A verdade desportiva não pode ser um detalhe

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Paulo Teixeira
Paulo Teixeira

No futebol português, há expressões que surgem tantas vezes que correm o risco de perderem significado, e a Verdade desportiva é uma delas.

Repete-se em conferências de imprensa, comunicados e debates televisivos, mas, olhando para episódios recentes envolvendo o Santa Clara, percebemos que não é apenas retórica, é um problema real.

Na edição deste ano da Taça de Portugal, um lance aparentemente simples, um canto mal assinalado, que nunca existiu, teve consequências diretas no resultado. Não se tratou de uma interpretação duvidosa ou de um fora de jogo milimétrico, foi um erro factual, a bola não foi tocada por quem o árbitro indicou, e nem assistente, nem VAR, fizeram nada. Melhor dizendo, só estes viram o que o Mundo inteiro não viu. E desse erro crasso nasceu um golo. Num jogo a eliminar, isto não é um pormenor, é uma sentença.

Mais grave ainda foi o que aconteceu na passada sexta-feira, num Estádio situado na Segunda Circular, na capital do império centralista. Um jogador da equipa da casa cai sem contacto evidente, o senhor vestido de preto interrompe a jogada, perto do lance estava um jogador do Santa Clara, que só tendo o guarda-redes pela frente, vê desaparecer uma oportunidade claríssima de golo.

Aqui, não falo apenas de um mero erro técnico, aqui trata-se de uma decisão que interfere diretamente num momento decisivo de um lance, e consequentemente o seu desfecho provável do mesmo, poderia ficar o Santa Clara a vencer por dois a zero.

Perante estes dois casos, a pergunta que adora se impõe é, até que ponto a verdade desportiva está realmente protegida?

É certo que o erro faz parte do jogo. Os árbitros são humanos, decidem em frações de segundo e sob enorme pressão, mas essa explicação, embora válida, não pode servir de escudo absoluto. O futebol moderno é dotado de ferramentas precisamente para reduzir o impacto desses erros, e quando elas não são aplicadas, ou são insuficientes, o sistema falha.

O VAR, tantas vezes apresentado como solução, mostra aqui os seus limites. Não intervém em todos os lances, não corrige todos os erros, e deixa zonas cinzentas onde decisões erradas continuam a ter consequências definitivas. E quando essas consequências recaem, repetidamente, sobre os mesmos tipos de clubes, menos mediáticos, menos influentes, a perceção de injustiça adensa-se.

Não é preciso acreditar em teorias para reconhecer um problema estrutural, basta olhar para os lances, basta perceber que um canto inexistente não pode dar golo, e que uma jogada de golo iminente não pode ser anulada por uma queda sem nenhum contacto.

A verdade desportiva não exige perfeição, exige, sim, um compromisso sério com a correção do erro sempre que possível, porque, no fim, o que está em causa não é apenas um resultado, é a credibilidade da competição, e essa, ao contrário de um jogo, não se pode repetir.

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