalidades e a vê-las mais vezes nos meios de comunicação social. As coisas têm melhorado, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Quando fui campeão da Europa em Portugal, não houve uma única capa de jornal desportivo com uma fotografia minha. Mais tarde fui bicampeão do mundo e voltou a acontecer. Isso acaba por afetar a cultura desportiva. Felizmente, eu já tenho alguma visibilidade, mas há muitos atletas que não a têm e acabam por ser esquecidos. Se conseguirmos criar referências e ícones desportivos para os mais novos, mas também para os mais velhos, tudo se torna mais fácil. Dou o meu exemplo: recebo frequentemente mensagens de pessoas que começaram a praticar desporto porque se inspiraram em mim. Isso acontece também com muitos outros atletas de alto rendimento. Dar visibilidade às modalidades é essencial para alargar a base do desporto e incentivar os mais jovens a praticarem atividade física.
Já sente que ocupa um lugar na história do desporto português?
Fernando Pimenta - Vou tendo alguma noção disso, sobretudo pelo currículo que construí ao longo destes anos. Tenho 14 títulos mundiais, 15 títulos europeus e duas medalhas olímpicas. Poucos atletas conseguiram manter um nível tão elevado durante tanto tempo. Aquilo que me permitiu estar neste patamar foi, acima de tudo, a consistência. É o resultado de muito trabalho, do meu treinador e das pessoas que me rodeiam. Não são muitas, mas são as pessoas certas. Estamos a fazer um bom caminho, mas ele ainda não terminou. Ainda tenho objetivos por cumprir e espero continuar a conquistar resultados importantes para Portugal nos próximos anos.
No início da época mostrou-se descontente com o novo sistema de qualificação olímpica para a canoagem. Continua a pensar da mesma forma?
Fernando Pimenta - É verdade que estava desagradado. O sistema obriga-nos a estar no máximo rendimento pelo menos cinco vezes por época: nas três Taças do Mundo, no Campeonato da Europa e no Campeonato do Mundo. minha especialidade, um Europeu tem praticamente o mesmo nível competitivo que um Mundial. Basta olhar para as finais: praticamente todos os atletas que lá chegam são europeus. A minha crítica prendia-se com o facto de o sistema favorecer países que têm muitos atletas a competir em várias distâncias. No entanto, consegui adaptar-me. Esta época pontuei praticamente sempre no máximo possível e apenas numa Taça do Mundo terminei em segundo lugar. Neste momento sou líder do ranking e isso coloca-me numa posição favorável. Agora falta continuar o trabalho realizado até aqui e manter este nível competitivo para garantir o objetivo principal, que é o apuramento olímpico.