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É preciso devolver a confiança ao futebol português
Um jogo de cavalheiros
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Há momentos em que o futebol português precisa de parar, olhar para si próprio e ter a coragem de reconhecer que existe um problema sério, e, neste momento, esse problema chama-se confiança, ou melhor, a falta dela.
A intervenção do FC Porto na Assembleia-Geral da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) voltou a colocar no centro da discussão uma questão que há muito deixou de ser apenas desportiva, a liderança do Conselho de Arbitragem, a permanência de Luciano Gonçalves e a responsabilidade de quem tem a obrigação de garantir credibilidade às instituições que dirigem o futebol português.
Não está aqui em causa apenas o FC Porto, nem sequer está em causa uma decisão de arbitragem, um penálti por assinalar ou um fora de jogo mal interpretado, o que aqui está em causa é algo muito mais importante, a confiança dos clubes, dos adeptos e de todos os que acompanham o fenómeno futebol, naqueles que têm a responsabilidade de o tornar justo e transparente. E quando essa confiança desaparece, há qualquer coisa que está profundamente errada.
Os dirigentes do FC Porto presentes na Assembleia Geral da FPF voltaram a defender que Luciano Gonçalves deixou de reunir condições para continuar a exercer as funções de presidente do Conselho de Arbitragem, independentemente do desfecho de qualquer investigação. É uma posição forte, naturalmente contestável por quem entende que deve prevalecer a presunção de inocência, mas há uma diferença que importa não ignorar, uma coisa é a responsabilidade criminal, outra é a responsabilidade institucional.
Não é necessário esperar por uma decisão judicial para perceber que uma instituição pode estar a atravessar uma crise de credibilidade. A liderança de uma estrutura como o Conselho de Arbitragem exige mais do que o cumprimento formal de um mandato, exige autoridade, transparência, capacidade de comunicação e, acima de tudo, confiança, e é precisamente essa confiança que está em causa.
O episódio da alegada circulação antecipada de informação sobre uma nomeação de arbitragem, referido no relatório do Conselho de Justiça, as explicações públicas em torno de matérias pessoais e patrimoniais e a sucessão de polémicas não podem ser tratados como simples ruído de fundo, são questões que exigem esclarecimentos claros e respostas institucionais.
Naturalmente, o FC Porto tem todo o direito de defender os seus interesses e de questionar aquilo que considera errado, mas seria um erro reduzir esta discussão a mais um episódio da guerra entre clubes e arbitragem. O problema é demasiado importante para ficar fechado numa disputa de interesses. Hoje é o FC Porto que levanta estas questões, ontem foi o Braga, amanhã poderão ser outros clubes, e, independentemente das cores clubísticas, todos deveriam querer o mesmo, uma arbitragem respeitada, dirigentes credíveis e instituições acima de qualquer suspeita.
O futebol português não pode continuar a normalizar o anormal, não pode aceitar que a desconfiança seja uma presença permanente, que cada polémica seja resolvida com mais uma declaração e que cada crise termine sem que ninguém assuma verdadeiramente responsabilidades.
E salvo melhor opinião, quando a confiança desaparece, não são os clubes que a têm de a reconstruir, são as instituições que têm de provar que ainda merecem tê-la.