Há vitórias que pertencem a um momento e há vitórias que pertencem à História. A vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial foi uma dessas raras ocasiões em que o triunfo ultrapassou fronteiras, idiomas e gerações e não representou apenas o fim de um conflito devastador simbolizou a resistência coletiva contra a tirania, a capacidade de união entre povos distintos e a convicção de que a liberdade exige coragem, sacrifício e perseverança.
Curiosamente, o desporto oferece muitas vezes imagens simbólicas semelhantes. O triunfo raramente pertence apenas ao talento isolado, pertence à organização, ao espírito coletivo e à resistência perante a adversidade. Foi isso que os adeptos portistas viram na conquista do campeonato pelo FC Porto, na Primeira Liga 2025–2026. Mais do que uma sucessão de resultados positivos, houve a sensação de uma equipa construída na disciplina, na superação e na crença comum num objetivo partilhado.
Naturalmente, o futebol não se compara à tragédia humana da guerra. Nenhum campeonato deve ser colocado no mesmo plano moral ou histórico do sofrimento vivido entre 1939 e 1945, ainda assim, as sociedades recorrem frequentemente ao desporto para reencontrar símbolos de identidade, união e resistência. E é precisamente por isso que certas vitórias desportivas ganham dimensão emocional e coletiva.
Há uma razão profunda para continuarmos fascinados pela ideia de “aliados da vitória”, porque ela recorda algo essencial sobre a condição humana, os maiores triunfos raramente são solitários. Seja na reconstrução de um continente devastado, seja na caminhada de uma equipa rumo ao título, a vitória nasce quase sempre da capacidade de unir diferenças em torno de um propósito comum. Um título que foi conquistado com muitas pedras a serem colocadas no caminho.
Em Abril de 2024, o FC PORTO sai de uma liderança de quarenta e dois anos de Jorge Nuno Pinto da Costa, para uma vitória esmagadora, nas urnas, de André Villas Boas. Nos últimos vinte e quatro meses muitos escreveram, sendo críticos severos (algumas vezes) da actual liderança. Mas tal como o primeiro ano da liderança de Pinto da Costa, em 1982, a época 2024-2025 correu muito mal ao FC Porto, salvando-se a vitória épica em Aveiro para a Supertaça. E foi com um espírito de união, de conquista, que todos os portistas chegaram no passado sábado ao Dragão para o último jogo da época. Mas, o melhor estava para acontecer.
No final do jogo contra o Santa Clara, a moldura humana dentro e fora do Estádio do Dragão seguiu para a Ribeira e depois para a Avenida dos Aliados. Os portistas vieram para a rua e de azul e branco, foi pintada a Invicta cidade, como não tenho memória de alguma vez ter visto. Foi uma noite e madrugada de inteira dedicação à celebração de um triunfo, que fez com que os jogadores Campeões Nacionais desfilassem a pé, de autocarro e de barco e se registassem momentos que jamais esqueceremos, nas comemorações do título nacional. O fogo de artifício na Ponte Luiz I, e em todas as margens circundantes, o espetáculo único de drones, sobre a Serra do Pilar e a tradicional subida à varanda da Câmara Municipal do Porto, são só alguns dos momentos inesquecíveis, da festa do nosso trigésimo primeiro título, para já não falar na moldura humana impressionante que encheu por completo a Avenida dos Aliados e vibrou quando Pedro Abrunhosa cantou, “Vem ter comigo aos Aliados”. Foi arrepiante.
VIVA O FUTEBOL CLUBE DO PORTO