Vítor Baía: «Atingi o máximo depois dos 33 anos»
O futebol português escolheu-o para defender as costas ao melhor onze da história...
Cumpriu todos os sonhos lançados por uma formação atípica – só foi titular no primeiro ano de iniciado e no último de juniores. Depois do Mundial’2002, debeladas várias lesões graves, chegou ao topo da expressão como guarda-redes de nível mundial. Negaram-lhe então o Euro’2004.
1 – Distinção sem preço
RECORD – Como se sente um jogador entre os melhores da história do futebol português?
VÍTOR BAÍA – É um orgulho muito grande, que gera um agradável sentimento de dever cumprido. No fim de contas, também trabalhamos para isto. Quando iniciamos a carreira queremos fazer bem e ver reconhecido o nosso trabalho, os sacrifícios a que nos submetemos e as conquistas que conseguimos. Nada melhor do que uma eleição destas, isenta, abrangente, que envolve o público, para sentirmos que valeu a pena. Acho que estarmos ligados desta forma a uma história centenária e bonita como é a do futebol português não tem preço.
2 – Dez vezes campeão
R – Algum dia, nos seus tempos de infância e adolescência, pensou atingir este patamar de excelência?
VB – Quando era miúdo fui focalizando alguns objetivos, felizmente todos cumpridos: o primeiro foi chegar a um clube com a grandeza do FC Porto, que atingi aos 14 anos; depois, seduzido mas também assustado pela expressão magistral do Estádio das Antas, imaginei-me a defender a baliza do clube; com o tempo percebi que a oportunidade surgiria mais depressa do que imaginava aos 14-15 anos. Ganha a baliza do FC Porto, levantou-se a meta de conquistar a Seleção Nacional, o que também consegui mais cedo do que pensava – com 21 anos já era titular. A partir daí, defini os horizontes do currículo, que passavam pelas vitórias, pelos títulos... Não me correu mal: em 15 ou 16 épocas fui dez vezes campeão nacional, o que é, de facto, extraordinário.
3 – Sonhando na baixa do Porto
R – Como viveu as grandes conquistas do FC Porto até chegar a profissional?
VB – Nesse período até conquistar a baliza azul e branca e garantir lugar na Seleção vivi por fora os grandes acontecimentos. Foi uma fase muito intensa como adepto. Desse período saliento a conquista da Taça dos Campeões, em 1987, que me proporcionou uma alegria esfuziante – estive na Baixa do Porto a festejar o momento. No fim, dei comigo a pensar que um dia havia de estar ligado a uma conquista daquelas mas não apenas na rua. Sonhei que um dia havia de viver aquelas emoções e passar pela festa como protagonista. Anos volvidos, num panorama ainda mais difícil, isto é, já no contexto da Champions League, em que a diferença entre os poderosos e os restantes é ainda maior, fizemos um autêntico milagre em 2003/04. Quando se juntam jogadores talentosos, um treinador que queria ser (e é hoje) o melhor treinador do Mundo (José Mourinho) e uma direção que todos conhecem, com uma liderança muito forte, como é a de Jorge Nuno Pinto da Costa, tudo é possível.
4 – Opção única para Guimarães
R – Recorda-se do jogo de estreia na 1.ª Divisão, em Guimarães, em 1988?
VB – Perfeitamente. Tudo começou com o infortúnio de um colega, Jozef Mlynarczik, que se lesionou na véspera do jogo: no treino matinal, que antecedia o início do estágio, fraturou a clavícula. Naquela altura o Zé Beto estava suspenso, com um processo disciplinar, e não o conseguiram encontrar – os meios tecnológicos nesse tempo eram muito menos sofisticados… Restava eu. Apesar de todas as manifestações de confiança, revelei algum receio, porque não deixava de ser um miúdo com 18 anos, que saíra diretamente dos juniores e era agora o centro de todas as atenções. O giro é que, com o decorrer do jogo, tudo isso se esbateu. Eu senti-me bem e os responsáveis ficaram maravilhados, porque nunca tinham visto um miúdo com aquela idade revelar tanta maturidade e confiança – comecei a sair aos cruzamentos na zona de penálti, a dividir a bola com avançados que eram homens feitos, sem qualquer problema no confronto. Esse foi o primeiro capítulo de uma história que toda a gente conhece.
5 – Uma formação atípica
R – Nesse período aconteceu um facto relevante: a ausência da Seleção de sub-20 que foi campeã do Mundo em Riade. Como digeriu esse momento?
