Ajustar agulhas antes que seja tarde

Um jogo de cavalheiros

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Não há como dourar a pílula nem camuflar a realidade: a estreia oficial de Marco Silva no comando técnico do Benfica deixou a Nação Benfiquista com um travo amargo na boca. A derrota na Suíça frente ao St. Gallen, no arranque da caminhada na Liga Europa, caiu como um verdadeiro banho de água fria. Quando as cicatrizes do último campeonato ainda se sentem ao toque, ver a equipa tropeçar logo no primeiro teste de fogo fez renascer fantasmas que todos queríamos ver bem enterrados.

Mas, no futebol de alta competição, o pânico é o pior conselheiro de quem tem a obrigação histórica de vencer. Ser realista neste momento exige lucidez. A máquina encarnada ainda está em fase de rodagem e de afinação. Marco Silva trouxe consigo novos conceitos, dinâmicas táticas distintas e uma exigência de processos que não se sedimentam do dia para a noite. Cobrar perfeição absoluta a um coletivo ainda em construção seria tão injusto quanto irrealista. O deslize em St. Gallen é um aviso sério, sem dúvida, mas deve ser encarado como um diagnóstico feito a tempo de ser corrigido, e jamais como uma sentença antecipada para o que aí vem.

Com o arranque do campeonato nacional à porta, a margem para lamentações é absolutamente nula. A verdadeira grandeza do Glorioso não se mede pela ausência de quedas, mas sim pela capacidade quase genética de reagir com ferocidade ao primeiro murro no estômago. A prioridade imediata passa por transformar a desilusão do resultado numa fome devoradora de vitórias, reeditando a identidade dominadora que os adeptos exigem.

A época é uma maratona e a eliminatória continua perfeitamente ao nosso alcance. Que a noite em St. Gallen sirva de combustível ideal para uma exibição de grande nível na Europa. A resposta que todos esperamos já tem data e palco marcados: daqui a uma semana, na nossa Catedral. Na segunda mão, o cenário terá de ser radicalmente oposto. Caso contrário, passaremos, em 90 minutos, de potenciais candidatos a vencer a Liga Europa a um desastre de época. Perante as bancadas compostas pelo seu público, o Benfica vai ter de apresentar argumentos completamente diferentes daqueles traços hesitantes mostrados na Suíça. É preciso colocar em campo mais intensidade com bola, uma superioridade tática vincada e aquela agressividade saudável de quem sabe que jogar na Luz implica mandar no jogo do primeiro ao último minuto.

Marco Silva dispõe da competência técnica e da visão tática necessárias para retificar a rota deste arranque que nada de bom augura, diria mesmo, um verdadeiro tsunami. Que as coloque ao serviço da nossa equipa, pois foi para isso que foi contratado. Contudo, os jogadores precisam de sentir, desde o aquecimento, que o vulcão da Luz está pronto para jogar com eles. Eles são os atores contratados, supõe-se, com a qualidade proporcional à dimensão do clube.

Quanto aos atores que jogaram ontem, uma parte substancial deles deveria ser dispensada. São jogadores banais, cuja falta de qualidade só se dilui quando inseridos numa equipa forte. Não é o caso. A equipa jogou mal e não tem qualidade, a todos os níveis. Por isso mesmo, estes senhores vão acabar por desaparecer dos grandes palcos do futebol, são apenas uns entre tantos outros. Não tiveram a mínima noção do palco e do clube que representam.

É fácil ir pelo caminho de culpar o Presidente. Mas onde fica a responsabilidade do treinador? E a dos jogadores? Apesar de o Presidente Rui Costa ter sido um excelente jogador, não é ele que marca os golos nem é ele que comanda a equipa em campo. O Presidente não pode ser escudo para tudo!

Joguem à bola! Na Luz, a história escreve-se à Benfica.

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