Escrever sobre o Benfica nesta fase da temporada é um exercício de equilibrismo entre a frieza dos números e a crueza dos factos. Vivemos um paradoxo que tortura a alma de qualquer adepto: uma equipa que ostenta o rótulo de imbatível, que se recusa a ver o marcador vergar perante o adversário, mas que, simultaneamente, observa o seu museu condenado a mais um ano de prateleiras vazias. A invencibilidade, que noutros tempos seria o timbre da glória, transformou-se numa máscara de vidro, bonita de se ver mas frágil ao toque, que esconde uma das épocas mais penosas da nossa história recente.
Não percamos tempo com eufemismos ou balanços de circunstância, o Benfica de hoje é uma equipa que não perde, mas que também não sabe ganhar. A saída precoce da Taça de Portugal e a eliminação da Taça da Liga não foram meros acidentes de percurso; foram o sintoma de uma incapacidade crónica de decidir, de morder no momento certo e de impor o peso da camisola quando o jogo se torna um duelo de tudo ou nada. Onde antes habitava a contundência competitiva, hoje reside uma gestão de jogo burocrática que nos conduziu a um deserto total de conquistas.
Mas o abismo torna-se mais profundo quando olhamos para o horizonte europeu e percebemos que o Benfica está prestes a quebrar um ciclo de 16 anos de presença ininterrupta na elite da Liga dos Campeões. Mais grave do que a possibilidade de falhar a prova milionária é a frustração de já não sermos donos do nosso destino. Passámos de protagonistas a contabilistas, de senhores do nosso caminho a pedintes de um deslize alheio que nos devolva à mesa dos gigantes. Ver o Benfica nesta posição de submissão, à espera que terceiros corrijam os erros que nós próprios acumulámos, é um golpe penoso na mística de um clube que se habituou a ditar as regras do jogo.
É por isso que o futuro não pode ser apenas uma palavra vaga; o futuro tem de ser uma urgência desenhada hoje, com o sangue frio de quem reconhece que o modelo atual esgotou. Não podemos continuar a alimentar o mito da invencibilidade estéril enquanto os rivais levam a prata para casa. Preparar o amanhã exige uma renovação de exigência que mobilize a estrutura e se reflita em pleno no relvado. O Benfica precisa de recuperar a agressividade, de reencontrar a fome de ganhar que foi substituída por um medo paralisante de perder. Se o próximo ano nos obrigar a viver fora das luzes da ribalta europeia, que esse tempo de sombra sirva para uma introspeção profunda e sem concessões. É tempo de decidir quem tem realmente estofo para carregar este peso e quem se contenta com a mediocridade de um empate bem jogado.
Esta época, falhada em toda a linha, deve servir de mapa para o que não podemos repetir. O planeamento do próximo ciclo exige o desassombro de quem prefere a dureza da verdade ao conforto da invencibilidade estéril. Não há mais tempo para hesitações: ou começamos hoje a desenhar o Benfica que volta a meter medo, ou condenamo-nos a ser meros espectadores da glória alheia. A próxima época já começou nos gabinetes e na consciência de cada um, que seja o primeiro capítulo de uma era onde ganhar volta a ser a única métrica admissível.