VB – A minha formação no FC Porto foi muito atípica. No primeiro ano como iniciado, joguei porque não havia mais ninguém (é mesmo assim…); e depois só voltei a fazê-lo regularmente no último ano de juniores – entre uma coisa e outra fui sempre suplente, do Bizarro, do Paulo Fernandes e do Best. A minha formação foi passada de um modo genuíno, pelo prazer de treinar, por amar o que fazia e por ter um comportamento de acordo com as exigências. Adorava estar ali e nunca tive problemas com treinadores. Porém, mesmo sem jogar, à minha volta pairou sempre a ideia de que era o guarda-redes com mais potencial. Isto é um bom exemplo para os jovens que não jogam tanto quanto desejam: nunca desistam e mantenham uma postura acertada. Quanto ao afastamento do Mundial em Riade, não foi fácil. A minha exclusão deveu-se à necessidade que o FC Porto tinha dos meus serviços na equipa principal. Marcou-me muito, gostava de ter vivido aquilo por dentro, cresci com todos aqueles jogadores e custou-me imenso não estar com eles. Mas adorei que tivessem ganho. Festejei como se lá estivesse, com a noção de que não se pode ter tudo.
6 – A Geração de Ouro
R – Que importância atribui à Geração de Ouro?
VB – A Geração de Ouro representa uma transformação a todos os níveis no futebol português, que passou por treinadores, jogadores, novas ideias e metodologias. O processo começou com os professores Carlos Queiroz e Nelo Vingada, com uma nova maneira de ver e pôr em prática o que pensavam ser melhor para a nossa formação como profissionais e baseou-se em muito, mas mesmo muito trabalho – muito treino, muitas repetições e total disponibilidade para apreender conceitos e melhorar o nosso entendimento do jogo. O resto foi a sorte de um grupo excecional de jogadores ter nascido na mesma altura e conseguirmos, com gente diferente, ser campeões do Mundo em 1989 e 1991. Só foi pena, como seniores, não termos dado o título importante que o futebol português e nós próprios merecíamos. Essa é a nossa mágoa. E é ainda mais relevante do que a felicidade de carreiras individuais riquíssimas, em Portugal e no estrangeiro. No meu caso, relativiza a felicidade de ser o guarda-redes com mais títulos da história do futebol.
7 – Barcelona meu amor
R – Que memórias guarda da passagem por Barcelona?
VB – Foi amor à primeira vista. Estabeleci uma relação muito forte com todos: com os companheiros, com os dirigentes e, acima de tudo, com os adeptos, algo de muito forte, que não consigo explicar. A empatia foi automática. Foi inesquecível, logo na primeira época, ganhar três em quatro competições, uma das quais a minha primeira vitória internacional, a Taça das Taças, ganha ao Paris Saint-Germain, em Roterdão – a meia-final nessa campanha foi inesquecível, frente à Fiorentina de Rui Costa. No campeonato, porque o clube tem uma filosofia muito própria, a reclamação era de que devíamos ser ainda mais ofensivos e nós já tínhamos uma propensão atacante tremenda (Ronaldo Fenómeno, Figo, Rivaldo, Stoichkov, Giovanni, Luis Henrique, Iván de la Peña…). Ainda vencemos a Taça do Rei ao Betis Sevilha (3-2), no Bernabéu. No fim, inesperadamente, a organização pôs o hino do Barcelona a tocar em pleno estádio do maior rival. Foi uma bomba. Quando os dirigentes perceberam o que estava a acontecer, juntaram-se a nós e foi o fim. Pareciam crianças a festejar.
8 – O regresso a casa
R – Como se processou o regresso definitivo ao FC Porto?
VB – Na pré-época seguinte, já com Van Gaal, tive uma lesão grave no tendão rotuliano e passei oito meses parado. Joguei apenas os últimos dois ou três jogos, quando já éramos campeões. Antes da terceira época, e tal como me dissera, um ano antes, que era eu o titular e o Hesp o suplente, o treinador holandês não esteve com rodeios e disse-me o contrário. Chegámos então a um acordo: se não recuperasse a baliza até dezembro teríamos de encontrar uma solução. Aos 29 anos não podia estar parado. Após algumas divergências e confronto de ideias, houve consenso quanto à minha saída. Em cima da mesa estavam propostas do AC Milan e do FC Porto. Naquele momento, por ser um empréstimo de ano e meio, decidi voltar ao FC Porto, que era o meu habitat natural, onde as pessoas gostavam de mim e me iria voltar a sentir importante. Ao fim desse período, o clube deu-me condições para ficar e ainda bem, porque os melhores anos estavam ainda para vir.
