Quando o destino nos exige a grandeza

Seguir Autor:

Miguel Saraiva
Miguel Saraiva
Adicione como fonte preferencial no Google

A atmosfera que se viveu em Houston na estreia deste Mundial de 2026 deixou marcas na alma dos adeptos portugueses. O que se projetava como o arranque triunfal de uma comitiva transbordante de talento transformou-se, de forma dramática, num monumental balde de água fria que expôs as fragilidades de um modelo de jogo asfixiado pela previsibilidade. Na semana passada, neste mesmo espaço, não poupei críticas à letargia coletiva, à posse de bola estéril e àquela insistência cega num vaivém cinzento entre centrais e laterais que parecia adormecer mais a nossa própria equipa do que o bloco defensivo da República Democrática do Congo. O confronto seguinte, diante do Uzbequistão, carregava a urgência de uma revolução imediata de atitude, de processos e, acima de tudo, de mística.

Felizmente, o futebol vive de pragmatismo e o relvado acabou por ditar uma necessária correção de rumo. Longe de ter sido uma exibição brilhante, o jogo frente ao Uzbequistão valeu, acima de tudo, pela eficácia e pela capacidade de traduzir em números o inconformismo que faltou na estreia. No âmbito dessa resposta factual, gostaria de fazer referência a Cristiano Ronaldo. O capitão limitou-se a fazer o que a sua função exige, apareceu nos momentos certos e resolveu com golos. Num espaço de poucos dias, a Seleção trocou a pasmaceira exasperante do carrossel de passes laterais por uma abordagem mais direta e produtiva. A resposta ao futebol mole e previsível da primeira jornada não surgiu de um golpe de magia, mas sim da eficácia prática na hora de finalizar.

O que Cristiano Ronaldo alcançou ao bisar frente ao Uzbequistão transcende as fronteiras do futebol português. O capitão tornou-se no primeiro jogador em toda a história do futebol a marcar em seis edições diferentes do Campeonato do Mundo. Estamos a falar de 24 anos de futebol ao mais alto nível, um quarto de século a resistir ao desgaste do tempo, à evolução física do jogo e à voracidade de uma crítica que, com uma pressa indecorosa, insistia em assinar a sua certidão de óbito futebolística.

Ao apontar os dois golos, Ronaldo quebrou ainda o mítico recorde nacional de golos em fases finais de Mundiais que pertencia, há décadas, ao eterno e inigualável Eusébio. É a passagem de testemunho entre dois avançados que marcaram o nosso futebol pela capacidade de decidir jogos quando a equipa mais precisava.

O talento que Portugal tem só se transforma em vitórias reais quando é potenciado pela procura incessante e pragmática da baliza adversária. Portugal provou que tem os argumentos e a matéria-prima necessária para defrontar o mundo. Que o exemplo de eficácia desta semana sirva de bitola para o que resta da caminhada mundialista. Sejam exigentes com vocês mesmos, porque o destino deste Portugal tem de ser, obrigatoriamente, a grandeza.

Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Newsletters RecordReceba gratuitamente no seu email a Newsletter Premium ver exemplo

Ultimas de Um jogo de cavalheiros

Notícias
Notícias Mais Vistas