Vencemos a narrativa
Um jogo de cavalheiros
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Há semanas que parecem feitas para testar a paciência de um clube, dos seus sócios e dos seus adeptos, e a parte desta e da semana passada foram duas delas.
Há muitos dias, assistimos a um verdadeiro desfile de análises, suspeitas, críticas, diagnósticos e sentenças sobre o FC Porto. A equipa foi dissecada, questionada, posta em causa e, em alguns momentos, tratada como se tudo o que fizesse estivesse errado, ou, pelo menos, como se houvesse sempre uma explicação para transformar uma virtude num defeito. Foi a comunicação social no seu melhor ou no seu pior, tudo depende, naturalmente, do lado da televisão em que cada um está sentado.
Os adeptos do FC Porto foram ouvindo, os sócios foram ouvindo, uns com indignação, outros com ironia, outros simplesmente com aquela velha sensação de quem conhece demasiado bem o futebol português para se surpreender. Porque há uma coisa que o FC Porto aprendeu há muito, antes de uma grande batalha, há sempre quem tente ganhá-la nos jornais, nas televisões e nos estúdios. E depois, depois, há o campo de jogo. E foi aí que chegados ao domingo, as equipas do FC Porto e SLB encontraram-se no Estádio do Dragão e, de repente, toda aquela montanha de palavras teve de enfrentar uma coisa muito mais simples, noventa minutos de futebol. E nesses 90 minutos, o FC Porto respondeu como melhor sabia, com futebol, com personalidade, com golos. O resultado foi um categórico três a um, sobre o eterno rival.
Mas o problema é que, no futebol português, há resultados que parecem ter dificuldade em chegar aos estúdios. E este, aparentemente, ainda anda à procura de autorização para entrar, isto porque chegámos ao terceiro dia depois do jogo e a televisão continua em estado de emergência analítica.
Já se explicou a arbitragem, já se explicou a única expulsão ocorrida, já se explicou a posse de bola, já se explicou o contexto, já se explicou o momento da equipa de Lisboa, já se explicou o ambiente no Estádio do Dragão, já se explicou, provavelmente, a humidade relativa do ar, agora só falta explicar uma coisa, como é que o FC Porto ganhou 3-1 ao Benfica?
Essa parece ser a pergunta verdadeiramente difícil e aqui começa a parte mais divertida desta história. Porque quando uma equipa é criticada durante toda a semana e depois entra em campo e ganha categoricamente ao adversário, seria normal esperar que, durante alguns dias, se falasse também, imagine-se, da qualidade demonstrada por essa equipa. Mas não, há sempre uma nova explicação, há sempre uma vírgula, há sempre um “sim, mas”, há sempre uma circunstância qualquer que permita retirar mérito ao vencedor e acrescentar complexidade à derrota do vencido.
Talvez daqui a uns dias alguém descubra que o FC Porto ganhou por três porque o Benfica perdeu por três, e assim ficamos todos mais descansados. E o mais curioso é que os mesmos que durante a semana encontravam problemas em praticamente tudo o que o FC Porto fazia, parecem agora incapazes de encontrar uma explicação simples para o que aconteceu. Talvez seja muito simples, talvez o FC Porto tenha jogado bem, talvez tenha sido melhor, talvez tenha entrado em campo com a mesma equipa que durante a semana era apresentada como problemática, mas que, quando a bola começou a rolar, mostrou outra coisa. E talvez seja isso que incomoda.
Porque o futebol tem uma característica terrível para quem gosta demasiado das narrativas, o jogo decide-se dentro das quatro linhas, como aconteceu no passado domingo. Adorei ver a minha equipa responder aos autores da narrativa com um dos melhores jogos desta época. Efectivamente respondeu no lugar onde as respostas valem realmente alguma coisa, no relvado.
Agora autores da narrativa podem continuar a falar, podem continuar a encontrar explicações, podem continuar a transformar uma derrota por 3-1 numa história diferente, é efectivamente um direito de quem comenta, mas há uma coisa que ninguém consegue comentar até desaparecer, o resultado. E para a história o resultado diz que o FC Porto ganhou.
E no passado domingo no Estádio do Dragão, não houve comentadores, narrativas ou teorias, houve futebol, o resto é televisão.