9 – Era uma vez no Oriente
R – Que memórias guarda do Mundial da Coreia do Sul e Japão, em 2002, para o qual partiu como suplente e acabou por ser o titular?
VB – Tinha a perfeita noção de que o Ricardo estava em melhor posição. No entanto, quem esteve no estágio em Macau e depois na Coreia do Sul, quem viu os treinos e assistiu ao jogo com a China, teve forçosamente de mudar de opinião. Nessa altura falou-se de muitos complots e jogadas de bastidores, mas essas são explicações de mau pagador. Em causa esteve apenas qualidade individual e a decisão de quem tinha de tomá-la: o selecionador. Essas teorias, todas muito estranhas, não passam de diversão para se vitimizar quem não jogou e justificar o que consideram o erro da opção tomada. Se falarem com todos os jogadores que estiveram nesse Mundial, compreenderão os motivos da escolha.
10 – No topo da Europa e do Mundo
R – Entende que o período entre 2002 e o fim da carreira foi aquele em que atingiu o máximo das suas potencialidades?
VB – Não tenho a menor dúvida. Aliás, essa fase começa precisamente no Mundial de 2002, altura a partir da qual iniciei o momento de maior qualidade do meu jogo e mais intenso na relação entre o que dei e o que recebi da carreira. Atingi o máximo de mim próprio depois dos 33 anos. Nesse período fui considerado o melhor guarda-redes da Europa, distinção tremenda, mesmo sabendo que o mais importante no futebol são os prémios coletivos, ou seja, os títulos. Uma coisa é dizer-se que determinado jogador é um dos melhores do Mundo; outra é ganhar um troféu que reflita isso. Gostava de ver, um dia, outro português ser distinguido. Mas não vai ser para já: temos bons guarda-redes mas nenhum de topo mundial. E há que trabalhar na base para que isso volte a suceder. Se conseguirmos formar treinadores, é possível atingir, dentro de cinco a dez anos, algum guarda-redes de exceção.
11 – O escândalo do Euro’2004
R – Já conseguiu compreender por que razão foi afastado do Euro’2004?
VB – Durante esse período, à volta do Euro’2004, falei com muitos guarda-redes consagrados, em alguns eventos para os quais fui convidado, como Buffon e Casillas, por exemplo; e eles não conseguiam entender como eu, considerado o melhor da Europa, não estava sequer numa lista alargada de potenciais convocados para a fase final da competição. Depois de ouvir tantas teses e justificações, cada vez estou mais confuso. Reparem bem: já ouvi que a decisão de me afastar resultou de uma conversa que Pinto da Costa e José Mourinho teriam tido com Scolari no início da época, anunciando-lhe que quem iria jogar no FC Porto seria o Nuno e que eu não era um bom elemento no balneário como suplente; também ouvi que fui afastado por ser, alegadamente, testemunha de António Oliveira no diferendo dele com a FPF (nunca fui testemunha seja de quem for…); que eu era Nike e não Adidas, logo estava contra a corrente; que tinha e fazia mau ambiente junto dos meus companheiros e era um foco de desestabilização no balneário… Enfim, já ouvi tanta coisa que, em vez de esclarecido, fico ainda mais confuso. O que sei, pela minha maneira de ser e estar na vida, é que não guardo rancor seja a quem for. Essa história do Euro’2004, mesmo que esteja mal contada, é uma página fechada na minha vida.
As vitórias europeias
"O melhor foram os títulos, todos ganhos com grande determinação, pelo compromisso a 200 por cento com a causa que abraçava, fosse ela o FC Porto, o Barcelona ou a Seleção – é aí que se guardam os fundamentos da mística. Duas conquistas se destacam: a Taça UEFA, por ser a primeira final europeia do clube pós-Viena, em 1987; e a Liga dos Campeões, no ano seguinte, que foi a cereja em cima do bolo. Se perguntarmos a qualquer jogador qual é a competição que gostaria de vencer, todos dirão que é a Champions. Foi um sonho concretizado e só nos damos conta da dimensão do feito passados uns anos."
Dois anos terríveis
"As lesões apelaram ao meu espírito de sacrifício, num processo iniciado em 1997 mas cuja expressão máxima aconteceu mais tarde. Foram dois anos terríveis, sem jogar, com lesões graves, traduzidas em quatro operações ao joelho direito, entre 2000 e 2002. E quando se pensava que tinha a carreira acabada, voltei para viver os anos mais esplendorosos da carreira. Foram momentos importantes para o meu crescimento. Estive metido dentro de ginásios durante dois anos, a lutar por algo que já todos punham em causa."