Os óculos de realidade virtual do selecionador Roberto Martínez
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A atmosfera em Houston tinha tudo para ser o cenário de uma noite de celebração, o arranque triunfal de uma Seleção Nacional que viaja para este Mundial de 2026 com o rótulo legítimo de uma das candidatas ao trono. O favoritismo teórico frente à RD Congo era inegável, a comitiva transbordava talento e o país, do Minho ao Algarve, sintonizou as televisões com a secreta esperança de ver uma exibição de gala. Em vez disso, o que se assistiu no Texas foi um monumental balde de água fria. A estreia de Portugal acabou por ser uma desilusão profunda a todos os níveis, um deserto de ideias camuflado por uma posse de bola estéril que rapidamente se transformou numa pasmaceira exasperante. Entrámos na maior competição do planeta com a soberba dos predestinados, mas saímos do relvado com a pequenez dos que não sabem o que fazer com o talento que têm em mãos.
No jogo com a RD Congo, o grande pecado desta Seleção foi a insistência cega num modelo excessivamente lateralizado. A bola circulava num vaivém cinzento entre os centrais e os laterais, num compasso de espera exasperante que parecia adormecer mais a nossa própria equipa do que a muralha defensiva congolesa. Faltou verticalidade, faltou a coragem do risco e, acima de tudo, faltou aquele passe de rutura que rasga linhas e desmonta blocos baixos. Portugal jogou os noventa minutos com o travão de mão puxado, a um ritmo de banho-maria totalmente incompatível com as exigências e a agressividade de um Campeonato do Mundo.
Frente a uma equipa teoricamente mais acessível, que se limitava a tapar caminhos e a espreitar o espaço para o contragolpe, a Seleção Nacional foi dramaticamente incapaz de impor uma dinâmica de alta intensidade. Fomos moles na pressão, previsíveis na transição e letárgicos na reação à perda de bola. O castigo acabou por chegar da forma mais dolorosa, com o golo de Yoane Wissa em cima do intervalo, a castigar a nossa sobranceria coletiva e a apatia de quem achava que o jogo se ganharia apenas pelo peso do estatuto.
No meio deste cenário cinzento e amorfo, o único verdadeiro raio de luz que iluminou a noite de Houston teve, inevitavelmente, a marca da seiva do Seixal. O golo madrugador de João Neves, logo aos seis minutos de jogo, foi o único momento de rebeldia pura e de lucidez tática em todo o encontro. Foi o golo daquele "menino da Luz", que hoje brilha no firmamento de Paris, a assumir as despesas do jogo, a galgar metros e a romper na área com a agressividade e a fome de vencer que faltaram aos restantes astros da equipa.
Contudo, o que se seguiu ao apito final foi, porventura, ainda mais preocupante do que os noventa minutos de futebol sofrível. A conferência de imprensa de Roberto Martínez foi um exercício de alucinação coletiva que deixou os portugueses perplexos e desarmados. Ouvir o selecionador nacional analisar o encontro é ter a nítida sensação de que o técnico espanhol assistiu a um filme de ficção científica completamente diferente daquele que passou nos ecrãs de todo o mundo. Onde os adeptos e os analistas viram lentidão, previsibilidade, falta de garras e um futebol sem baliza, Martínez conseguiu ver "controlo", "paciência" e um "plano cumprido".
Esta gritante falta de autocrítica é, nesta fase, o maior perigo que a Seleção enfrenta neste Mundial. Quando o líder é incapaz de reconhecer o óbvio e insiste em elogiar dinâmicas amorfas que prenderam os nossos principais criativos num labirinto tático, o processo de evolução fica severamente comprometido. O selecionador demorou uma eternidade a mexer na equipa, insistindo em manter as peças presas nas alas e estáticas na frente de ataque, enquanto a RD Congo se sentia cada vez mais confortável e senhora do seu meio-campo. Se continuarmos a colocar óculos de realidade virtual para mascarar exibições medíocres e a camuflar a falta de fio de jogo com estatísticas estéreis, o choque com a realidade nas fases a eliminar será inevitável e penoso.
A margem de erro evaporou-se em Houston e o próximo compromisso, frente ao Uzbequistão no dia 23 de junho, exige uma revolução imediata de atitude e de processos. Portugal tem talento para dar e vender no papel, tem soluções para apresentar várias equipas candidatas, mas no relvado é preciso fome, intensidade e verticalidade. Que o selecionador tire definitivamente as palas dos olhos e perceba que o futebol moderno não sobrevive de posses de bola laterais e inconsequentes. É preciso transportar para a Seleção uma mística de exigência máxima, onde o talento seja potenciado pela coragem e não asfixiado por um sistema rígido e cinzento. Menos passes para o lado e mais inconformismo são o único antídoto possível para evitar um descalabro precoce nesta caminhada mundialista. Portugal exige e merece muito mais. Sejam exigentes com vocês mesmos!