O regresso de José Mourinho ao futebol português foi recebido com a aura mítica de um D. Sebastião desportivo, o salvador da pátria que vinha resgatar a hegemonia e a exigência do Sport Lisboa e Benfica. Contudo, o veredicto final do relvado acabou por ditar uma realidade frustrante: um terceiro lugar que fica manifestamente aquém da história do clube. No futebol moderno, as análises não devem ser feitas sob o efeito da emoção, mas fechar os olhos ao insucesso ou catalogar esta época como pouco positiva seria abdicar da matriz crítica e ambiciosa que define o universo benfiquista. Faltou fulgor tático em momentos cruciais e a equipa, embora tenha rubricado uma segunda volta de bom nível — com maior consistência e solidez —, pagou demasiado caro a irregularidade inicial e a perda de pontos fulcrais perante adversários teoricamente acessíveis.
Convém não esquecer o contexto desta caminhada. Mourinho não apanhou um barco à deriva no meio do Atlântico; assumiu o comando técnico logo à quarta jornada do campeonato. Tinha tempo, dispunha de margem de manobra e tinha à sua disposição um plantel de qualidade inquestionável. É evidente, para quem acompanhou o campeonato de forma isenta, que houve fatores externos penalizantes, incluindo erros de arbitragem em momentos cruciais que subtraíram pontos legítimos. Todavia, o futebol atual é uma engrenagem complexa e o insucesso desportivo raramente tem um único rosto. Culpar apenas o apito seria tão redutor como ignorar as falhas coletivas que impediram a equipa de ir mais longe. Ver os rivais festejar à distância é um desfecho que deixa marcas profundas e exige autocrítica.
A transição de José Mourinho para o Real Madrid surge através de uma janela contratual de rescisão, um mecanismo que foi assinado de comum acordo e que salvaguardava o clube. Neste dossiê específico, a atuação do Presidente Rui Costa foi irrepreensível. O líder encarnado blindou os interesses do Benfica desde o primeiro momento, agiu com total profissionalismo e garantiu que a instituição não saísse prejudicada financeiramente. Além disso, temos de ser realistas e pragmáticos perante o mercado atual: no futebol do século XXI, quando um colosso com a dimensão e o poder financeiro do clube merengue decide avançar, o desfecho é quase inevitável. O magnetismo dessas superpotências torna a retenção de talento uma missão quase impossível para qualquer emblema português.
Rui Costa agiu como um líder ambicioso ao contratar o técnico mais titulado do país. Naturalmente, a estrutura e a presidência não estarão isentas de erros no planeamento e na gestão de expectativas ao longo deste processo. Contudo, mais do que apontar o dedo a falhas que o tempo ajudará a corrigir, o momento exige pragmatismo: Rui Costa é o nosso Presidente legitimado e o timoneiro escolhido para guiar o clube. Se a parceria com Mourinho não funcionou no relvado, isolar ou fragilizar a Direção neste momento de transição seria um erro estratégico imperdoável, servindo apenas os interesses dos rivais que lucram com a divisão interna na Luz. É o momento de demonstrar maturidade associativa, olhar em frente e fechar fileiras.
Este desfecho é, no fundo, o reflexo dos tempos de liquidez em que vivemos, onde os projetos parecem ter menos peso do que os grandes palcos europeus e as carreiras se gerem ao ritmo da volatilidade contemporânea. A lealdade institucional e o compromisso a longo prazo são hoje conceitos fortemente desafiados pelas dinâmicas do mercado global, onde o mediatismo dita as regras.
Mourinho ruma a Madrid e encerra-se a sua segunda passagem pela Luz. Espero que não se aplique aqui o provérbio “não há duas sem três”! O amanhã do Benfica exige agora outra estabilidade e um perfil distinto. O próximo timoneiro terá de demonstrar uma fome insaciável de vencer e compreender que treinar o Benfica é um ponto de chegada absoluto, nunca uma mera estação de serviço na autoestrada do futebol europeu. No final de contas, os protagonistas e os egos passam, mas a nossa exigência histórica mantém-se intocável. O Benfica é eterno e a sua grandeza ultrapassa qualquer nome. É hora de erguer a cabeça e honrar a nossa essência, porque o futuro constrói-se com a força inabalável da nossa união.