A ilusão da mudança e o clima no Dragão
Um jogo de cavalheiros
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Apoiar o Benfica no Estádio do Dragão continua a ser, para qualquer adepto, um exercício de constante prudência. Houve um tempo em que toda a cidade parecia refém de uma atmosfera sufocante imposta por certos grupos, mas hoje o problema afunilou e persiste onde devia ser mais seguro: dentro do próprio estádio.
O futebol devia ser festa, celebração e convivência entre adeptos rivais, mas no ambiente que rodeia os jogos com o FC Porto impera, há décadas, uma estratégia bem oleada de condicionamento, pressão sobre a arbitragem e intimidação.
O episódio recente da jovem adepta agredida por festejar um golo encarnado reflete na perfeição esse clima. Demonstra como a intimidação é cultivada no Dragão, onde a simples expressão de alegria do adversário é vista como um ato de provocação que justifica a violência. O medo continua a ser instrumentalizado na bancada e fora dela. Quando a paixão dá lugar ao receio de expressar alegria, a própria essência do desporto é atacada.
Havia a expetativa de que a liderança de André Villas-Boas trouxesse uma rutura genuína. Tenta-se vender a imagem de uma presidência mais institucional por oposição à era de Pinto da Costa. A verdade é que, na prática, a matriz do condicionamento, da pressão sobre os árbitros e do medo permanece intacta. Pode ter menos piada na forma, mas vem da mesma escola: um ataque direto à liberdade e à cultura desportiva.
A cidade do Porto mudou e modernizou-se, mas o seu estádio continua preso a uma lógica de intempestividade e intolerância. O futebol português não pode aceitar que um recinto desportivo funcione como uma zona de exceção às regras básicas de convivência.
O Porto, cidade e a região não são isto, são gente boa, autêntica e de forte carácter. O norte e o Porto também estão cheios de benfiquistas e ninguém merece ter medo de ir a um jogo de futebol.